O neuropediatra diz que tomou a iniciativa de escrever a carta a contestar o tratamento às gémeas devido ao custo que teria para o hospital
O neuropediatra Tiago Proença dos Santos admitiu esta sexta-feira que tomou a iniciativa para redigir a carta assinada pelos neuropediatras do Santa Maria a contestar o tratamento das gémeas lusobrasileiras com o fármaco Zolgensma e que a missiva teve como objetivo alertar para o custo do tratamento em pacientes que estavam a ser "bem tratadas" no seu país, o Brasil.
“Elas não estavam a morrer em casa dos pais, estavam noutro país a serem muito bem tratadas”, disse o médico na Comissão Parlamentar de Inquérito, lembrando que próprias crianças não tinham requisitos para viajar para Portugal na altura e que os médicos nunca pediram para “negar” o tratamento, mas sim para “não agilizar” o acesso, uma vez que já estavam ser tratadas com outro fármaco no Brasil.
“Se elas não tivessem sido tratadas com o Nusinersena no Brasil, não teriam chegado a Portugal em condições [para receber o tratamento com o Zolgensma]”, disse, vincando que “não salvamos estas doentes, elas já estavam salvas com o tratamento feito no Brasil”, destacou o médico.
Tiago Proença dos Santos disse, mais do que uma vez, que os médicos do Santa Maria entenderam que o pedido de marcação de consulta não era “inocente” e que houve “resistência” na entrada das gémeas na agenda clínica. “Quando há um pedido para que ela [a doutora Teresa Moreno] marque, a doutora Teresa e todos nós fizemos alguma resistência, tentando chamar à atenção a quem estava a pedir [a dizer que] ‘isto não é um pedido inocente’”, vincou Tiago Proença dos Santos, dizendo que “a resistência foi em aceitar que elas [as bebés] entrassem na nossa agenda”, porque não existia nenhum “pedido formal” com o pedido. “A nossa preocupação foi de natureza económica”, destacou.
Na comissão parlamentar de inquérito - agora com o nome “Comissão eventual de inquérito parlamentar para a verificação da legalidade e da conduta dos responsáveis políticos alegadamente envolvidos na prestação de cuidados de saúde a duas crianças (gémeas) tratadas com o medicamento Zolgensma” -, o médico adiantou que "foi feita pressão sob a doutora Teresa [Moreno] para fazer a marcação” da consulta no Hospital Santa Maria.
Sem conseguir avançar com nomes em concreto, Tiago Proença dos Santos admitiu que houve pressão e que se falava que essa pressão vinha da secretaria de Estado da Saúde. “Se houve alguma pressão, é óbvio que houve. Obviamente, alguém fez alguma coisa, quem fez, não sei”, diz Tiago Proença dos Santos, dizendo que só a doutora Teresa Moreno pode “efetivamente dizer quem a pressionou”.