Vacinação infantil: o que sustentou a decisão dos especialistas

8 dez 2021, 15:36

Especialistas avaliaram cenário do inverno passado para traçar cenários, concluindo que a infeção está em níveis semelhantes junto dos mais novos. Processo de inoculação deverá começar pelas crianças com 11 anos ou com doenças associadas

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Na hora de recomendar a vacinação contra a covid-19 a crianças entre os cinco e os 11 anos, os peritos da comissão técnica tiveram de avaliar os prós e contras da decisão. O primeiro prato da balança acabou por pesar mais forte, ditando a luz verde da Direção-Geral da Saúde. Mas como foi o processo até lá chegar?

Para traçar cenários, os especialistas começaram por avaliar o período entre dezembro de 2020 e março de 2021. “Parecia-nos legítimo, como aproximação ao número de casos que vamos ter, tomar o período homólogo”, explica, nesta quarta-feira, o epidemiologista Manuel Carmo Gomes à CNN Portugal.

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Até porque existem comportamentos que se repetem, como o maior número de contactos na época festiva.

“Fomos ver se o que estava a acontecer agora destoa muito do que aconteceu no ano passado. Neste grupo etário, não destoa muito. Estamos com uma incidência, dos cinco aos 11 anos, igual à primeira metade de janeiro de 2021”, concretiza.

Os dados vindos da DGS e dos hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) comprovaram-no. E daí a perspetiva, mais provável, de que a vacinação desta faixa etária vá permitir evitar 13.500 infeções, 51 internamentos e cinco recursos aos cuidados intensivos nos próximos quatro meses, como avançou a CNN Portugal.

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Impacto na saúde mental

Neste exercício de ponderação entram elementos quantificáveis – como os dados disponíveis sobre infeções e internamentos no SNS – mas também aspetos que não podem facilmente ser traduzidos por números e que a vacinação pode ajudar a “evitar”.

Manuel Carmo Gomes, que também é membro da comissão técnica que deu parecer positivo à vacinação, fala em benefícios para a saúde mental das crianças pelo simples facto de “não estarem tão sujeitas a confinamentos ou interrupções letivas” devido a casos confirmados ou suspeitos. Por outro lado, evita-se também que os pais tenham de faltar ao trabalho, dificultando o dia a dia das próprias empresas.

Embora não tenha sido possível calcular, porque exigiria mais tempo de análise, admite-se um impacto no controlo da propagação da doença no resto da comunidade. O perito insiste que os mais novos são uma das faixas etárias a que é preciso ter atenção para evitar novas surpresas.

“Dos cinco aos 11 anos temos 450 casos por dia, nos 12 aos 17 são 135. E estes últimos têm hábitos de socialização mais intensos”, remata.

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O outro lado da moeda

Questionado sobre o outro lado da balança, com os contras associados à vacinação, Manuel Carmo Gomes diz só encontrar “duas coisas”: o risco de miocardites e as questões éticas. Mas até para estes aspetos tem contra-argumentos.

No caso das miocardites – que são uma inflamação do músculo do coração – o especialista recorre aos dados europeus. “Dos 12 aos 15 anos, é de 0,4 [casos] por 100 mil nas raparigas e de 2,2 por 100 mil nos rapazes.” Contudo, estes jovens levaram uma dose de adulto. “Ao administrarmos uma dose pediátrica, esperamos ainda menos casos de miocardites”, diz.

Já sobre as questões éticas, descarta o argumento que se estão a vacinar as crianças para proteger os adultos: “Estamos a vacinar as crianças para proteger as crianças.”

Vacinação de Crianças já é realidade noutros países (Foto: AP)

Prioridade a crianças mais velhas, com obesidade ou asma

António Sarmento, diretor de Infeciologia do Hospital de São João e membro da comissão técnica de vacinação, explica que esta ponderação, com recursos a dados nacionais, é algo comum sempre que se avalia a introdução de uma vacina no país. “Tem de se ver se aquilo que vai trazer de bom vale a pena, se supera o que poderá haver de incerto. Para termos a maior segurança possível”, resume.

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À CNN Portugal, o perito revela que a vacinação das crianças mais novas deverá começar por aquelas com 11 anos, descendo gradualmente até aos cinco, uma informação entretanto confirmada pelo próprio primeiro-ministro. A “grande prioridade” será abranger, num primeiro momento, aquelas que apresentam outras doenças como obesidade, diabetes, asma ou síndrome de Down.

“Se tiverem covid-19, a probabilidade de morte é muito maior. Aumenta 12 a 19 vezes”, informa.

António Sarmento dá o exemplo da Áustria, país com um número de crianças entre os cinco e os 11 anos semelhante a Portugal, nos 600 mil. Na Áustria, registaram-se cerca de 70 mil infeções pelo novo coronavírus nos últimos meses. Destas, 30 mil crianças acabaram por desenvolver a doença. “Se tivermos 30 mil crianças na mesma situação, já sabemos entre nós que o risco de hospitalização é de 0,2 a 0,4%”, aponta.

“Tenho três netos com mais de cinco anos de idade e não hesito em aconselhar os meus filhos a vaciná-los”, assegura.

António Sarmento reconhece que a eficácia das vacinas não é total mas recorda experiências passadas, que acabaram por se revelar seguras, como a vacina da meningite. “E não estávamos numa situação de catástrofe. Agora estamos”, reforçou.

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Doença é ligeira mas mais vale prevenir

Por agora, as autoridades de saúde ainda não definiram o intervalo entre a primeira e a segunda dose da vacina pediátrica. A nível internacional, este espaço tem variado entre três e oito semanas.

Maria João Baptista, médica especialista em Cardiologia Pediátrica no Hospital de São João, defende a eficácia da vacina, falando num “benefício direto para as crianças”. “A vacina tem-se afirmado como sendo segura”, afirma em entrevista à CNN Portugal.

A clínica destaca que os sintomas sentidos pelas crianças inoculadas serão ligeiros, como dor no braço e febre baixa, até porque se trata de uma dose menor do que nos adultos. Já no que respeita às miocardites, insiste que “não há complicações semelhantes ao que temos num grupo etário mais tardio”.

A pediatra recorda que, mesmo em caso de infeção, os sintomas nas crianças entre os cinco e os 11 anos deverão ser ligeiros. “Quando uma mãe me liga, a mensagem que transmito é clara: calma, o mais provável é não acontecer nada”, diz.

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Contudo, insiste que a vacina é determinante para evitar situações de internamento.

Esperar seria melhor, diz investigador

Mas, se o tema divide os pais, também o faz entre os especialistas. Miguel Castanho, investigador do Instituto de Medicina Molecular, é categórico: “Não necessitávamos de tomar a decisão agora. Podíamos esperar mais dados e tomar a decisão depois.” Em causa, diz, estão os dados conhecidos, que “não têm [tido] novidades nas últimas semanas”.

O investigador alerta que a falta de conhecimento novo “é surpreendente”, lembrando que as informações existentes vêm de ensaios com poucas pessoas.

À CNN Portugal, insiste que o melhor seria esperar mais uns meses para tomar a decisão de vacinar as crianças, até porque as farmacêuticas estão a preparar novas vacinas para lidar com as variantes mais recentes da covid-19.

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