Covid-19, hepatite aguda, monkeypox: temos mais doenças agora do que tínhamos antes?

25 mai, 07:00
Covid-19: uma pandemia que parou o mundo

Perante a avalanche de notícias sobre doenças de que muitos nunca tinham ouvido falar, pode surgir uma sensação de insegurança. Especialistas garantem que não há motivos para pânico. E explicam porquê.

Covid-19, hepatite aguda, monkeypox. É impressão nossa ou, de repente, estamos a ser assolados por uma série de doenças de que nunca tínhamos ouvido falar? Porque passamos o tempo a falar de doenças? Devemos ficar preocupados?

Começando pelo princípio: vivemos num mundo cada vez mais globalizado, antes da pandemia tínhamos atingido um pico no número de ligações aéreas e marítimas no mundo. "O transporte cada vez mais fácil e rápido de pessoas e bens faz com que haja uma maior mobilidade de agente microbióológicos", explica à CNN Portugal o médico Bernardo Gomes. "Um vírus que surge na China pode, em meia dúzia de horas, estar no outro lado do mundo."

Depois, é preciso ter em conta as alterações climáticas e ambientais, que provocam alterações nos padrões das doenças e nos vetores - ou seja, no modo como as doenças se transmitem. E, ainda, ter em conta a "invasão dos ecossistemas", ou seja, "o maior convívio do homem com outras espécies, sobretudo com os morcegos e outros animais selvagens" - isto "aumenta a hipótese de exposição a vírus a que até aqui não tínhamos estado exposto" e a possibilidade de haver "saltos de barreira de espécies" (vírus que passam de uma espécie para outra).

"Todos os anos haverá dezenas destes eventos", afirma Bernardo Gomes. Na maior parte das vezes esses vírus acabam por não vingar e não são problemáticos, "mas às vezes acontece a perpetuação do vírus", o que pode dar origem a fenómenos epidémicos ou mesmo pandémicos, como aconteceu com a covid-19.

Gustavo Tato Borges, presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, recorda ainda que "as pessoas vivem mais tempo", o que significa que "temos oportunidade de ver o corpo a envelhecer e assistimos ao aparecimento de mais patologias", associadas ao envelhecimento e ao estilo de vida que temos, com vários comportamentos chamados de risco.

Finalmente, Bernardo Gomes lembra que ainda não sabemos bem como é que o SARS-CoV2 interferiu na nossa imunidade e se nos pode estar a deixar mais suscetíveis de apanhar outras doenças. "Sabemos que este vírus tem uma influência disruptiva no sistema imunitário, por isso esta é uma pergunta que temos de fazer e para a qual ainda não temos uma resposta assertiva". 

Portanto, é verdade que estamos mais expostos a agentes microbióticos, que estes se espalham muito mais rapidamente do que acontecia há umas décadas, e que há doenças que podem estar a desenvolver-se devido a alterações ambientais, comportamentais ou outras.

Mas também é verdade que hoje em dia "temos uma maior capacidade de deteção e diagnóstico", lembra Bernardo Gomes. E temos também mais conhecimentos e capacidade de lidar com as doenças. "Na última década do século XX ainda tínhamos sarampos e meningites, por exemplo", diz Bernardo Gomes, sublinhando os enormes avanços na medicina, tanto na prevenção como no tratamento.

Gustavo Tato Borges concorda: "É uma das consequências de termos um avanço científico considerável: faz com que tenhamos métodos de diagnóstico cada vez mais completos e diferenciados e, por isso, conseguimos identificar muito mais doenças que antes eram desconhecidas. Se tivéssemos oportunidade de, com a tecnologia de hoje, analisarmos as causas de morte dos nossos antepassados, iríamos certamente encontrar uma série de vírus e de tipos de cancro que, na altura, não era possível identificar, quanto mais tratar."

Não só temos mais conhecimentos como estamos mais atentos, dizem os especialistas. Veja-se o que aconteceu com a monkeypox. "A doença já existia, nós é que não lhe estávamos a dar atenção porque achámos que estava circunscrita a uma região. E, agora, estamos a detetar casos de infeções que já ocorreram há mais tempo", explica Bernardo Gomes.

E também existe uma maior atenção mediática e, com as redes sociais, pode criar-se "uma sensação de ameaça constante", admite este médico. Mas o conhecimento é bom. "O conhecimento leva a uma maior responsabilidade", diz. No caso concreto "do controlo das doenças infecciosas, o conhecimento é uma mais valia e é importante que se passe a mensagem que não é uma questão unicamente de responsabilidade individual mas de responsabilidade coletiva".

Por tudo isto, os médicos acreditam que não há motivos para entrar em pânico: "Hoje em dia vivemos mais e melhor do que os nossos antepassados", afirma Tato Borges. "Não só não estamos mais doentes, como andamos andamos sempre à procura de melhorar a vida das pessoas."

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