Três más notícias no combate à covid em Portugal

16 fev, 13:14

Peritos e políticos reuniram-se no Infarmed. Vem aí um alívio das restrições: as boas notícias são superiores às más notícias mas é preciso cuidados com estas últimas, sublinham os especialistas em Saúde

A quinta vaga de covid-19 atingiu o pico a 28 de janeiro e Portugal está, "objetivamente, numa fase endémica", mas da reunião que juntou Infarmed e políticos também saíram algumas más notícias. Como já vinha sendo adiantado por vários especialistas, o SARS-CoV-2 deve tornar-se um vírus sazonal, semelhante ao que aconteceu com outros coronavírus - e ao que acontece com a gripe, nomeadamente. Essa sazonalizade deve verificar-se no outono/inverno e espera-se o aparecimento de um novo pico a partir de setembro deste ano. Até lá, um dos problemas quase certos é aparecimento de novas variantes, potencialmente mais transmissíveis e com maior resistência à imunidade conferida pelas vacinas ou pela recuperação.

Ana Paula Rodrigues, do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), frisa que há assimetrias mundiais da vacinação que tornam como "quase certa" a ocorrência de novas variantes ao longo do tempo, "com novas características" de infeção, bem como uma "variação do nível de imunidade populacional" ao longo do tempo. Curiosamente, se a vacinação é um dos pontos fortes em Portugal, o facto de ser um ponto fraco noutros países acaba por propiciar o aparecimento de outras mutações.

Foi o que aconteceu com a variante Ómicron, por exemplo - apareceu na África do Sul, que tinha uma cobertura vacinal mais baixa -, que elevou os níveis de infeção a valores nunca antes vistos e que lançou o mundo para uma quinta vaga. Ainda que se verifique uma menor mortalidade associada a essa mutação, o exponencial aumento de casos faz com que haja mais mortes e esse risco pode sempre acontecer com o aparecimento de novas variantes.

Esse é um risco que Baltazar Nunes, também do INSA, refere como "crítico", apontando mesmo aquele como um fator decisivo na gestão de novas vagas, nomeadamente naquela que se prevê para o outono/inverno deste ano.

A eventual perda de imunidade perante uma nova vacina pode ser um revés e é por isso que os especialistas pedem uma constante monitorização: "É certo que vamos necessitar de manter a vigilância a nível população com a monitorização do número de casos", afirmou Ana Paula Rodrigues.

Resumindo: novo pico no outono, novas variantes, eventual perda de imunidade - eis as três más notícias que saíram da reunião desta quarta-feira no Infarmed.

Novo sistema para monitorização

Para controlar e evitar o aparecimento dessas "más notícias", os peritos ouvidos na reunião do Infarmed propõem um sistema de vigilância de infeções respiratórias que integre o SARS-Cov-2, mas também a gripe e o vírus sincicial respiratório.

“Vamos necessitar de manter a vigilância (…) e conseguir identificar tendências de evolução”, afirmou Ana Paula Rodrigues, sublinhando que o que se propõe é “olhar com maior detalhe para as infeções respiratórias para se conseguir uniformizar o que se vai observando”.

“À medida que as medidas de saúde pública forem sendo aliviadas, não vai ser necessário identificar todos os casos de infeção, como fazemos. As estratégias de testagem vão mudar e, gradualmente, o foco de interesse vai mudar para os casos de doença com impacto na morbilidade, na mortalidade e na resposta dos serviços saúde”, afirmou.

Ana Paula Rodrigues disse ainda que o sistema agora proposto permitirá uma maior otimização de recursos e sublinhou a importância deste modelo de vigilância, uma vez que há “outros agentes respiratórios de igual potencial epidémico e sazonal”, como o vírus da gripe e o vírus sincicial respiratório.

Este sistema de vigilância de infeções respiratórias agudas permitirá uma recolha integrada e uniforme dos dados clínicos e laboratoriais, permitindo pré-selecionar unidades de saúde para “ter uma amostra representativa” da população.

“Assim, teremos potencial capacidade para monitorizar a incidência da doença, ao mesmo tempo que monitorizamos a gripe e outros agentes de infeção respiratória”, explicou Ana Paula Rodrigues durante a sua intervenção no Infarmed, designada "Vigilância na fase de recuperação da pandemia".

A especialista do INSA sublinhou ainda a alteração do padrão epidemiológico da covid-19, lembrando que, “embora mantenha uma muito elevada transmissibilidade”, traduz-se numa menor gravidade da doença e num menor impacto na exigência de resposta dos serviços de saúde e na mortalidade, “fruto da evolução do vírus, mas sobretudo devido à cobertura vacinal”.

Más notícias combatem-se com diferentes níveis

Se as más notícias perspetivam o futuro, o presente faz-se de uma fase de estabilidade da pandemia. É nesse sentido que Raquel Duarte, especialista da Administração Regional de Saúde Norte, apresentou as recomendações para a gestão da covid-19, comparando as medidas atuais com os níveis de restrições na União Europeia e no Reino Unido: "Portugal é um dos países que têm menos medidas restritivas, tendo apostado em medidas como o uso de máscaras".

Frisando "fatores protetores" e "ameaças" à população, salienta que "estamos em situação de passar o nível de menos medidas restritivas", que divide em dois níveis - que pode ver ao detalhe AQUI.

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