O que pode o mundo aprender com os países onde a Ómicron está a crescer?

CNN , Laura Smith-Spark
21 dez 2021, 09:00
Covid-19. Foto: AP Photo/Michel Euler
Covid-19. Foto: AP Photo/Michel Euler

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A África do Sul, o Reino Unido e a Dinamarca são três dos países onde a variante Ómicron está em franca expansão, menos de um mês depois de ter sido detetada pela primeira vez.

O Reino Unido procura sair desta crise através da vacinação, com uma campanha acelerada para inocular com a terceira dose da vacina contra a covid-19 todos os adultos elegíveis até ao final de Dezembro.

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Na África do Sul, entretanto, os investigadores dizem que os dados iniciais sugerem que a Ómicron provoca sintomas mais leves, mas ainda não se sabe exatamente qual o papel que a imunidade dada pela vacinação ou por uma infeção anterior desempenha nisso.

A Dinamarca está a ponderar novas restrições, numa tentativa de controlar um pico de novos casos.

Então, o que podem os outros países aprender com a experiência destes?

É tarde demais para evitar a propagação da Ómicron

Apesar de muitos países estarem a impor uma série de restrições de viagens, esta variante espalhou-se rapidamente por todo o mundo.

O Diretor-Geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse numa conferência de imprensa na semana passada que 77 países comunicaram já casos de Ómicron, e que "a realidade é que a Ómicron estará provavelmente na grande maioria dos países, mesmo que ainda não tenha sido detetada".

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"A Ómicron está a espalhar-se a um ritmo que não vimos com nenhuma variante anterior", disse Tedros. "Receamos que as pessoas estejam a considerar a Ómicron como ligeira". Certamente, já sabemos por esta altura que subestimamos este vírus por nossa conta e risco".

Tedros acrescentou que, mesmo que a Ómicron cause uma doença mais ligeira, "o número de casos por si só pode mais uma vez sobrecarregar os sistemas de saúde menos preparados".

O governo britânico retirou 11 países, todos na África Austral, da sua "lista vermelha", devido à propagação da variante Ómicron dentro das suas próprias fronteiras, o que significa que a quarentena em hotel já não é exigida aos viajantes vindos desses destinos.

A variante já foi detetada em pelo menos 40 estados americanos, além de Washington DC e Porto Rico, segundo declarações públicas dos sistemas de saúde e das autoridades estatais nos seus respetivos estados.

"Imagino que a Ómicron estará omnipresente muito em breve," disse à CNN Michael Head, investigador sénior em saúde global da Universidade de Southampton, em Inglaterra. "E haverá muitos casos da variante Ómicron que a maioria dos países ainda não detetou, em parte porque os sistemas de testagem e as capacidades genómicas podem ser limitadas".

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Em breve, a Ómicron será a variante dominante

Os dois primeiros casos da variante Ómicron foram detetados no Reino Unido a 27 de Novembro. Na terça-feira da semana passada, a Ómicron já tinha ultrapassado a Delta como a estirpe de covid-19 dominante em Londres, segundo a Agência de Segurança Sanitária do Reino Unido.

"Agora, mais do que nunca, é vital ser inoculado com a primeira, a segunda ou a dose de reforço o mais depressa possível. Por favor, não deixem este assunto nas mãos do acaso", escreveu no Twitter o diretor regional de saúde pública de Londres, Kevin Fenton.

O Ministro da Saúde do Reino Unido, Sajid Javid, disse que os casos de Ómicron duplicavam a cada dois dias no país, acrescentando que "o crescimento dos casos Ómicron no país está agora a espelhar o rápido aumento a que assistimos na África do Sul".

Na sexta-feira, o Reino Unido tinha registado 93.045 novos casos de coronavírus, de acordo com dados governamentais, o número diário mais elevado desde que a pandemia começou. A África do Sul também registou na quarta-feira o seu maior número de casos diários de sempre.

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O Statens Serum Institute (SSI) da Dinamarca disse que é esperado que a Ómicron se torne na variante dominante do coronavírus já esta semana. Quase 10.000 casos de infeção foram confirmados no país nas últimas 24 horas, disse o SSI na quinta-feira.

A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Fredricksen, disse que o número de casos era "muito, muito elevado e não tem dúvidas de que serão necessárias novas medidas para quebrar as cadeias de transmissão".

Pessoas fazem fila para receberem a dose de reforço no centro de vacinação do Hospital St. Thomas, em Londres, a 15 de dezembro de 2021.

Entretanto, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse aos legisladores em Bruxelas que se previa que a variante Ómicron se tornasse na variante dominante nos 27 países da EU até meados de janeiro.

Na sua última avaliação de risco, publicada na quarta-feira, o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (CEPCD) advertiu que havia um risco "muito elevado" de que a variante se propagasse ainda mais na região, acrescentando que "é altamente provável que provoque mais hospitalizações e vítimas mortais", para além das já previstas para a variante Delta.

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Nos Estados Unidos, o Diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas, Anthony Fauci, disse à CNN que a Ómicron se tornaria na variante dominante nos EUA, com toda a certeza, dado o seu ritmo de duplicação.

Mas Fauci disse que ainda não se sabe o que isso significará a nível de doença grave.

No seu site, o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA calcula agora que a Ómicron represente 2,9% dos vírus em circulação, contra os 96,8% da variante Delta, desde a semana que terminou a 11 de dezembro.

Ainda é cedo demais para saber se a infeção por Ómicron é mais ligeira

Os dados da África do Sul estão a ser analisados em busca de pistas sobre como a propagação da Ómicron poderia ocorrer noutros países.

O Instituto Nacional para as Doenças Contagiosas da África do Sul (NICD) tem sido cautelosamente otimista. "Embora os dados ainda estejam a ser recolhidos, as provas sugerem que a vaga atual poderá ser menos grave", disse a agência.

Um estudo divulgado na terça-feira da semana passada pela Discovery Health, uma grande companhia de seguros de saúde na África do Sul que cobre 3,7 milhões de pessoas, concluiu que as vacinas fornecem menos proteção contra a nova estirpe, mas deram indicações de que a Ómicron causa sintomas mais leves do que as variantes anteriores.

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Duas doses da vacina da Pfizer oferecem 33% de proteção contra a infeção no geral, mas proporcionam 70% de eficácia na prevenção de complicações graves, incluindo a  hospitalização, segundo os investigadores.

Entretanto, o risco de hospitalização devido à covid-19 é 29% mais baixo para as infeções com Ómicron nos adultos, em comparação com a estirpe original, revela o estudo.

Uma moradora regista os seus dados num centro móvel de testagem para a covid-19, no bairro de Milnerton, na Cidade do Cabo, África do Sul, a 2 de dezembro.

Mas outros estão menos confiantes. O bastonário da Ordem dos Médicos britânico, Chris Whitty, alertou que os recordes diários britânicos de casos de covid-19 "serão batidos várias vezes nas próximas semanas, à medida que a taxa de infeção continuar a subir", e que isto se traduzirá num aumento do número de pessoas que precisarão de ser hospitalizadas nas próximas semanas.

"Quero ser claro: receio que isto vá ser um problema", disse Whitty na quarta-feira. "(As) proporções exatas desta nova vaga, ainda estão a ser determinadas pelos cientistas sul-africanos, britânicos e de todo o mundo".

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Precisa-se com urgência de mais dados em tempo real, antes que os cientistas possam começar a avaliar a gravidade da infeção pela variante Ómicron noutras populações, disse Head.

No Reino Unido, os cientistas irão analisar o impacto da variante numa população em que 89% da população com 12 ou mais anos recebeu pelo menos uma dose de uma vacina contra a covid-19, e em que 44% das pessoas com 12 ou mais anos receberam as duas doses e uma de reforço, segundo os dados oficiais. Mas o panorama é muito diferente noutros países.

"Em muitos países por todo o mundo há pessoas não vacinadas ou que levaram apenas uma dose; na África subsariana, a maioria das pessoas ainda não tomou as duas doses", disse Head. "Por isso, temos de ver se existe alguma proteção nessas populações também".

Na África do Sul, é possível que as pessoas já tenham alguma imunidade ao vírus, seja através da vacinação, de infeção anterior ou ambas, e isso está a protegê-las, segundo Richard Friedland, CEO da rede hospitalar privada Netcare. Vários estudos demonstraram que as pessoas que são naturalmente infetadas e que depois são vacinadas têm uma imunidade muito forte. A população da África do Sul é também maioritariamente muito jovem.

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A vacina, só por si, não travará a Ómicron

Os especialistas de saúde recomendam que, à medida que a Ómicron se espalha, os países continuem a implementar as intervenções não-farmacêuticas (INFs) já conhecidas para reduzir a transmissão de vírus aéreos, tais como o distanciamento social e uma boa ventilação dentro de casa.

"Os países podem e devem impedir a propagação da Ómicron com medidas que funcionam hoje", disse Tedros, o diretor da OMS. "Não se trata de vacinar em vez de usar máscaras". Não se trata de vacinar em vez do distanciamento. Não se trata de vacinar em vez de ventilar os espaços ou ter uma boa higiene das mãos. É tudo. Façam tudo. E façam-no de forma consistente". Façam-no bem".

Perante o que o primeiro-ministro Boris Johnson descreveu como uma "vaga gigantesca" de infeções por Ómicron, o governo britânico decidiu "acelerar drasticamente" a sua campanha para administrar as doses de reforço.

O gabinete de Johnson citou dados que sugerem que "a eficácia da vacina contra infeções sintomáticas é substancialmente reduzida contra a Ómicron com apenas duas doses, mas que uma terceira dose reforça a proteção até mais de 70%".

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No entanto, o parlamento britânico também aprovou a obrigatoriedade de passes sanitários covid, que funcionam como prova de vacinação ou de um recente teste negativo, para entrada em discotecas e grandes espaços, apesar da forte oposição dentro do próprio partido de Johnson. Os legisladores também aprovaram medidas que incluem o uso obrigatório de máscaras na maioria dos espaços interiores.

O Ministro da Saúde da África do Sul, Joe Phaahla, apelou na quinta-feira a um "comportamento responsável e cumprimento mais rigoroso" das restrições devido à covid-19, a fim de evitar um possível aumento do número de casos relacionados com a época festiva, lia-se num comunicado de imprensa do ministério.

Head disse que era importante continuar as medidas de mitigação, assegurando ao mesmo tempo que as populações de todo o mundo, incluindo os países mais pobres, tenham acesso a três doses da vacina contra a covid-19 o mais rapidamente possível, o que ainda poderá demorar mais 12 a 24 meses, advertiu.

A procura por vacinas e testes poderá aumentar

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O aumento da variante Ómicron pode encorajar mais pessoas a levar a dose de reforço e levar a um aumento na procura de testes para a covid-19.

Como o Reino Unido abriu esta semana o seu programa de vacinação de reforço a todos os adultos elegíveis, o site do NHS (Serviço Nacional de Saúde) foi abaixo devido à grande procura do agendamento das doses de reforço, os kits de testagem deixaram de estar disponíveis online e formaram-se longas filas nos centros de vacinação em regime de casa aberta. A Agência de Segurança Sanitária do Reino Unido disse na quarta-feira que estava a duplicar o número de kits de autotestes caseiros que iria disponibilizar.

O SSI da Dinamarca também informou na semana passada que o sistema nacional de testagem para a covid-19 estava sob pressão, à medida que o número de infeções aumentava.

A procura por vacinas na África do Sul não aumentou desde o aparecimento da Ómicron. Mas o presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, que testou positivo para a covid-19 entretanto, instou os seus concidadãos a vacinarem-se. "Façam tudo o que puderem e precisarem para se manterem seguros, começando pela vacinação", escreveu ele no Twitter. Ramaphosa foi obrigado a adiar a sua dose de reforço, disse o seu gabinete.

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Apesar do aumento do número de casos, poderá não haver mais confinamentos

Tem-se falado pouco em novos confinamentos até agora, apesar da preocupação com a rápida disseminação da Ómicron.

Durante a visita a um centro de vacinação em Ramsgate, no sul de Inglaterra, o primeiro-ministro britânico disse que, em vez de "fechar o país", o governo está a pedir às pessoas para "serem cautelosas" e "pensarem nas suas atividades nos dias que antecedem o Natal".

Johnson, que enfrentou um escândalo devido a alegadas festas em Downing Street no inverno passado, numa clara violação das restrições em vigor, acrescentou: "A situação é muito diferente da do ano passado, porque temos a proteção adicional das vacinas e uma maior capacidade de testagem".

"Penso que, cientificamente, existe atualmente um argumento muito forte a favor da implementação de novas restrições, mas politicamente, isso é menos aceitável", disse Head.

No entanto, os países "devem ter a noção de que poderão ter de decretar novos confinamentos a dada altura", disse ele, seja com esta variante ou uma futura, uma vez que um confinamento "é um instrumento útil de último recurso".

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Os países ainda estão a recorrer a uma série de outras medidas para tentar travar a propagação das variantes Ómicron e Delta. Por exemplo, França anunciou na sexta-feira que os grandes eventos e aglomerações ao ar livre serão proibidos na passagem de ano, numa altura em que o país enfrenta a sua quinta vaga de infeções por covid-19. Na Irlanda, os restaurantes e bares serão obrigados a encerrar às 20 horas. Entretanto, a Noruega proibiu a venda e consumo de álcool em restaurantes e bares, além de impor mais restrições nas escolas e acelerar a sua campanha de vacinação.

Mas também parece haver alguma aceitação de que as pessoas terão de aprender a viver com a nova variante, especialmente nos países onde as taxas de vacinação contra a covid-19 são elevadas.

No estado australiano da Nova Gales do Sul, onde 93,3% das pessoas com 16 anos ou mais estão totalmente vacinadas, as restrições estão a ser atenuadas esta semana, apesar de terem sido detetados casos de Ómicron.

"O vírus está aqui, a Ómicron está na Austrália, vamos viver com o vírus e não deixaremos que ele nos faça recuar de novo", disse à rádio 4BC o primeiro-ministro australiano, Scott Morrison.

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