Mortalidade subiu 26% em junho, mas a covid e o calor não justificam tudo

17 jun, 08:57
Unidade de cuidados intensivos em Itália

REVISTA DE IMPRENSA. De acordo com os especialistas, não existe um fator isolado que possa justificar a mortalidade mais elevada nos últimos meses

A mortalidade nos primeiros 14 dias deste mês está bem acima dos valores habituais anteriores à pandemia. De acordo com o jornal Público, de 2009 a 2019 foram registados, em média, 3.652 óbitos entre 1 e 14 de junho. Uma média de 281 mortes por dia. Este ano, o número já está nos 4.973, o que dá uma média de 355 por dia. Um aumento de 26%. Quando comparado com o ano passado, a mortalidade na primeira quinzena de junho aumentou 30%.

A covid-19 e o calor são as duas principais causas, mas não justificam na totalidade este aumento de valores. Então o que está por detrás destes números? De acordo com os especialistas ouvidos pelo Público, não existe um fator isolado que possa justificar a mortalidade mais elevada nos últimos meses. A pandemia explica parte destes óbitos, mas verifica-se um aumento mesmo quando é retirada da equação as mortes provocadas pelo SARS-CoV-2.

"Parece-me que o mais lógico é existir um impacto muito substancial das temperaturas elevadas, mas pode não ser a única razão. Neste momento, juntam-se dois fatores que parecem suspeitos: esta questão da temperatura e também ainda algum contributo da pandemia. Tivemos semanas com cerca de 40 óbitos diários por covid-19: não é tudo, mas dá o seu contributo. Se juntarmos isto ao calor, acaba por existir uma pressão nos números", explicou o matemático Óscar Felgueiras.

Em resposta às perguntas do jornal, a Direção-Geral da Saúde (DGS) também admitiu que a pandemia não justifica todo o excesso de mortalidade. A entidade tutelada por Graça Freitas junta o "aumento da mortalidade específica" por covid-19 ao "aumento da temperatura média do ar", relembrando que este indicador tem estado "acima do normal para a época do ano". 

Recorde-se que quase todo o território de Portugal continental estava em seca severa no final de maio, o mês mais quente e seco dos últimos 92 anos, de acordo com o Instituto português do Mar e da Atmosfera (IPMA).

Maio registou a mortalidade mais elevada em 40 anos

Para a demógrafa Maria João Valente Rosa, podemos estar a assistir a um "efeito colheita", ou seja, com mortes provocadas por doenças respiratórias que costumam acontecer em janeiro e fevereiro a verificarem-se apenas em março. Mas, mesmo assim, defendeu, isso não justifica abril, maio e o início de junho. "As questões climatéricas e outros factores podem ajudar a explicar minimamente por que razão é que março foi um mês tão mau [nos números da mortalidade]. Adiou-se um bocadinho a verdadeira questão. Mas o que acontece, e para o que não consigo encontrar grandes razões, para já, é que voltou a verificar-se em abril e em maio, e junho também não está a dar sinais de abrandamento", observou. 

Uma afirmação que é comprovada com os dados que constam no Sistema Nacional de Vigilância da Mortalidade (eVM). Abril e maio, meses em que normalmente se verifica uma diminuição da mortalidade face aos meses de Inverno, este ano registaram aumentos de 16,8% e 22,7% na mortalidade em comparação com a média de 2009 a 2019. No mais recente mês de maio, a mortalidade no país foi a mais elevada em 40 anos.

De acordo com o boletim da DGS, entre 1 e 6 de junho, Portugal registou uma média de 42 mortes diárias. Por outro lado, a diferença de mortalidade diária de 2022 para a média diária de 2009 a 2019 é de 71 óbitos nesta mesma semana. Os óbitos por covid-19 não justificam, por isso, cerca de 40% da mortalidade em excesso no período deste ano.

Apesar de ainda ser cedo para retirar esta conclusão, os especialistas admitem que, a manter-se este cenário, Portugal está a caminhar para um possível novo recorde de mortalidade, ultrapassando 2021. 

Desde março do ano passado, o número de óbitos total de um mês tem sido sempre inferior ao do mês homólogo do ano anterior. No entanto, desde março deste ano que os óbitos "têm sido sempre superiores aos óbitos que ocorreram em 2021", observou Maria João Valente Rosa.

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