Morte de menino em confinamento gera onda de indignação contra a política de zero covid da China

CNN , Nectar Gan
4 nov, 17:00
Desinfeção

A morte de um menino de três anos após uma alegada fuga de gás num condomínio em confinamento, no noroeste da China, desencadeou uma nova onda de indignação contra a rigorosa política de zero covid do país.

O pai da criança afirmou numa publicação nas redes sociais que funcionários destacados para o cumprimento das regras sanitárias tentaram impedi-lo de sair da sua residência em Lanzhou, capital da província de Gansu, para ir procurar ajuda médica para o filho – levando a um atraso que ele acredita ter sido fatal.

Uma publicação nas redes sociais feita pelo progenitor, na quarta-feira, sobre a morte do filho foi recebida por uma onda de raiva e tristeza públicas, com várias hashtags relacionadas a acumularem centenas de milhões de visualizações no dia seguinte no Weibo, a plataforma chinesa semelhante ao Twitter.

“Três anos de pandemia foram toda a vida deste menino”, dizia um comentário.

É a mais recente tragédia a alimentar uma crescente crítica contra a implacável política de zero-covid da China, que continua a prejudicar a vida quotidiana com confinamentos incessantes, quarentenas e testes obrigatórios em massa, mesmo quando o resto do mundo está a seguir em frente após a pandemia.

Há relatos de vários casos de pessoas que morreram após lhes ter sido negado o acesso imediato a cuidados médicos de emergência durante o confinamento - apesar da insistência das autoridades chinesas, incluindo do líder Xi Jinping, de que as políticas de covid “colocam as pessoas e as suas vidas em primeiro lugar”.

Confinado há um mês

Grandes áreas de Lanzhou, incluindo o bairro onde reside a família do menino, estão em confinamento desde o início de outubro.

O pai disse que a mulher e o filho ficaram doentes por volta do meio-dia de terça-feira, mostrando sinais de envenenamento por gás. O estado de saúde da mãe melhorou depois de o próprio marido lhe ter feito manobras de reanimação, mas o menino entrou em coma, segundo se pode ler na publicação da família nas redes sociais.

O pai disse que fez várias tentativas de chamar uma ambulância e a polícia, mas nunca conseguiu. Disse que, depois, foi pedir ajuda aos funcionários que estavam no condomínio a impor e a controlar o confinamento, mas foi mandado para trás com instruções para continuar a procurar a ajuda das autoridades ou continuar a tentar chamar uma ambulância.

Contou também que os mesmos funcionários lhe pediram que ele mostrasse um resultado negativo no teste à covid, mas ele não pôde fazê-lo, pois não tinha sido realizado nenhum teste no condomínio nos 10 dias anteriores.

Desesperado, acabou por levar o filho para a rua, onde um residente de “bom coração” chamou um táxi para levá-los ao hospital, escreveu.

No entanto, já era demasiado tarde quando chegaram e os médicos não conseguiram salvar o menino.

“O meu filho poderia ter sido salvo se tivesse chegado ao hospital mais cedo”, escreveu.

Segundo os mapas online, o hospital fica a apenas três quilómetros da casa do menino - uma viagem de dez minutos de carro.

O pai afirmou ainda na mesma publicação que a polícia só apareceu depois de ele levar o filho ao hospital. Mas a polícia disse num comunicado, na terça-feira, que acorreu imediatamente ao local depois de receber um pedido de ajuda do público e ajudou a enviar duas pessoas, incluindo a criança, para o hospital, 14 minutos depois.

O comunicado da polícia afirma que a criança morreu de envenenamento por monóxido de carbono e a mãe ficou internada no hospital, mas está estável – sempre sem referir se as medidas de confinamento atrasaram a resposta de emergência.

A CNN entrou em contacto com as autoridades de Lanzhou e com o pai do menino para obter comentários. O pai não respondeu.

Na quinta-feira, as autoridades de Lanzhou emitiram uma declaração a expressar o pesar pela morte da criança e as condolências à família. Prometeram “lidar de forma séria” com os funcionários e as unidades de trabalho que falharam a providenciar o salvamento oportuno do menino.

“Aprendemos uma lição difícil com este incidente e, no futuro, colocaremos as pessoas e as suas vidas em primeiro lugar no nosso trabalho”, lia-se no comunicado.

Exigência de respostas

A morte do menino também espoletou a raiva dos moradores locais. Vídeos que circulam nas redes sociais mostram moradores a sair às ruas para exigir uma resposta das autoridades.

Um dos vídeos mostra uma mulher a gritar com funcionários vestidos da cabeça aos pés com fatos de proteção individual. “Diga ao seu chefe para vir aqui contar-nos o que aconteceu hoje”, grita. Noutro vídeo, um homem entoa: “Devolvam-me a minha liberdade!”

Outros vídeos mostram vários autocarros com agentes das operações especiais a chegar ao local.

Num vídeo, veem-se fileiras de funcionários com fatos de proteção individual a caminhar pelas ruas; vários outros mostram os residentes em confronto com polícias equipados com escudos, capacetes e máscaras.

A CNN não conseguiu verificar a autenticidade dos vídeos de forma independente, mas um residente confirmou à CNN que viu agentes das operações especiais a chegar.

“Eles gritaram ‘um, dois, um’ (quando avançaram pela rua) tão alto que podiam ser ouvidos a 500 metros de distância”, disse a testemunha.

Este residente lamentou “os excessivos confinamentos e a prevenção contra a epidemia” de Lanzhou e o que apelida de uma censura cada vez mais rigorosa.

“Agora, até saber a verdade se tornou uma esperança extravagante”, disse. “Quem sabe quantos incidentes semelhantes aconteceram em todo o país?”

Na publicação nas redes sociais, o pai disse que foi abordado por alguém que afirmou trabalhar para uma “organização civil” e que lhe ofereceu 100 mil yuans (cerca de 14 mil euros) se ele assinasse um acordo a garantir que não ia pedir responsabilidades às autoridades.

“Eu não assinei nada. Só quero uma explicação para a morte do meu filho”, escreveu. “Quero que me digam diretamente por que não me deixaram sair naquele momento.”

As publicações do pai no Weibo e no Baidu, outro site online, a relatar o incidente, desapareceram na noite de quarta-feira.

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