Crianças infetadas com dois ou três vírus em simultâneo, constipações mais graves e vírus de inverno no verão: como a covid-19 está a afetar os outros vírus

14 jun, 20:15
Tossir (CUF)

Mudança na sazonalidade dos vírus está a obrigar os hospitais norte-americanos a ajustarem protocolos que durante décadas refletiam o ciclo previsível de doenças que apareciam e desapareciam, consoante o fim das aulas ou as mudanças no estado do tempo, por exemplo

O mês de maio ficou marcado por uma afluência fora do normal no Hospital Pediátrico Yale New Haven, com a entrada de várias crianças infetadas com uma variedade de vírus que surpreendeu os médicos. Foram detetadas infeções por adenovírus, rinovírus, vírus sincicial respiratório (VSR), metapneumovírus humano, influenza, parainfluenza e coronavírus. Algumas das crianças que deram entrada no hospital estavam infetadas com dois vírus em simultâneo, outras chegaram a ter três.

"Isto não é normal em qualquer altura do ano e certamente não é normal nos meses de maio e junho", frisou Thomas Murray, especialista em controlo de infeções e professor associado da Escola de Medicina de Yale, citado pelo The Washington Post.

O que explica então estes surtos fora do normal? Segundo os especialistas, parece haver um denominador comum - a covid-19. Isto porque estes vírus que nos são mais familiares começaram a manifestar-se de forma estranha agora que se passaram mais de dois anos de pandemia. O VSR, por exemplo, uma causa muito comum de infeções das vias aéreas, especialmente em crianças, costuma manifestar-se nos meses de inverno; o rinovírus, que provoca constipações, raramente é motivo para internamentos; e a gripe, que parecia estar de volta em dezembro, depois de um ano sem se manifestar, voltou a desaparecer em janeiro assim que surgiu a variante Ómicron. 

Esta situação já se está a refletir nos hospitais e nos laboratórios, com os médicos a repensar as rotinas de tratamentos, nomeadamente a possibilidade de manter vacinas preventivas até ao verão, e os investigadores a olharem para este fenómeno como uma oportunidade para descobrir se as mudanças no nosso quotidiano motivadas pela pandemia, como os confinamentos, o uso de máscara diário e o distanciamento social, poderão explicar estes surtos.

O epidemiologista Michael Mina diz mesmo que "esta é uma grande experiência natural", apontando que a mudança na sazonalidade dos vírus, tal como a conhecemos, pode dever-se ao facto de termos passado dois anos menos expostos a esses vírus, tornando-nos naturalmente mais vulneráveis aos mesmos.

De acordo com o Washington Post, esta mudança está a obrigar os hospitais norte-americanos a ajustarem protocolos que durante décadas refletiam o ciclo previsível de doenças que apareciam e desapareciam, consoante o fim das aulas ou as mudanças no estado do tempo, por exemplo.

Peter Hotez, virologista e reitor da Escola Nacional de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina de Baylor, no estado do Texas, recorda que anteriormente quando aparecia uma criança com febre o primeiro pensamento era "em que altura do ano é que estamos?". Agora, este pensamento pode deixar de fazer sentido, caso realmente se verifique uma alteração na sazonalidade dos vírus.

Até mesmo uma simples constipação parece assumir agora contornos mais graves. Pelo menos, é essa a análise de Richard Martinello, especialista em vírus respiratórios da Faculdade de Medicina de Yale. "Agora, quando as pessoas ficam constipadas, parece que ficam um pouco pior", disse.

Segundo os especialistas, todas estas alterações parecem refletir as mudanças dos nossos comportamentos durante a pandemia, além da interação entre o SARS-CoV-2 e os restantes vírus - um processo denominado interferência viral. Ou seja, o facto de termos passado tantos meses dentro de casa, protegidos com uma máscara facial e longe uns dos outros, acabou por nos deixar menos expostos aos demais vírus que circulam além do SARS-CoV-2 e, como consequência, o nosso sistema imunitário parece agora menos capaz de produzir as mesmas respostas imunitárias de outrora.

Ellen Foxman, professora associada de Imunobiologia na Faculdade de Medicina de Yale, dedicou vários anos a estudar como os vírus interagem entre si e se há fatores genéticos e ambientais que possam explicar o facto de um mesmo vírus provocar uma mera constipação numa pessoa ao mesmo tempo que deixa outra muito doente.

Para tal, Foxman utiliza células nasais e pulmonares para replicar o tecido das vias aéreas humanas no laboratório antes de o infetar com vírus, juntamente com uma substância contaminante ambiental, como o fumo de cigarro, por exemplo. Este estudo permitiu chegar a novas conclusões sobre o que é conhecido como imunidade inata, ou seja, quando aquelas células detetam um vírus, ativam defesas antivirais que bloqueiam outros vírus.

Este processo pode ajudar a explicar o porquê de não ter ocorrido a chamada "twindemic", um termo que se refere à possibilidade de emergência de um grave surto de gripe acompanhado de um aumento do número de casos de covid-19 durante o outono e inverno de 2020 e 2021.

Apesar dos vários estudos e investigações, a ciência ainda está longe de determinar o que o futuro nos reserva, à medida que a covid-19 se instala cada vez mais no nosso quotidiano. Richard Martinello diz mesmo que ainda "vai demorar algum tempo - talvez anos - para ver como será o novo equilíbrio”.

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