Estamos todos prontos para deixar a máscara? Vamos com calma (porque há quem precise de superar medos e inseguranças)

22 abr, 07:00
Lisboa

Esta sexta-feira já não é obrigatório usar máscara em espaços fechados, mas nem todos vão dar esse passo no imediato. A CNN Portugal falou com vários especialistas que explicam que, se para algumas pessoas esta nova fase será um alívio, para outras pode ser um problema, seja por receio de contágio próprio ou de familiares, seja por ansiedade ou simplesmente pelo hábito que ganharam em dois anos de pandemia

Uma mulher, com cerca dos 40 anos, fica corada com facilidade. Ao longo dos últimos dois anos, conseguiu esconder o vermelho da vergonha e da timidez. A máscara protegeu-a, além da pandemia, das suas próprias inseguranças. Perante a iminência de uma mudança das medidas restritivas no País precisou de recorrer à terapia para conseguir retirá-la. O caso está a ser acompanhado pela psicóloga Catarina Lucas. É uma das muitas situações que estão a chegar aos terapeutas e que atingem pessoas que sabem que vão ter dificuldade em tirar a máscara. Um cenário que esta sexta-feira se tornou real, depois do Presidente da República ter promulgado  o decreto do Governo que deixou cair o uso obrigatório da máscara na maioria dos locais fechados – exceção feita aos transportes públicos e às unidades de saúde.

“Vamos todos estranhar um bocadinho o fim da máscara”, diz a psicóloga, mesmo que a sensação geral no País seja a de que, finalmente, chegou esse momento de libertação. Certamente já notou, entre os seus amigos ou colegas de trabalho, que o rigor no uso da máscara começou a afrouxar há muito.

“Há um grande desejo de deixarmos de a usar, de libertação. Pode haver um momento de euforia, que pode também ser um risco bastante grande”, considera Gustavo Tato Borges, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública.

E é esse risco, de aumentar as probabilidades de contágio, que estará na origem das maiores reticências em retirar a máscara. Isabel Santos, psicóloga, conta que no início dos tratamentos pede aos pacientes que a baixem momentaneamente, para lhes ver o rosto, porque tal ajuda a criar pontes importantes para a terapia. “Há alguns que não querem mesmo baixar”, diz.

Máscaras fazem parte do quotidiano há dois anos (AP Photo)

Perfis e motivos para a resistência

A estranheza será real. Tal como estranhámos, há dois anos, quando nos confrontámos com as primeiras pessoas a usar máscara, ainda ela não era obrigatória.  Faz parte da natureza humana essa resistência à mudança, mesmo que mudar signifique ficar mais perto do que havia antes. “É normal que haja alguma reação e um acréscimo de preocupação”, explica o psicólogo Miguel Ricou.

Mas haverá perfis mais propensos a resistir na hora de retirar a máscara? À partida, aqueles que têm fatores de risco (como a idade avançadas ou outras doenças), perturbações obsessivo-compulsivas ou são hipocondríacos. Estes estarão mais propensos a manter a máscara mesmo quando ela deixar de ser obrigatória.

Mas ficar por este retrato seria limitador, porque, de facto, não há um perfil fechado. Há muitos motivos para não querer tirar a máscara, incluindo a vergonha de sorrir em público. “Vejo todo o tipo de pessoas, com todo o tipo de formações, receosas de tirar a máscara”, diz o virologista Pedro Simas. E dá um exemplo concreto: um trabalhador de supermercado que lhe contou que pediu à empresa para continuar a usar a máscara no trabalho, mesmo quando ela não for obrigatória, porque quer proteger um familiar que é doente de risco.

Cada caso é um caso. E, por isso, cada um deles precisa do seu tempo. Se há quem o vá fazer de imediato esta sexta-feira, outros manterão a cautela. Mas quando é que a resistência a tirar a máscara pode ser problemática? “Se não conseguirmos fazer esse processo de adaptação, se isso nos provocar ansiedade, se nos deixa muito desconfortáveis, é um sinal de alarme” de que poderá ser necessária aconselhamento profissional, adianta a psicóloga Catarina Lucas.

Mesmo os momentos de partilha familiar foram marcados pelo uso de máscara (Pexels)

Uma “nova cultura”

Imagine a seguinte situação: uma reunião de trabalho onde apenas uma pessoa não usa máscara. O cenário inverte a realidade atual. Como devem os restantes comportar-se? Sentir-se-á aquele que usa máscara desconfortável? Segundo os especialistas ouvidos pela CNN Portugal, tudo se resume a uma palavra: “respeito”.

“O importante é que não fique aquela sensação que, tal como se discriminava quando não se usava máscara, também agora não pode haver uma discriminação a quem queira continuar a usar”, apela Miguel Ricou. Porque, mesmo sem a obrigação, a liberdade de usá-la existe.

“Devemos manter uma atitude de respeito, de aceitação”, reforça Pedro Simas, que insiste que esse processo de retirada da máscara só será eficaz quando as pessoas sentirem a confiança necessária. E para tal, aponta, muito importa o trabalho de informação e sensibilização por parte das autoridades de saúde.

Mas o desaparecimento total da máscara poderá nunca ser uma realidade, porque ela evitou que outras doenças ganhassem escala nos últimos dois anos. “Há uma nova cultura que foi criada. As pessoas perceberam que tem uma enorme capacidade de prevenir infeções respiratórias”, traça o pneumologista Carlos Robalo Cordeiro, para falar de períodos onde essa realidade poderá tornar-se mais visível. E dá o exemplo das sociedades orientais, onde a máscara já era usada antes desta pandemia, para lidar com a poluição e para proteger os outros de doenças.

Especialistas destacam benefícios para as crianças por retirar a máscara (Getty Images)

De acordo: ganha-se mais em tirar

“A retirada da máscara, para muitas pessoas, não irá acontecer, porque elas vivem numa camisa de forças que é a própria ansiedade em relação à doença”, acredita a psicóloga Isabel Santos. E, com isso, perdem um conjunto de experiências – tão simples como o sorriso - que dão força à posição partilhada pelos especialistas ouvidos pela CNN Portugal: há maiores benefícios em retirar a máscara do que em mantê-la, numa altura em que a vacinação e a imunização natural são uma realidade sólida em Portugal.

“As pessoas vão beneficiar socialmente, educacionalmente, psicologicamente”, diz Carlos Robalo Cordeiro. Os benefícios para as crianças – dado que a máscara deixa de ser obrigatória nas escolas – são os mais frequentemente destacados, pela capacidade de através de um rosto descoberto aprenderem melhor a falar, avaliarem as emoções dos outros e estabelecerem amizades. No fundo, o que nos torna humanos.

Começa assim a desaparecer um símbolo que nos recorda algo perigoso, negativo, que limita a falta de liberdade. “E a liberdade é sempre o último desejo de qualquer ser vivo. Mas máxima liberdade, máxima responsabilidade”, avisa a psicóloga Isabel Santos.

Os especialistas têm a consciência que, sem esta restrição, o número de casos de covid-19 poderá aumentar nos próximos tempos e que poderá – como aliás admite o Governo – ser necessário dar um passo atrás a qualquer momento. “Temos de aprender a viver com este vírus como vivemos com outros vírus”, diz Pedro Simas. E aprender também a desmascarar os receios, as vergonhas e as ansiedades que ele ajudou a cultivar.

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