Na China, 37 milhões de pessoas estão em confinamento devido à covid. Eis o que sabemos

16 mar, 23:50
Residentes alinham-se para os testes de covid-19 em Shenzhen, na China. Foto: STR/AFP/AFP/Getty Images

Dezenas de milhões de pessoas estão a viver em confinamento na China, dado que o país enfrenta o pior surto de covid-19 desde o início da pandemia

Este surto propagou-se muito mais depressa do que as vagas anteriores de variantes menos contagiosas, com os casos diários a dispararem de algumas dezenas em fevereiro para mais de 5 100 nesta terça-feira, o número mais alto desde o início do surto em 2020, em Wuhan.

O número pode parecer baixo em comparação com outros países, mas é extremamente elevado para um país que tentou erradicar os surtos e as cadeias de transmissão com uma política de tolerância zero face à covid ao longo da pandemia.

Na terça-feira, foram comunicados casos em 21 províncias e municípios de todo o país, inclusive na capital, Pequim, e noutras grandes cidades como Xangai e Shenzhen.

Os casos podem ainda estar na casa dos milhares, mas a partir de terça-feira 37 milhões de pessoas entraram em confinamento.

Eis o que sabemos sobre o surto da China.

Como é que esta vaga começou?

Os casos começaram a aumentar no início do mês em algumas províncias do país, incluindo em Shandong no leste, em Guangdong no sul e em Jilin no nordeste.

A 6 de março, os peritos alertaram que a situação era “grave” em algumas localidades, mas estavam confiantes de que “a China ainda detém a capacidade para a controlar”, avançou na altura o tabloide estatal “Global Times”.

A província de Jilin, que partilha uma fronteira com a Coreia do Norte, depressa se tornou muito falada devido a um aglomerado de universitários que causou indignação pública online, após os estudantes em quarentena se terem queixado das más condições em que se encontravam.

Mais de quatro mil das infeções de terça-feira pertenciam a Jilin. Quase metade do total das infeções deste surto são dessa província e os casos ainda não atingiram o pico, alertaram as autoridades sanitárias na terça-feira.

As autoridades e os meios de comunicação estatais dizem que ainda não é claro como surgiram os primeiros surtos.

Mas vários fatores, incluindo casos importados do estrangeiro e a prevalência da variante Ómicron, acentuaram a gravidade do surto em todo o país, disse o “Global Times”, citando Wu Zunyou, epidemiologista-chefe do Centro Chinês de Controlo e Prevenção de Doenças.

Qual é a variante que está a propagar-se?

A Ómicron tem dominado este surto. Os casos propagaram-se rapidamente e foram mais difíceis de detetar devido aos sintomas ligeiros da Ómicron e ao tempo de incubação mais curto, segundo os meios de comunicação estatais.

A variante altamente contagiosa substituiu a Delta como a estirpe dominante no país, abrangendo cerca de 80% dos casos recentes, disse Wu ao “Global Times”.

Ele acrescentou que os peritos detetam tanto casos da BA.1, a Ómicron original, como da BA.2, uma subvariante que foi detetada pela primeira vez em janeiro e apelidada como “variante furtiva” porque, à primeira vista, em testes de laboratório pode ser igual a outras variantes da covid.

Em Qingdao, foram realizadas ações de desinfeção e de controlo da epidemia. Foto: Costfoto/Future Publishing/Getty Images

A BA.2 é cerca de 30% mais transmissível do que a BA.1, segundo os estudos iniciais do Reino Unido e da Dinamarca. Agora causa cerca de 1 em cada 5 casos de covid-19 em todo o mundo, com casos detetados em dezenas de países, incluindo os EUA, segundo a Organização Mundial de Saúde. 
A BA.2 foi detetada no surto de Jilin, segundo o CCTV, o canal de notícias estatal.

Contudo, ainda não é claro se causa doenças mais graves, mas alguns estudos indicam que não provocará muitas hospitalizações e mortes, em parte por ter surgido pouco depois da vaga original de Ómicron e as pessoas terem anticorpos protetores, quer de infeções recentes quer das doses de reforço da vacina.

Quais são os confinamentos e as restrições que estão em vigor?

Cinco cidades, que coletivamente albergam mais de 37 milhões de residentes, estão sob vários níveis de confinamento.

Os residentes de Changchun, cidade da província de Jilin, Shenzhen e Dongguan estão proibidos de sair dos seus bairros, exceto os trabalhadores essenciais e serviços de emergência. Só uma pessoa por cada agregado familiar pode ir ao supermercado a cada dois ou três dias.

A quinta cidade, Langfang, foi mais longe e proibiu todos os residentes de sair de casa, exceto por razões de emergência.

Várias destas cidades suspenderam os transportes públicos e os restaurantes, encerraram escolas e estão a realizar testagens em massa a todos os residentes. A cidade de Jilin iniciou a sua quinta ronda de testagens na terça-feira, com fotos a mostrar os residentes em fila na rua, na neve, bem agasalhados.

A província de Jilin também implementou restrições a viagens, proibindo os residentes de sair da província ou de viajar entre as cidades da província.
Mas estes confinamentos também representam um grande desafio logístico para o Governo, tendo o CCTV anunciado que a província só tem medicamentos em stock para alguns dias.

As autoridades apressam-se a aumentar a capacidade dos cuidados médicos nas zonas mais atingidas, por exemplo, a construção de centros de tratamento temporários em Changchun e na cidade de Jilin, e o destacamento de milhares de soldados para ajudar no trabalho de controlo à covid, segundo o “Global Times”.

Será que a China manterá a política de tolerância zero à covid?

Como as variantes se foram tornando cada vez mais contagiosas em 2021 - primeiro a Delta e depois a Ómicron - muitos países abandonaram a abordagem de tolerância zero à covid em prol de se viver com o vírus.

A China e os seus territórios, incluindo Hong Kong, também enfrentam uma vaga muito forte, sendo os maiores redutos.

Apesar de alguns líderes e cientistas chineses terem dado a entender que a China se poderia afastar da estratégia, isso provavelmente não acontecerá tão cedo, visto que a retórica atual é de baixar os casos de covid novamente para zero.

Um homem atravessa uma rua vazia em Changchun, na China. Foto: Feature China/Future Publishing/Getty Images

Han Jun, o governador da província de Jilin, prometeu na segunda-feira pôr termo a todas as transmissões na comunidade no espaço de uma semana, e isso foi alvo de escárnio nas redes sociais chinesas, tendo muitos dito que era uma promessa vã. Outros pediram que resolvesse assuntos mais prementes primeiro, como a escassez de produtos alimentares e outros bens essenciais.

“Pense no quanto as pessoas sofreram quando Xian quis alcançar ‘a transmissão zero entre a comunidade’,” dizia um comentário na Wiebo, uma plataforma semelhante ao Twitter.

A cidade de Xian esteve em confinamento durante mais de um mês, de dezembro a janeiro. Alguns residentes queixaram-se da falta de acesso a alimentos e a bens básicos como pensos higiénicos e até mesmo cuidados médicos de emergência, transmitindo assim o governo local uma imagem de incapacidade e causando protestos em todo o país.

“É melhor estar completamente preparado e erradicar a transmissão da covid de forma gradual”, estava escrito num comentário da Weibo.
“Se for feito à pressa, as pessoas é que vão sofrer.”

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