opinião
Pediatra Unidade de Pneumologia Pediátrica, Centro Materno-Infantil do Norte Professor auxiliar convidado do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar e da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Vacinação de crianças: contra as crenças infundadas, os dados científicos

31 jan, 11:11

Artigo de opinião do pediatra Manuel Ferreira de Magalhães

Vacinar salva vidas e protege a população.

Contudo, paradoxalmente, uma publicação recente apela à suspensão da vacinação contra o SARS-CoV-2 em crianças e jovens, invocando a defesa da leges artis e da saúde dos portugueses, particularmente das crianças e jovens. No entanto, nessa publicação não vem referido um único estudo que valide as suas intenções.

Importa, portanto, esclarecer concretamente de que forma é que a campanha de vacinação de toda a população desde os 5 anos é, na verdade, uma estratégia que cumpre absolutamente a leges artis e que defende não só a saúde física, mental, ocupacional e intelectual dos portugueses, mas também o seu bem-estar social, cultural, académico e económico.

Um dos grandes avanços da medicina moderna é a denominada medicina baseada na evidência. Esta é uma forma de estruturação e aplicação do conhecimento médico global na prática clínica, através de dados concretos, reais, mensuráveis e replicáveis. A junção de todos estes conhecimentos médicos-científicos com os princípios bioéticos definem o que é a leges artis. Esta é, por sua vez, um conceito dinâmico que vai sendo atualizado com a evidência científica, permitindo a compilação de protocolos, normas ou guidelines clínicas.

Esta leges artis deixa pouco espaço para crenças sem base concreta, protegendo assim as pessoas de pensamentos soltos e potencialmente nefastos para a saúde das populações. E não devemos confundir conceitos: a discussão científica fundamentada é essencial para o desenvolvimento medico-científico; já a manipulação da informação, crenças infundadas ou a omissão de dados concretos é bastante danosa. Especificamente em matéria de vacinação, o risco potencial de contribuição para o crescimento dos movimentos anti-vacinas deverá ser razão suficiente para exigir cautela a quem tem responsabilidades na saúde das crianças e adultos.

Portanto, quando se invoca a leges artis e a defesa da saúde das populações é crucial que se fundamentem todos os pontos com medicina baseada na evidência de forma clara. Pois é isso que vou fazer: dar ao leitor os dados e a oportunidade de verificar que, de facto, eles existem. Sem opiniões. Sem crenças.

Quem aprova e recomenda a vacinação?

A vacinação desde os 5 anos de idade é aprovada pelas duas maiores organizações mundiais que regulam e aprovam a introdução de medicamentos no mercado (Food and Drug Administration [FDA] e a European Medicines Agency [EMA]). Da mesma forma, esta vacinação é recomendada pelas duas sociedades científicas pediátricas mais conceituadas a nível mundial (American Academy of Pediatrics [AAP] e Union of European National Societies of Pediatrics [UNEPSA]). Importa referir que estas 4 organizações publicam as suas aprovações e recomendações baseadas nos dados mundiais disponíveis em todos os momentos, tendo sistemas de vigilância e acompanhamento científico muito apertados. Prova disto é a atualização das recomendações da UNEPSA: a 15/Setembro/2021 recomendou a vacinação a partir dos 12 anos a e levantou reservas em relação à vacinação entre os 5-11 anos; no entanto, a 29/Dezembro/2021, com a segurança de todos os estudos realizados e dados reais de vacinação em alguns países, recomendou a vacinação geral acima dos 5 anos.

Eficácia e efetividade da vacinação

A vacinação dos 5-17 anos é eficaz (ou seja, provada em estudos controlados), reduzindo a doença Covid-19 em mais de 90%. A vacinação dos 12-17 anos é também comprovadamente efetiva (ou seja, provada com dados das administrações de vacinas diariamente), reduzindo as hospitalizações em 93%, reduzindo o síndrome inflamatório sistémico associado ao Covid-19 em 91% e também a simples infeção pela variante Delta do SARS-CoV-2 em 92%. Apesar de se saber a eficácia dos 5-11 anos, a efetividade nesta idade ainda não está publicada meramente por questões temporais, mas aguarda-se a qualquer momento a sua publicação com a utilização massiva da vacina.

Estudos para ler aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

Em relação à predominância da variante Omicron, sabe-se que a atualização vacinal com uma dose de reforço protege de forma semelhante e os primeiros dados em adultos revelam uma efetividade de 90% na proteção contra hospitalizações por Covid-19. Não existe nenhuma razão biologicamente plausível para estes dados de efetividade serem diferentes em idades pediátricas dos 5-17 anos, esperando-se também a qualquer momento a sua publicação.

Em relação às dúvidas sobre a necessidade do efeito protetor da vacinação associada a uma infeção SARS-CoV-2 anterior ou posterior, na verdade, um estudo publicado esta semana indica que poderá haver um efeito sinérgico (em pessoas que tiveram infeção e vacina), aumentando a proteção conferida contra variantes do SARS-CoV-2.

Segurança da vacina

A vacina é comprovadamente segura.

Os dados dos Estados Unidos da América (EUA) referentes a 8,9 milhões de vacinados entre os 12-17 anos revelam a existência de apenas 863 comunicações de efeitos adversos significativos pelo sistema de vigilância VAERS.

De igual forma, em 8,7 milhões de doses administradas entre os 5-11 anos existiram apenas 100 casos (0,00001% dos vacinados) reportados de efeitos secundários relevantes (mas transitórios). De forma oportuna, importa relembrar que esta análise foi realizada já em pleno período de estabelecimento da variante Omicron e com um grande número de crianças dos 5-11 anos infetadas também. E não, não houve mortes reportadas causadas pela vacinação + infeção nestas idades.

Em Portugal, os dados da farmacovigilância do INFARMED indicam que: 1) em mais de 1,1 milhões de vacinas administradas dos 12-17 anos existiram 97 casos de efeitos adversos considerados graves (13 mio/pericardites); 2) em mais de 95.000 de vacinas administradas dos 5-11 anos existiram 4 casos de efeitos adversos considerados graves (1 miocardite). A INFARMED ressalva, ainda, que todos os casos de efeitos adversos tiveram evolução positiva e sem sequelas.

Efeitos da infeção SARS-CoV-2 vs. efeitos adversos da vacina

Em Portugal, usando os dados publicados pela Comissão Técnica de Vacinação contra a COVID-19 e pela Sociedade de Cuidados Intensivos Pediátricos, sabemos que até Novembro/2021 houve 69.773 crianças dos 5-11 anos infetadas com SARS-CoV-2 e um total de mais de 196 internamentos (dos quais 30 em Unidades de Cuidados Intensivos). Ou seja, em Portugal, o risco estimado de doença grave ou hospitalização associado à Covid-19 nestas idades é 70 vezes superior aos efeitos adversos considerados graves (e transitórios) da 1ª dose da vacina (ver dados do INFARMED).

Já entre os 12-17 anos, existiram 71.578 infetados com infeção SARS-CoV-2 e um total de 275 internamentos. Ou seja, em Portugal, o risco estimado de doença grave ou hospitalização associado à Covid-19 nestas idades é aproximadamente 22 vezes superior aos efeitos adversos considerados graves (e transitórios) da vacinação completa (ver dados do INFARMED).

Estes dados são claros: vacinar tem menos riscos do que não vacinar.

Depois de expostos os dados concretos, importa salientar que, no hipotético cenário dos argumentos redigidos no tal apelo à suspensão da vacinação serem verdade, então a suspensão da vacinação deveria ser considerada não para as crianças, mas para toda a população em todas as idades. E deixar este cenário em aberto, ainda que timidamente implícito, é grave e é, mais uma vez, não querer ver os dados reais que foram descritos em cima.

Vacinar contra o SARS-CoV-2 salva vidas e protege a população.

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