Covid, a pergunta: quando é que se declara mesmo o fim da pandemia? Eis a resposta da OMS à CNN Portugal (e como os especialistas por cá não estão todos de acordo)

7 ago, 08:00
Máscara de proteção (Pexels)

2023 será o ano da viragem, mas acautelemos primeiro 2022

Quando vai acabar a pandemia? Esta é a questão que mais se repete nestes 29 meses de convivência com o SARS-CoV-2 e Organização Mundial da Saúde (OMS) é taxativa na resposta. “As novas vagas do vírus demonstram novamente que a pandemia de covid-19 ainda não acabou”, diz a OMS numa resposta por escrito enviada à CNN Portugal.

O médico Bernardo Gomes, o investigador Miguel Castanho e o matemático Óscar Felgueiras partilham da mesma opinião e defendem que a imprevisibilidade impede a antecipação do fim da pandemia. Já o virologista Pedro Simas acredita que “já saímos de situação pandêmica há muito tempo”.

“Para mim, como virologista e cientista, e há mais de 30 anos que estudo os vírus, desde que se vacinaram os grupos de risco, em maio, o problema biológico de saúde pública da pandemia ficou praticamente mitigado em Portugal e viu-se isso com surtos de infeção nos lares em que a taxa de doença e mortalidade era significativamente mais baixa porque estavam protegidas”, argumenta Pedro Simas, diretor-executivo do Católica BioMedical Research. “Rapidamente a OMS deveria declarar o fim da pandemia.”

Mas então porque é que a própria Organização Mundial da Saúde não declarou ainda o fim da pandemia? Para Pedro Simas, isso deve-se a dois fatores - o facto de o mundo “andar a dois ritmos” no que diz respeito às novas infeções e vacinação e por uma questão de “precaução, a ideia de prevenir em vez de remediar, mas a probabilidade de isto correr mal é pequena”.

Miguel Castanho, investigador do Instituto de Medicina Molecular da Universidade de Lisboa, tem uma visão oposta: “Uma das características de podermos estar em endemia é poder prever e se não podemos prever é porque não estamos em endemia”.

Apesar de afirmar que a pandemia ainda não acabou, a própria OMS anunciou em março o terceiro Plano Estratégico de Preparação, Prontidão e Resposta atualizado para a covid-19 e na altura disse que “pode e deve ser o último”, uma afirmação repetida no e-mail enviado à CNN Portugal, no qual fala em três cenários mais prováveis para o SARS-CoV-2, todos eles numa ótica de convivência natural com o vírus, tal como acontece com outros vírus respiratórios - embora não descarte medidas e uma alteração nas vacinas atuais, de modo a promover uma maior proteção e que cheguem às pessoas mais vulneráveis mais rapidamente.

Fonte da Direção-Geral da Saúde afirma que Portugal está numa “situação mais confortável” mas que “é difícil dizer” se será anunciada uma mudança na abordagem da doença, embora possa estar em cima da mesa “uma abordagem das doenças respiratórias como um todo”. É esperada uma nova norma para a vacinação dos grupos mais vulneráveis ainda este mês e “quando sair isso teremos alguma informação sobre o assunto”.

2023 será o ano da viragem, mas acautelemos primeiro 2022

“A covid-19 continua a ser uma pandemia e ainda é imprevisível quando teremos uma normalização da nossa vida em função do impacto da covid”, começa por dizer Bernardo Gomes, vice-presidente da Associação Nacional Médicos de Saúde Pública e docente na Universidade do Porto. Mas é expectável que estejamos na mesma imprevisibilidade em 2023? Talvez não. “É possível que 2023 seja um ano de viragem, mas tudo aponta para que o outono e inverno de 2022 ainda nos ofereça alguns desafios”, prevê.

“Neste momento estamos no período inter-epidémico. Portugal passou por uma grande onda e de momento não tem uma variante nova, vivemos numa altura mais calma, ainda que com alguns números a ter em conta”, explica Bernardo Gomes, que se apressa a dizer que “enquanto população continuamos sob um risco que não podemos quantificar” e que “não nos podemos deixar cair na falácia de dizer que a pandemia acabou”.

O investigador Miguel Castanho volta a destacar a importância das estações frias que se avizinham. “A grande interrogação é o que vai acontecer no inverno e  haver essa interrogação mostra que não estamos em endemia. Importa deixar claro para a população que a situação pode piorar e que pode ser necessário adotar novas medidas no inverno. Temos de evitar discursos triunfalistas que possam levar a relutância na hora de adotar medidas”, frisa o investigador, que recentemente já tinha afirmado que é “precipitado” dizer que já estamos em endemia.

Sobre este ponto, Pedro Simas insiste que “prever o futuro não é adivinhar - é prepararmo-nos com o conhecimento do passado” - e sublinha que “nos invernos é um clássico as notícias de que o SNS fica entupido com questões de vírus respiratórios e este ano até pode ser mais complicado pelo efeito colateral da covid noutros vírus respiratórios”, mas garante que “é claro que o vírus vai circular e com picos, até próximos do da Ómicron, mas não temos de estar preocupados com isso”.

Para Óscar Felgueiras, matemático e especialista em epidemiologia da Universidade do Porto, a questão não é assim tão linear e “as várias vezes” que “as regras do jogo mudaram” provam que a imprevisibilidade continua a dominar: “Os cenários dependem de fatores que muitas vezes desconhecemos na totalidade”. “Ao dia de hoje permanece alguma incerteza, mas o que expectável é que haja um certo efeito de sazonalidade que trará volta e meia novas ondas”, diz o matemático, frisando que “é mesmo um pouco de futurologia” tentar prever o que se avizinha, sobretudo no que diz respeito à entrada em endemia, mas que tudo indica que “o impacto que vamos ter agora no outono e no inverno será muito dependente das característica próprias da variante nova que venha substituir a atual”. Porém, e olhando para o que até agora aconteceu, defende que “o mais previsível é que a nova vaga tenha menor impacto que no passado”.

E o que dizem os estudos feitos recentemente e os especialistas internacionais?

A previsão do fim da pandemia é uma questão colocada em todo o mundo e que cientistas, médicos e epidemiologistas dos mais variados países têm tentado responder. Em junho deste ano, um estudo publicado na revista Journal of Medical Virology revela que o fim da covid-19 pode acontecer ainda este ano mas que os danos ainda se farão sentir depois disso. “A análise mostrou que a pandemia de covid-19 pode terminar em 2022, mas a covid-19 pode ser uma ou duas vezes mais mortal que a gripe sazonal até 2023.” O efeito a longo prazo, a chamada long covid ou covid de longa duração, e o facto de este ser desconhecido (em tempo e intensidade) é, para o médico Bernardo Gomes, um motivo para dizer que a pandemia ainda não acabou. “Saiu um artigo esta semana na Nature sobre os impactos cardiovasculares ainda por quantificar.” Esse artigo indica que alguns estudos sugerem que o risco de problemas cardiovasculares, como ataque cardíaco ou acidente vascular cerebral, permanece alto mesmo muitos meses após o desaparecimento de uma infecção por SARS-CoV-2.

Segundo um estudo publicado este ano na revista The Lancet, “os impactos da futura transmissão do SARS-CoV-2 na saúde, no entanto, serão menores devido à ampla exposição anterior ao vírus, às vacinas regularmente adaptadas a novos antígenos ou variantes, ao advento dos antivirais e ao conhecimento de que os vulneráveis ​​podem se proteger”, um conjunto de fatores que poderá ditar o fim da era pandémica da covid-19 a curto ou médio prazo. Mas, perante “ondas futuras”, pode ser necessário voltar a usar “máscaras de alta qualidade e [adotar o] distanciamento físico”. Mas, dizem os cientistas, o mais certo é que a covid-19 se torne uma “doença recorrente que os sistemas de saúde e as sociedades terão de gerir”.

O cenário de o vírus se manter junto da comunidade mas com menos gravidade, mesmo que seja mais capaz de infetar, tem sido apontado como positivo para a entrada em endemia e sobre iso Robert Wachter, presidente do departamento de medicina da Universidade da Califórnia, diz que “podemos estar nesta fase para sempre”, refere citado pela The New Yorker. Já Nicholas Christakis, médico e sociólogo da Universidade de Yale, em declarações à mesma publicação, defende que “a maioria das pandemias chega ao fim” uma vez que “podem terminar biologicamente, no sentido de que as infecções diminuem ou causam cada vez menos danos”.

Vacinas, gestão ordenada dos governos e proteção dos idosos é a tríade apresentada num estudo da Nature para se ditar o fim da pandemia. Mas Abraar Karan, médico Hospital Brigham and Women's e da Harvard Medical School, num artigo assinado na BJM, defende que “as ferramentas clínicas são excelentes — como médico, uso-as todos os dias para salvar a vida dos pacientes, mas como investigador de saúde pública sei que a pandemia só terminará quando minimizarmos com sucesso a transmissão aérea”.

OMS já traçou a estratégia para o fim da pandemia

Sem avançar com datas para o anúncio, a OMS já tem preparada uma estratégia para dar fim à “fase aguda da pandemia este ano”, diz à CNN Portugal, mas defende que tal apenas é possível se os países investirem em cinco componentes principais, colocando a responsabilidade nos governos de cada país. Em primeiro lugar, a OMS defende uma maior aposta em “vigilância, laboratórios e inteligência em saúde pública” e, em segundo, uma aposta na “vacinação” e em medidas sociais e de saúde pública” nas comunidades envolvidas. 

A vacinação tem sido o escudo-protetor defendido por todos os especialistas, mas os reforços constantes têm sido colocados em causa, até mesmo pelas autoridades internacionais de saúde. Quanto à administração da segunda dose de reforço na população geral, Miguel Castanho diz que tem “dúvidas” quanto aos benefícios e Pedro Simas diz mesmo que “seria um erro de saúde pública e do ponto de vista virológico pode ser contraproducente”. Ambos defendem que a quarta dose faz sentido apenas para os grupos de risco. Os quatro especialistas consultados pela CNN Portugal defendem que a aposta deve ser feita nas vacinas mais modernas, que não só previnem a doença como também a transmissão. 

O “atendimento clínico para covid-19 e sistemas de saúde resilientes” é a terceira estratégia defendida pela OMS, que apela ainda “à pesquisa e desenvolvimento e acesso equitativo a ferramentas e bens”, o que não tem acontecido e que tem levado o mundo a andar a dois ritmos no combate ao vírus, sobretudo pela dificuldade de acesso a vacinas por parte de alguns países. “E quinto”, escreve, “coordenação, à medida que a resposta passe de um modo de emergência para a gestão de doenças respiratórias a longo prazo”, o cenário tido como mais provável e que fará com que o SARS-CoV-2, em algum momento, seja visto e tratado como a gripe, por exemplo.

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