Da pandemia à sindemia. Covid-19 deixou os pobres mais expostos (na carteira e na saúde mental)

11 jul, 00:00
A situação de endemia tem vindo a ser debatida desde o início do ano. (Pixabay)

Com a pandemia, todos experienciaram stress e ansiedade, mas foram os mais pobres aqueles que mais lhe sentiram o impacto, confirma um relatório do Conselho Nacional de Saúde

“Quanto mais tempo se mantiver a população em confinamento, maiores serão os riscos de impacto na saúde mental. Se a estes aspetos associarmos as consequências para a economia de pessoas e famílias com um aumento da pobreza e das desigualdades, enfrentamos claramente uma sindemia, que deve ser acompanhada e combatida como tal”.

Há uma palavra na frase acima que, provavelmente, desconhece o significado: sindemia. Mas é isso que, para os investigadores do Conselho Nacional de Saúde (CNS), está a acontecer com a covid-19 em Portugal. De uma forma simples, uma sindemia dá-se quando uma doença contribui para acentuar outra realidade já existente, como os problemas económicos e sociais.

O relatório “A Pandemia de Covid-19 – Desafios para a Saúde dos Portugueses” permite retirar a seguinte conclusão: com a pandemia, todos experienciaram stress e ansiedade, mas foram os mais pobres aqueles que mais lhe sentiram (e estão ainda a sentir) o impacto.

“A pandemia poderá ter, direta e indiretamente, afetado a saúde mental da população e levado ao aumento de procura dos serviços relevantes [acompanhamento psicológico e/ou psiquiátrico]. Medo, luto, isolamento, perda de rendimento poderão ter desencadeado novos problemas de saúde mental ou agravado os pré-existentes”, pode ler-se.

Citando um outro estudo, o CNS refere que um dos caminhos para lidar com o contexto de pandemia terá passado pela adoção de comportamentos aditivos, com um aumento no consumo de “tabaco, álcool, bebidas energéticas, jogos de fortuna e azar e cannabis”. Não é feita, contudo, qualquer associação entre este consumo e as condições económicas das famílias.

Os especialistas alertam que é preciso estar atento ao desenvolvimento dos indicadores relativos à saúde mental, mesmo que tenha havido “uma redução dos níveis de stress, ansiedade e depressão, reflexo de uma adaptação generalizada às adversidades da pandemia” de 2020 para 2021.

Os receios sobre o pouco que se ganha

Insegurança financeira, desemprego, pobreza e desigualdade. Fazem todos parte da lista de fatores de risco para o bem-estar mental. Daí que a saúde mental de muitas famílias, sobretudo daquelas com rendimentos mais apertados, se tenha deteriorado com a pandemia. O CNS recorre a diferentes estudos realizados em Portugal para confirmar esta tese.

O aumento dos níveis de ansiedade e stress no início da pandemia ocorreram com “maior frequência em pessoas que reportam dificuldade na conciliação trabalho-família e preocupação com a manutenção do trabalho ou do rendimento". E concretiza-se depois: “foram sobretudo as mulheres, os jovens adultos entre os 18 e os 29 anos, os desempregados e os indivíduos com menor rendimento quem apresentou mais frequentemente sintomas de sofrimento psicológico moderado a grave”.

Os efeitos de uma economia fechada pelo vírus não afetaram todos da mesma maneira – com o aumento das inscrições nos centros de emprego, por exemplo, a sentirem-se sobretudo em pessoas com o ensino básico ou secundário.

“Os trabalhadores pouco qualificados de baixas remunerações, com contratos precários ou envolvidos na economia informal (operários da construção civil, trabalhadores dos transportes, dos serviços sociais, por exemplo, muitas vezes imigrantes ou pertencentes a grupos étnicos minoritários) revelam-se não só como dos mais atingidos pela pandemia como os que suportam intensamente as suas consequências negativas sobre o seu nível de vida”, resume o documento.

As escolhas alimentares possíveis

Com a pandemia, e as famílias fechadas em casa, os hábitos alimentares degradaram-se e o sedentarismo instalou-se. “Sobretudo em pessoas com maior carência económica”, indica o estudo do CNS. O stress e as novas rotinas puseram os portugueses a petiscar mais e, muitas vezes, a fazer escolhas alimentares erradas, limitadas pelos seus orçamentos – e pelas piscadelas de olho do marketing dos supermercados.

“Um padrão de risco apontando para a co-ocorrência de níveis de atividade física baixos, aumento do consumo de snacks e refrigerantes, ausência de consulta das recomendações da Direção-Geral da Saúde sobre atividade física e alimentação saudável em contexto de isolamento físico, má situação financeira, menor nível de escolaridade, bem como mais tempo em situação de confinamento social”, confirma.

A explosão de informação

Em 2020, perante um vírus desconhecido, ligar a televisão ou correr as redes sociais era sempre um exercício de resistência. Segundo dados citados pelo estudo do CNS, quase um terço das pessoas que viviam em agregados com maior privação económica reportavam dificuldade em distinguir notícias falsas. E mais de 40% sentia ansiedade ao ler as notícias, uma proporção também acima da registada em outros níveis de escolaridade. Ora, neste limbo que não permite às famílias ter a sensação de segurança para tomar as suas decisões, acabam por aumentar a incerteza e a ansiedade.

Incerteza: o elemento que adia decisões

Com os casais mais tempo em casa, houve quem, por brincadeira, colocasse a questão nestes termos: ou o tempo juntos incentiva o romance (e, por consequência, uma gravidez) ou acabam por descobrir que, afinal, não queriam continuar casados. Afinal, nem uma, nem outra.

“O confinamento dos casais não se veio a traduzir num aumento do número de gravidezes”, diz o estudo. E porquê? “Crise sanitária e incerteza sobre o futuro, desemprego e precariedade laboral, nomeadamente, são fatores que terão desencorajado a decisão de ter filhos”.

Já no que respeita aos divórcios, “nem sequer chegou ao volume observado nos anos anteriores”. Os investigadores também arriscam uma explicação: “pode dever-se a uma resposta conservadora perante a incerteza económica e social decorrente desta crise. Pode ser também fruto do adiamento de processos que virão a acontecer num futuro próximo”.

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