O problema está logo na partida, já que a maioria dos comboios saem atrasados da estação de origem. Análise da CNN Portugal, feita entre 27 de julho e 2 de agosto, mostra que cada Intercidades ou Alfa Pendular que liga as duas maiores cidades do país chega, em média, 20 minutos depois do suposto
"Senhores passageiros, lamentamos informar que o comboio Intercidades proveniente de Lisboa-Santa Apolónia e com destino a Porto-Campanhã, que deverá dar entrada na Linha número 5, circula com um atraso de..." Entrou na estação do Oriente, em Lisboa, para apanhar um comboio para o Porto e ouviu esta mensagem? Precisava de ir de Campanhã para Santa Apolónia e não chegou a horas ao destino? Se faz esta ligação de forma recorrente, sabe que não é, de todo, uma situação anormal.
Bem pelo contrário. De acordo com uma análise feita pela CNN Portugal durante uma semana, a esmagadora maioria dos comboios de serviços Intercidades e Alfa Pendular que ligam as duas principais cidades portuguesas e chegam à hora prevista contam-se pelos dedos das mãos.
A CNN Portugal analisou durante uma semana inteira os comboios que ligam Lisboa e Porto. Um trabalho que compreende o período entre os dias 27 de julho e 2 de agosto, exatamente uma semana.
Aquilo que constatamos é que, dos 252 comboios que ligam as duas cidades, apenas sete chegaram à hora prevista. O mesmo é dizer que só 2,7% das ligações foram feitas dentro do tempo anunciado.
Um problema anunciado à partida, já que apenas 13% dos referidos comboios partiram da sua origem a horas. Sim, das 252 ligações analisadas, 219 já iam atrasadas antes de a composição começar a andar.
Questionada pela CNN Portugal sobre os constantes atrasos, a CP - Comboios de Portugal nota que, “em termos de indicadores, nos comboios de longo curso, um comboio com até cinco minutos de atraso é considerado pontual”.
Tendo isso em conta, olhamos novamente aos dados. Melhor, mas não muito. Foram apenas 21 os comboios que chegaram a horas ou dentro desse espaço de intervalo de cinco minutos, o equivalente a 8,3%. Mesmo tendo esse parâmetro em consideração, isto significa que apenas 8 em cada 100 comboios que fazem a viagem entre Lisboa e Porto ou vice-versa chegam sem atraso.
Sobre os atrasos constantes nos comboios que fazem serviços de Intercidades, e sendo que muitas ligações analisadas tinham como destino final Braga, Faro, Guimarães ou Valença, por exemplo, a CNN Portugal questionou a CP sobre quais as justificações para os atrasos constantes.
A entidade que gere a ferrovia portuguesa aponta, desde logo, os fenómenos “meteorológicos adversos” que atingiram Portugal, nomeadamente o comboio de tempestades que passou pelo Oeste e pelo Centro - em especial a tempestade Kristin -, e que “afetaram a infraestrutura rodoviária e os condicionamentos de circulação daí decorrentes.
Em todo o caso, e também segundo a CP, já se registavam atrasos antes. “A título de exemplo, em 2025, o tráfego de longo curso - Alfa Pendular e Intercidades - registava atrasos médios no destino de 14 minutos”, pode ler-se na resposta dada à CNN Portugal.
Essa mesma resposta aponta ainda um atraso médio de 23 minutos entre os meses de janeiro a junho de 2026, “sendo o agravamento sentido a partir de fevereiro, após as tempestades registadas no país”.
A análise semanal feita pela CNN Portugal até é, neste ponto, abonatória, já que o atraso médio verificado foi de 20,5 minutos. De referir que nesta contagem estão apenas 227 dos 252 comboios analisados, já que os outros sofreram complicações que os tornam inviáveis para esta análise em concreto, tendo sido afetados por incêndios - dia 27 de julho um grande fogo chegou a cortar a Linha do Norte na zona da Mealhada e um dos comboios chegou 219 minutos depois da hora prevista, por exemplo - ou, em alguns casos, suprimidos.
Quem está habituado a andar de comboio e a utilizar a aplicação móvel da CP sabe que é possível acompanhar os dados em tempo real de cada ligação, conseguindo mesmo ver o trajeto ao vivo.
Nesse momento podemos ver, por exemplo, o trajeto de um comboio que saiu de Lisboa-Santa Apolónia pelas 09:30 com destino a Braga. Pegando neste exemplo em concreto, no dia 28 de julho, verificamos que esse Intercidades saiu a horas, mas também vemos que se foi atrasando paulatinamente, ao ponto de só ter chegado a Porto-Campanhã às 13:44, quando era suposto ter chegado às 12:45. De resto, esse mesmo comboio nem sequer seguiu o resto da viagem, tendo sido suprimidas as ligações a Famalicão, Nine e Braga, algo que só foi dito no dia.
Em resposta à CNN Portugal, a CP refere que “procura disponibilizar aos passageiros informação tão atualizada quanto possível sobre a circulação dos comboios, recorrendo à informação operacional disponível em cada momento, nos próprios comboios e através da app e site”.
Dá também conta de que alguns condicionamentos são conhecidos antecipadamente, mas que outros efeitos imprevisíveis acabam por afetar a circulação. A título de exemplo, a CNN Portugal testemunhou um dia em que um Intercidades que ia fazer a ligação entre Lisboa-Oriente (saída às 22:09) e Porto-Campanhã partiu cerca de uma hora atrasado porque tinha de esperar pelo comboio que vinha de Faro, já que era a última ligação possível entre o Algarve e o Norte naquele dia. De resto, só em Santarém é que foi dito aos passageiros deste comboio que a ligação ferroviária já só ia ser feita até Aveiro, onde chegou já com quase duas horas de atraso, sendo o restante do percurso efetuado através de transbordo rodoviário.
É por isso que, como diz a CP, “os atrasos registados à partida não significam necessariamente que a sua origem esteja na estação onde o comboio inicia a viagem”.
“Acresce que, em determinadas situações, a gestão operacional procura também assegurar ligações entre comboios. Ou seja, quando um passageiro efetua uma viagem constituída por mais do que um comboio, adquirida como um percurso único, quando se verificam atrasos nas ligações de alimentação aos serviços Intercidades ou Alfa Pendular, a CP procura preservar as ligações (o chamado enlace), equilibrando a pontualidade da circulação com a proteção da viagem dos clientes e a qualidade global do serviço prestado”, explica a CP, num caso que se aplica claramente ao descrito pela CNN Portugal.
