H3N2 e BA.2. O que pode sair da junção destes dois vírus?

28 mar, 21:11
Mulher com máscara de proteção facial. (Pexels)

Em Portugal há 48 casos de infeção simultânea pelos vírus que causam a gripe e a covid-19

Quase dois anos com pouco ou nenhum vestígio do vírus Influenza, eis que a época gripal chega a Portugal e com um protagonista um tanto ou quanto inesperado. Este ano é o H3N2, um subtipo de gripe A que “foge um bocado à vacina preconizada”, aquele que tem causado mais casos de gripe em Portugal, diz à CNN Portugal Luís Rocha, pneumologista e dirigente da Fundação Portuguesa do Pulmão.

A Rede Portuguesa de Laboratórios para o Diagnóstico da Gripe detetou na semana de 7 a 13 de março 447 casos positivos para o vírus da gripe, dos quais 398 do tipo A, oito do tipo B e 41 não tipados. No que diz respeito à covid-19, a Ómicron continua a ser a variante dominante, estando a linhagem BA.2 com uma prevalência acima dos 80%.

“Não era expectável termos agora um pico de gripe, mas olhando para o contexto estivemos muito mais protegidos por causa do teletrabalho, da máscara e da higienização e as pessoas estão agora a trabalhar nos locais habituais, vê-se muito menos o uso de máscara e tudo isso são medidas que fazem com que mais facilmente comece a haver a essa propagação vírica”, aponta Patrícia Maia, coordenadora de Medicina Geral e Familiar do Hospital Lusíadas Lisboa.

Uma vez que são dois vírus respiratórios, “podem influenciar-se um ao outro”, diz Patrícia Maia. E, sim, nestes casos estamos perante aquilo a que se chama Flurona - combinação do vírus influenza (flu) com o coronavírus (rona).

Em 2020 e 2021, face à permanência de grande parte das medidas de mitigação da propagação do vírus (como o teletrabalho, o uso de máscara, o distanciamento social e a higienização das mãos e superfícies), estes dois vírus não se cruzaram, tal como reportou um estudo publicado em novembro na revista BJM Open. Mas este ano, e face a um alívio generalizado no mundo das medidas de proteção, os dois vírus respiratórios encontraram-se e em alguns casos ‘casaram-se’.

Até ao momento foram identificados 48 casos de coinfeção pelo vírus da gripe (influenza) e SARS-CoV-2 em Portugal, revela o Instituto Nacional Doutor Ricardo Jorge INSA. Um documento divulgado sexta-feira por este organismo refere que não foi reportado qualquer caso de gripe nem pelas 19 unidades de cuidados intensivos, nem pelas duas enfermarias que enviaram informação.

De acordo com o infecciologista Vitor Laerte, embora ainda não se saiba ao certo “quais os mecanismos” de ação do Influenza e do SARS-CoV-2 quando estão ao mesmo tempo no organismo humano, é possível que cada um dos vírus atue de forma isolada, embora o façam nos mesmos locais do corpo humano - trato respiratório superior, isto, claro, se tivermos apenas em consideração a Ómicron, pois as variantes Alfa e Delta afetavam mais os pulmões. 

“Sabemos que têm recetores celulares diferentes, mas podem causar a síndrome respiratória aguda grave” quando entram em ação em simultâneo, tal como acontece com a coexistência de outros vírus respiratórios, explica o infeciologista.  

A escassez de informação face ao ainda pequeno período de vida do SARS-CoV-2 (e da linhagem BA.2) e à baixíssima incidência de gripe nestes dois anos faz com que não seja possível ter certezas absolutas sobre a forma como estes dois vírus atuam, mas o certo é que potenciam os sintomas.

“Podem influenciar-se um ao outro. São dois vírus que atuam muito no sistema respiratório e podem estar a potenciar-se negativamente no mesmo indivíduo, ou seja, alguém que esteja com covid ou tenha tido há pouco tempo e não tenha recuperado totalmente, ao ter agora gripe vamos ter pulmões não totalmente recuperados e teremos exacerbação de sintomas”, explica Patrícia Maia.

Quanto aos riscos de desenvolvimento de doença grave à coinfeção por BA.2 e H3N2, mesmo com o agravamento de alguns sintomas, à partida são poucos, uma vez que ambos os vírus atuam na parte superior do sistema respiratório, preservando assim os pulmões de danos maiores - mas, tal como a covid-19 nos ensinou ao longo destes dois anos, tudo depende de pessoa para pessoa e do seu estado de saúde, podendo até os mais idosos, mesmo que vacinados, estar mais suscetíveis a danos maiores.

No entanto, destaca Luís Rocha, a sinergia entre estes dois vírus traz uma questão que não deve ser ignorada: do casamento pode surgir uma nova variante de SARS-CoV-2 (um cenário também possível com o cruzamento de linhagens do mesmo vírus). 

”, alerta o médico pneumologista.Se estivermos num bar ou discoteca sem proteção, por exemplo, e estiveram pessoas infetadas com estes dois vírus, vão infetar outras pessoas. Com isso podemos ter a troca genética entre os dois vírus, a pessoa fica infetada com os dois vírus e pode haver uma nova variante“

 

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