opinião
Diretor Executivo de Conteúdos da TVI

O Governo desconfia das vacinas?

1 dez 2021, 07:00

Lembra-se do verão deste ano, quando nos pediam que nos vacinássemos para combater a pandemia?

Lembra-se daquele orgulho coletivo que sentimos de cada vez que uma nova etapa era ultrapassada e nos tornávamos os campeões do mundo?

Éramos os privilegiados que agora já não tinham de fazer testes para nada, porque tínhamos escolhido a ciência e ignorado a desinformação.

Lembra-se dessa festa? Foi uma bela festa, nós todos juntos a dançar nas discotecas com os estrangeiros curiosos a escrever reportagens sobre o pequeno país que tinha mostrado ao mundo como se faz.

Mas, entretanto, chegou o inverno. Os números voltaram a subir. E a festa da vacina tornou-se so last season.

A partir de hoje, testes é que é. Não interessa se está ou não vacinado. Se for visitar a avó no lar, visitar o tio ao hospital, se for a um espetáculo ou ao futebol, ou testa negativo ou fica em casa.

E quem chegar a Portugal por avião faz o mesmo, ou leva multa. Mesmo que já esteja duplamente vacinado, mesmo que esteja tudo certo com o certificado europeu. Teste negativo ou certificado de recuperação da doença. Mais nada.

Bruxelas, claro, não gosta desta originalidade portuguesa, acredita que Portugal está a violar princípios europeus e pede mais coordenação e menos reação.
Eu também não gosto. Sobretudo porque ninguém me explica se o governo passou a desconfiar da eficácia das vacinas enquanto pede reforços. E se sim, porquê. Por que razão se tomaram estas medidas que contrariam a campanha que se andou a fazer durante 9 meses? Que dados científicos têm as nossas autoridades para fundamentar novas regras e porque é que não os partilham connosco? Que realidade escondem os números que nos divulgam todos os dias sem enquadramento (que idade têm os que morrem e são internados, de que doenças padecem, morrem de Covid ou com Covid, estão ou não vacinados). No fundo, porque é que os campeões da vacinação são dos primeiros a prescindir da medalha?

Bem sei que a pandemia não acabou, que agora há uma nova variante sobre a qual sabemos pouco e que é preciso precaução.

Mas quando se fecha todo um serviço de urgência no hospital porque foi detetado um caso Ómicron, ou quando se proíbe familiares de irem buscar passageiros ao aeroporto (que já testaram negativo), isto não é apenas precaução.

São regras arbitrárias, é pânico e é desorientação. É o retrato de um país com medo, que ainda há uns meses andava em festa porque tinha 90% de vacinados.

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