Confinamento e adenovírus? Cientistas mais perto de descobrir causa da hepatite aguda em crianças

26 abr, 10:47
Criança com máscara

Dados mais recentes indicam que a alteração genética de uma estirpe de adenovírus, aliada ao confinamento ou a eventuais sequelas da covid-19, poderão estar na origem do número crescente de casos de inflamação aguda do fígado em crianças. Mas a causa das hepatites continua por identificar

Os casos de hepatite aguda de origem desconhecida em crianças deverão ter origem num vírus comum que habitualmente causa doenças respiratórias: o adenovírus. 

Segundo Meera Chand, que lidera o departamento de infecciologia da UK Health Security Agency - equivalente britânica da Direção-Geral da Saúde - uma estirpe do adenovírus denominada F41 será a causa mais provável, pelo menos de acordo com os dados disponíveis até ao momento. 

"A informação reunida pela nossa investigação sugere de forma crescente que o aumento súbito de casos de hepatite está ligado a infeção por adenovírus", disse Chand, citada pela BBC.

A especialista, que esteve em Lisboa para participar numa sessão de emergência no âmbito do Congresso de Microbiologia e Doenças Infeciosas, que decorre desde sábado passado e termina esta terça-feira, admitiu porém que estão a ser investigadas outras causas potenciais desta inflamação do fígado, que afeta sobretudo crianças com menos de dez anos. 

Até ao momento, e a nível global, já foram registados 169 casos de hepatite aguda em crianças, que resultaram numa morte e dezenas de transplantes hepáticos, ainda que a doença seja normalmente autolimitada e se resolva em poucas semanas, alertam os pediatras. Portugal não tem ainda registo de qualquer caso de hepatite aguda de origem desconhecida, mas o Diretor do Programa Nacional para as Hepatites Virais disse à CNN Portugal que as autoridades portuguesas de saúde estão informadas e alerta. 

Por agora, a principal hipótese em investigação admite que tenha havido uma alteração genética desta estirpe F41 do adenovírus que possa espoletar uma inflação no fígado. Até agora, há apenas uma certeza: por trás desta hepatite aguda agora diagnosticada não estão os vírus que normalmente causam as hepatites (do tipo  A, B, C, D ou E). 

O adenovírus, por seu lado, não está normalmente associado a inflamações hepáticas. "As manifestações clínicas [do adenovírus] podem incluir os sintomas de uma constipação, faringite, amigdalite ou otite média. Em crianças muito pequenas e em adultos imunocomprometidos podem ocorrer, ocasionalmente, situações mais graves como infecção disseminada, pneumonia grave, meningite e encefalite", lê-se no site da Direção-Geral da Saúde, que acrescenta: "Os adenovírus são agentes conhecidos desde há muito e são responsáveis por infecções respiratórias quase sempre de evolução benigna".

Confinamento comprometeu imunidade

Uma eventual mudança genética do adenovírus não será, porém, a única causa a fazer subir o número de hepatites agudas em crianças. Segundo outra hipótese apresentada no congresso de Lisboa, a pandemia poderá também ter tido alguma influência, uma vez que que os confinamentos sucessivos e outras restrições acabaram por resguardar as crianças. Os menores foram naturalmente expostos a menores quantidades de vírus, o que pode resultar numa resposta imunitária desadequada com a reabertura da sociedade e o alívio das medidas para impedir o contágio da covid-19. E os adenovírus transmitem-se através do contacto próximo, pela tosse e espirros, ou pelo toque de superfícies contaminadas.

Segundo Meera Chand, das 53 crianças que foram diagnosticadas com hepatite aguda só em Inglaterra, 75% tiveram teste positivo para infeção por adenovírus. E as infeções por adenovírus nas crianças inglesas entre os 12 meses e os quatro anos está nos níveis mais altos de sempre em comparação com os últimos cinco anos, revelou ainda a especialista. 

"A nossa principal hipótese, perante os dados que temos visto, é que temos provavelmente um adenovírus normal a circular, mas temos um factor paralelo a afetar uma faixa etária particular de crianças e que está a tornar a infeção mais severa ou a fazê-la espoletar algum tipo [de resposta imunitária desadequada]", sublinhou Chand. 

Já Deirdre Kelly, especialista em hepatologia pediátrica e que tem trabalhado com a equipa que está a investigar os casos de hepatite aguda no Reino Unido, admitiu que devido ao isolamento as crianças possam  estar a responder a vírus para os quais já deveriam ter imunidade.

"Ou poderá ser uma infeção anterior com covid-19 que tenha afetado os sistemas de defesa do corpo", sublinhou ainda a especialista, citada pelo The Guardian

Note-se que os investigadores já afastaram qualquer relação da hepatite aguda de origem desconhecida com a vacina contra a covid-19, até porque a grande maioria das crianças que tem registado problemas hepáticos não tinha sido sequer vacinada, por estar abaixo do limite de idade.

Os casos de hepatite aguda em crianças já foram detetados em 12 países, com pelo menos 169 casos reportados pela Organização Mundial de Saúde - de acordo com o balanço mais recente, que remonta ao dia 21 de abril. O Reino Unido regista a maioria dos casos, seguindo-se Espanha e Israel. Também foram registados casos nos Estados Unidos, Dinamarca, Itália, França ou Bélgica.

Os sintomas de uma hepatite aguda são normalmente inespecíficos e podem confundir-se com os de uma gripe ou gastroenterite: as crianças podem ter náuseas, vómitos, diarreia ou perda de apetite, cansaço, dores musculares ou icterícia das escleróticas - cor amarelada na parte branca dos olhos. Também são comuns, segundo os especialistas, a urina mais escura e as fezes mais claras, dor abdominal, febre e comichão na pele. 

A boa higienização das mãos, superfícies e alimentos é uma forma de impedir o contágio das infeções mais comuns, evitando igualmente a transmissão do adenovírus que poderá estar na origem desta inflamação aguda do fígado. 

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