Covid: se for elegível para tomar agora a dose de reforço não espere pela nova vacina "espetacular" que chega no outono - o que dizem os especialistas

15 ago, 10:00
Vacina contra a covid-19

Vem aí uma nova vacina mas as que existem protegem-nos da doença grave e da morte - e por isso não se pode adiar a toma de algo assim. Fomos ouvir quem sabe

A ministra da Saúde disse há dois meses que a campanha de vacinação contra a covid-19 durante o outono pode incluir as vacinas adaptadas à variante Ómicron - nomeadamente contra a linhagem altamente transmissível BA.5, que é agora a dominante. No entanto, essas vacinas deverão ser numa primeira fase destinadas aos grupos mais vulneráveis, para que possam responder de forma mais rápida e eficaz contra a infeção.

Por isso, a questão que tem sido colocada - seja entre a comunidade científica, seja entre a população - é: estando agora elegíveis para a toma da dose de reforço, as pessoas devem fazê-lo agora ou esperar pelo outono?

Os especialistas ouvidos pela CNN Portugal são unânimes: devem tomar a dose de reforço agora. Para Gustavo Tato Borges, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública (ANMSP), "as pessoas que estão elegíveis deveriam fazer esse reforço agora". Mas não se perde imunidade ao final de seis meses? O especialista explica que a imunidade da vacina é maior durante os seis meses a seguir à toma, no entanto "as pessoas saudáveis mantêm essa imunidade mesmo depois desse período". "Idealmente, quem está agora elegível deve fazê-lo porque vai ter um fator protetor contra doença grave e a morte, deixando as vacinas que vão chegar para os grupos mais vulneráveis. Ou seja, devem ser vacinados agora aqueles que estão elegíveis e não fazem parte de nenhum grupo de risco." Até porque, sublinha, "não temos a certeza da quantidade de vacinas adaptadas à Ómicron que vão chegar." 

A grande preocupação das pessoas prende-se com a imunidade da vacina, uma vez que querem estar protegidas durante o outono/inverno, período em que o número de novos casos tende a aumentar. Por isso mesmo, Miguel Prudêncio, especialista em vacinação do Instituto de Medicina Molecular (IMM), considera a dúvida "legítima" e compreende que exista quem "queira fazer a vacina mais tarde e dessa forma prolongar a imunidade por mais tempo". No entanto, adiar a dose de reforço faz com que as pessoas - as que pertencem a grupos de risco e as que não pertencem - "estejam a correr um risco desnecessário".

"No caso de pessoas particularmente vulneráveis, idosos ou pessoas com outras condições clínicas, eu sou da opinião de que o reforço deve ser feito assim que esteja elegível. Para o restante da população, também acho que o reforço deve ser feito estando já disponível. Eu percebo que as pessoas hesitem, percebo o raciocínio, mas não me parece a forma mais adequada. Quanto mais tempo o primeiro reforço for adiado, mais tempo a pessoa está desprotegida. A proteção adicional desse reforço, se for feito agora, não desaparece passado um mês. Quando chegar o período em que se regista um aumento do número de casos, essa proteção adicional vai estar presente." 

O pneumologista Filipe Froes também defende que quem "tem indicação para fazer a dose de reforço deve cumprir o esquema vacinal proposto", principalmente aquelas que pertencem a grupos de risco. Explica ainda que mesmo quem tenha tido covid-19, por exemplo, há quatro meses "tem um risco de se reinfetar porque a imunidade natural pode já não ser suficiente."

Contudo, é importante saber que o facto de tomar uma primeira dose de reforço agora não é impedimento para tomar uma outra - como por exemplo a vacina adaptada à variante Ómicron - até ao final do ano. "É perfeitamente equacional que num futuro próximo, daqui a uns meses, venha a ser pedido um segundo reforço", explica Miguel Prudêncio. Filipe Froes partilha da mesma opinião: "O facto de as pessoas concluírem agora o esquema vacinal não as impede de fazer um reforço com novas vacinas no final do ano. A pandemia não acabou e a prioridade neste momento é proteger os mais frágeis".

Existe aqui um outro fator que nunca é demais ser relembrado. O objetivo das vacinas contra a covid-19 é, sobretudo, proteger de doença grave e da morte. Não impedem infeções ou reinfeções. "A vacina inicial, efetivamente, não é tão eficaz a proteger contra a infeção pela Ómicron mas continua a ter uma elevada eficácia contra a doença grave. Ou seja, temos de fazer a clara distinção entre infeção e doença e as pessoas tendem a confundir as duas coisas. Contrair covid não é um sinal de falhanço da vacina. A pessoa teve covid mas não desenvolveu sintomas graves. É isso que importa. As pessoas não devem fazer a sua análise com base na equação 'esta vacina não faz nada e daqui a uns meses tenho uma espetacular'", argumenta o especialista em vacinação e investigador no IMM. 

E as crianças, devem levar a dose de reforço agora ou esperar pelo início das aulas? A resposta é a mesma, devem ser cumpridas as datas do esquema vacinal. Até porque, diz Gustavo Tato Borges, "não falta assim tanto tempo para as aulas começarem e ainda estão no período de proteção".

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