Cinco razões pelas quais não deve contrair a Ómicron propositadamente para “despachar o assunto”

CNN , Sandee LaMotte
12 jan, 08:00
Covid-19 nas Filipinas. AP Photo/Aaron Favila

A pergunta pairou no ar como um cheiro mau, silenciando o pequeno grupo de amigos e familiares com vacinação completa e reforços, à minha mesa de jantar.

“Porque não apanhar a Ómicron e despachar logo o assunto? É ligeira, certo? E pode fortalecer a imunidade?”

O amigo com a vacinação completa e a dose de reforço, uma pessoa com formação, foi sincero na pergunta que fez, ecoando as opiniões ouvidas em muitas plataformas sociais.

A ideia de tentar contrair a Ómicron intencionalmente está “na moda”, diz Paul Offit, diretor do Centro de Educação para as Vacinas do Hospital Pediátrico de Filadélfia, com um suspiro exasperado.

“A ideia pegou logo”, concordou Robert Murphy, diretor-executivo do Instituto Havey para a Saúde Global da Faculdade de Medicina Feinberg, na Universidade Northwestern.

“E é abrangente, chega de todos os tipos de pessoas, vacinadas e com as doses de reforço e também das antivacinas”, acrescentou, com um aviso: “Só um louco se tentaria infetar com isto. É como brincar com dinamite.”

Caso a ideia lhe tenha passado pela cabeça, aqui estão cinco razões pelas quais não deve tentar contrair a Ómicron de propósito.

1. Não é uma “gripe forte”

Febre alta, dores no corpo, gânglios inchados, dores de garganta e forte congestão nasal são sintomas frequentemente relatados, mesmo em casos mais ligeiros da variante Ómicron, disse Murphy, deixando as pessoas debilitadas durante vários dias.

“As pessoas falam da Ómicron como se fosse uma gripe forte. Não é uma gripe má”, disse Murphy. “É uma doença potencialmente fatal.”

Um estudo recente com mais de um milhão de pessoas, publicado pelo Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA, descobriu que o risco de uma consequência grave da covid-19 era maior em pessoas vacinadas com mais de 65 anos, pessoas com o sistema imunológico enfraquecido ou pessoas com pelo menos uma das seguintes doenças: diabetes ou doenças crónicas renais, cardíacas, pulmonares, neurológicas ou hepáticas. 

No entanto, mesmo as pessoas sem doenças associadas podem ficar gravemente doentes, disse Murphy. "Tenho um paciente vacinado e que já recebeu a dose de reforço, que tem mais de 65 anos, mas não tem fatores de risco associados, e que está muito mal no hospital.”

É verdade que se contrairmos a variante Ómicron da covid-19, em comparação com a variante Delta, “temos menos probabilidades de sermos internados, menos probabilidades de ficarmos nos Cuidados Intensivos, menos probabilidades de termos de ser ligados a um ventilador e menos probabilidades de morrer, e isso é válido para todas as faixas etárias”, disse Offit.

“Mas isso não significa que não possa ser uma doença grave”, acrescentou Offit. “É apenas menos grave. Mas não temos 0% de probabilidades de morrer. Nunca devemos querer ser infetados.”

2. Podemos ter sintomas durante muito tempo

A perda de olfato e, consequentemente, de paladar, tornou-se um sintoma mais comum em casos ligeiros de covid-19. Estudos mostram que cerca de 80% das pessoas recuperam esses sentidos no espaço de um mês ou mais, mas outras continuam sem conseguir cheirar ou saborear após seis meses ou mais. Algumas pessoas menos felizes podem nunca recuperar esses dois sentidos.

Por mais desagradável que seja, é apenas uma das várias consequências de saúde que podem durar muito tempo após um caso de covid-19. A chamada “covid duradoura” é caracterizada por sintomas debilitantes como falta de ar, fadiga extrema, febre, tonturas, confusão mental, diarreia, palpitações cardíacas, dores musculares e abdominais, alterações de humor e dificuldades em dormir.

Formas graves de “covid duradoura” podem danificar os pulmões, o coração e os rins, bem como a saúde mental, e podem qualificar-se como uma deficiência sob a Lei dos Americanos com Deficiências e outros estatutos federais.

“Ainda estamos a tentar perceber a ‘covid duradoura’”, disse Offit. “Como não a entendemos, eu não seria precipitado em querer contrair uma infeção de um vírus natural.”

“Um vírus natural é sempre apelidado de ‘vírus selvagem’, e há uma boa razão para isso: está descontrolado”, disse Offit. “Nunca arrisque contrair uma infeção de um vírus natural.”

3. Estaremos a espalhar a doença pelas crianças

Nos Estados Unidos, pouco mais de metade (54%) das crianças entre os 12 e os 17 anos, elegíveis para as vacinas covid-19, fizeram a vacinação completa. Apenas 23% das crianças norte-americanas entre os 5 e os 11 anos receberam a primeira dose, segundo o CCD.

Como as doses de reforço - consideradas uma arma-chave na luta contra a Ómicron – acabaram de ser aprovadas pelo CDC para as crianças com 12 anos nos EUA, poucas foram as mesmas que já receberam essa terceira dose.  

Isso significa que qualquer comportamento de risco que nos possa expor à Ómicron, como não usar máscara, não seguir as orientações de distanciamento social ou de encontros sociais com muita gente, especialmente em ambientes fechados, irá potencialmente expor outras pessoas que podem transmitir o vírus aos filhos.

Dados da Academia Americana de Pediatria mostram uma tendência ascendente de infeções em crianças, que excede em muito “o pico das anteriores vagas da pandemia”.

“Na semana que terminou a 6 de janeiro, foram relatados mais de 580 mil casos de covid-19 em crianças”, segundo números divulgados esta semana pela AAP.

“Esse número representa um aumento de 78% em relação aos 325 mil casos reportados na semana que terminou a 30 de dezembro e quase o triplo da contagem de casos das duas semanas anteriores”, afirmou a AAP.

As infeções por covid-19 em crianças têm sido normalmente ligeiras, durante a pandemia, mas a magnitude dos casos causados ​​pela variante Ómicron, muito contagiosa, está a levar as crianças menores de 18 anos para os hospitais em números recordes, segundo dados do CCD.  

“Eu diria que a melhor maneira de manter essas crianças protegidas é vaciná-las conforme vão sendo elegíveis e rodeá-las de irmãos e pais que também estão vacinados”, disse a diretora do CDC, Rochelle Walensky, numa entrevista na sexta-feira.

4. Aplicaremos pressão no sistema de saúde

Ao contrairmos deliberadamente qualquer variante do SARS-CoV-2, que é o nome oficial do novo coronavírus, “damos continuidade à pandemia e aplicamos pressão no sistema de saúde”, disse Murphy.

No passado fim de semana, quase um quarto dos mais de 5000 hospitais que reportam ao Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA disseram estar a passar por uma “escassez crítica de pessoal”. O número é muito maior do que em qualquer outro momento durante a pandemia, mostraram os dados.

Espera-se que a escassez de pessoal aumente ainda mais à medida que os profissionais de saúde da linha de frente são infetados ou obrigados a ficar em quarentena após serem expostos à covid-19. A escassez de profissionais de saúde não poderia vir em pior altura – mais de 138 mil pacientes com covid-19 estavam internados em hospitais dos EUA, segundo o SSH.

Além disso, os dados do SSH constataram que as Unidades de Cuidados Intensivos em todo o país estão ocupadas em mais de 80%, com quase 30% das camas a serem usadas ​​para tratar pacientes com covid-19. As cirurgias opcionais estão a ser canceladas e as autoridades de saúde estão preocupadas que o sistema de saúde do país não seja capaz de fazer o seu trabalho.

“O sistema de saúde não foi só pensado para cuidar de pessoas com covid. Foi criado para cuidar de crianças com apendicites, pessoas que têm ataques cardíacos ou que se envolvem em acidentes de viação”, disse à CNN Ashish Jha, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade Brown.

“E tudo isso será muito, muito mais difícil porque temos uma grande percentagem da população que não está vacinada, muitas pessoas com um risco elevado que não tomam a dose de reforço”, acrescentou.

5. Não brinquemos com a "Mãe Natureza"

Alguma vez foi boa ideia apanhar uma doença de propósito? Aqueles que têm uma certa idade lembram-se de quando os pais costumavam organizar “festas de varicela” para expor os filhos a uma criança infetada. Como os casos de varicela na idade adulta são mais graves, a ideia era fazer com que o filho a contraísse cedo para “despachar o assunto”.

“Ah, isso também foi uma má ideia”, disse Offit. Ele contou uma história sobre um filme educativo sobre vacinas que fez há alguns anos, e o operador de câmara revelou que tinha uma irmã que tinha levado o filho a uma festa de varicela. Tragicamente, a criança morreu da infeção.

“Não brinquemos com a Mãe Natureza”, disse ele.

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