7 perguntas e respostas que tranquilizam Portugal apesar do recorde de casos covid: como a reunião do Infarmed evita pânicos

5 jan, 15:39
Evolução da Covid-19 em Portugal: governantes e especialistas reunidos no Infarmed (Lusa)

Especialistas explicaram aos governantes e ao país, num encontro que decorreu esta quarta-feira no Infarmed, o que se passa com a Ómicron e o que vai acontecer nos próximos tempos. Neste artigo, a CNN Portugal esclarece as principais dúvidas a partir do que foi dito nessa reunião: nem tudo são boas notícias mas as más não são suficientes para os especialistas defenderem restrições. Pelo contrário: defendem um alívio das medidas de combate à pandemia

1. Vamos chegar aos 130 mil casos por dia?

Estes cenários, que apontam entre 40 mil a 130 mil casos diários de covid-19 na próxima semana, “são projeções condicionadas a determinadas características”, explica Baltazar Nunes, do Instituto Nacional de Saúde Pública Doutor Ricardo Jorge (INSA). Ou seja, dependem dos efeitos que a redução dos contactos, resultado das medidas de contenção aplicadas nestas últimas semanas, vão ter na incidência e também na perda de proteção da vacina que se vai verificar, explicou. Assim, segundo Baltazar Nunes, se se registar uma diminuição de contactos na ordem dos 30%, vai assistir-se a uma inversão da tendência e a incidência vai começar a decrescer, mantendo-se depois num planalto. Caso contrário, vai continuar a subir. Além da redução dos contactos é preciso ver o nível de vacinação que se vai conseguir e a perda de proteção dada pelas vacinas. O perito diz que a quebra da imunidade tem impacto no que vai ser o futuro desta onda. “Há três cenários de perda de proteção” diz, explicando que cada um corresponde a valores diferentes de estimativas de casos, indo dos 40 mil aos 130 mil casos diários. No melhor cenáriom a proteção mantém-se a 95% para doença grave e 70% para infeção e no mais gravoso passa para 88% para doença grave e 30% para infeção. Por outro lado, tendo em conta que o valor das pessoas que têm de ficar em confinamento como contactos de risco “é o triplo” dos  infetados, Baltazar Nunes acredita que entre 4% a 12% da população possa ter de ficar em isolamento já nos próximos dias. Neste momento, e segundo todos os peritos, Portugal está com valores históricos de casos e incidência.  Há um crescimento de 12% ao dia. Segundo as estimativas apresentadas na reunião do Infarmed, o aumento de casos previstos para a próxima semana levam a que na última semana do mês e na primeira de fevereiro estejam internados nas enfermarias entre 1300 e 3700 pessoas e nas unidades de cuidados intensivos entre 184 e 453 - números muito diferentes e muito abaixo dos verificados em janeiro de 2020. Por isso: muitos casos mas menos internamentos. E isso é bom, muito bom.

2. As vacinas protegem das hospitalizações e morte por Ómicron?

“A vacinação manteve-se efetiva na redução de risco de internamento e morte”, garantiu Pedro Pinto Leite, da Direção-Geral da Saúde.  Segundo os peritos, a incidência da covid-19 no país está, neste momento, num máximo histórico, tendo aumentado em todas as faixas etárias. E essa situação está a fazer aumentar os internamentos nos hospitais, especialmente em enfermaria (mas a níveis inferiores aos de há um ano). Segundo dados de Pedro Pinto Leite, em Lisboa, onde a Ómicron se começou a disseminar primeiro, esta já provocou um aumento de 50% os internamentos. No entanto o risco de se ser internado, nomeadamente nas pessoas com mais de 50 anos, é duas a seis vezes inferior nos que têm vacinação completa.  “O risco de internamento mantém-se inferior nos grupos com a vacinação completa em relação a quem não tem”, garantiu o especialista. Ou seja, e segundo o perito, as pessoas com mais de 50 anos que não estão vacinadas correm um risco duas a seis vezes maior de irem parar ao hospital quando ficam doentes com covid-19.  E quanto ao risco de morte “é substancialmente inferior nos que têm o esquema vacinal completo”. Nas pessoas com mais de 60 anos, o risco de se morrer de covid é três a cinco vezes menor do que nas pessoas que não estão vacinadas, de acordo com gráficos apresentados na reunião.

Nas pessoas com mais de 80 anos, a situação é ainda mais clara. Dados apresentados mostram que por cada 100 idosos que não estavam vacinados ou que não tinham vacinação completa 27 morriam, ou seja, um cada quatro perdia a vida. Com a vacinação, esse valor passou a ser de oito a nove mortes por cada 100. Já a dose de reforço veio melhorar ainda mais a situação, fazendo com que apenas um em 20 tenha risco de morte.

Ana Paula Rodrigues, do Instituto Nacional Doutor Francisco Jorge, também sublinhou que um dos fatores que está a contribuir para a atual menor hospitalização é “a imunização conferida pela vacina”. E recordou um estudo segundo o qual as duas doses da vacina podem evitar o risco de hospitalização em valores que se situam entre 52% a 72%, dependendo do tempo que passou desde o momento da vacinação.

Os peritos lembraram ainda que a vacinação é responsável pelos baixos números de mortes e em internamentos em unidades de cuidados intensivos, quando comparados com a vaga de janeiro do ano passado. Segundo Pedro Pinto Leite, neste momento “o número de óbitos é de 19 por milhão de habitantes, inferiores ao 20 definido como referência pelo  Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças”.

3. Os jovens dos 20 anos disseminaram a Ómicron no país?

“A grande disseminação da Ómicron teve que ver essencialmente com o grupo etário dos 20 aos 29 anos”, explicou o cientista João Paulo Gomes, explicando que, ao contrário das outras faixas etárias nas duas últimas semanas de 2021, no grupo de jovens entre os 20 e os 39 era o único onde a percentagem de ómicron já ultrapassava a da delta. Em todas as outras faixas etárias, a Ómicron ainda não tinha superado a anterior. Atualmente, é entre os mais jovens que a Ómicron continua a ter maior peso. Segundo Pedro Pinto Leite, “o grupo etário com os 20 aos 29 anos mantém-se como o que apresenta maior incidência”, com 3784 por 100 mil habitantes, seguido dos 40 aos 49, com 2921 por 100 mil, e 30 aos 39, com 2920.

4. A Ómicron é mais transmissível mas menos severa?

“Os dados que a comunidade científica gerou em velocidade relâmpago permitem perceber porque da maior transmissibilidade e menor severidade desta variante”, adiantou João Paulo Gomes, confirmando assim que, como se suspeitou, a Ómicron é mais contagiosa mas menos grave.

Tornou-se mais transmissível devido, explicou o cientista João Paulo Gomes, às mudanças que existem na estrutura do vírus com a Ómicron. Esta variante “tem mais mutações na zona de ligação às nossas células”, o que facilita a entrada do vírus no organismo. Além disso, as alterações deram à Ómicron uma maior taxa de replicação nas vias aéreas superiores, o que gera mais aerossóis - que resultam dos espirros e tosse. “E tem também maior capacidade de fugir ao sistema imunitário”, nota o especialista.

Baltazar Nunes também lembrou que o elevado valor do R –  que indica quantas pessoas serão contaminadas por um caso positivo - que se verifica no país é o sinal da força do transmissão da nova variante. Mas se é mais contagiosa, os estudos indicam que é menos grave. João Paulo Gomes garante que há estudos que descobriram três factos sobre este tema. O primeiro é que a  ómicron é 70 vezes mais rápida nas vias aéreas superiores mas 10 vezes mais lenta nas células dos pulmões. O segundo, e com base num estudo da a Universidade de Cambridge, detetou-se que a Ómicron não consegue entrar nos pulmões por causa de uma proteína. Ou seja, “a Ómicron tem menos afinidade com proteínas que existem nos pulmões e não existem nas vias respiratórias”, onde consegue por isso entrar mais facilmente. Desta forma torna-se menos grave, pois tem menor capacidade de se multiplicar nos pulmões, esclarece.

Em terceiro lugar, em ensaios feitos com animais, mais precisamente em hamsters, ficou claro que os que foram infetados com a variante Ómicron tiveram menos danos do que os que receberam a variante Delta ou outra.

5. Qual o impacto da dose de reforço na Ómicron?

“A efetividade da vacina contra hospitalização na variante Ómicron após a dose de reforço atinge valores elevados na ordem dos 88%”, garante Ana Paula Rodrigues, do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), explicando que tudo depende, entre outros fatores, da idade de cada pessoa. Já no que se refere à sua eficácia para impedir a infeção, a cientista diz que os valores se situam entre os 40% e 70%.  Apesar das proteções serem em geral inferiores à variante Delta e de a imunidade cair mais rapidamente, com a dose de reforço essa proteção aumenta muito, diz a perita. 

6. A infeção por SARSCov-2 vai passar a ser ligeira?

“Não”, diz, Ana Paula Rodrigues do INSA, explicando: “Espera-se um padrão diferente desta onda com elevada carga da doença, elevada prevalência e incidência, mas um menor peso das infeções mais graves. Mas isto não quer dizer que vamos passar a ter uma infeção ligeira. Não é isso, pois estamos a falar de uma infeção por um agente que é uma infeção grave”. Segundo a especialista, esta onda com esta variante é sim “mais benigna do que aquela que tínhamos anteriormente”.

7. A pandemia vai acabar já?

“O anúncio do fim da pandemia é capaz de ser bastante exagerado.” Foi com esta frase que Henrique Barros terminou a sua apresentação a propósito do tema “O fim da pandemia? Certezas e incertezas”. Sublinhando que o vírus se vai manter presente na sociedade, o especialista considerou, no entanto, que com a vacinação e a testagem chegou a hora de mudar. O perito diz acreditar que o vírus já não representa uma ameaça tão grave, que é preciso voltar ao quotidiano e apela a que se deixe de dar todos os dias o número de novos casos: “Não há razão nenhuma para continuarmos a raciocinar em termos do número de casos e muito menos a medir a evolução da infeção e os riscos que ela nos coloca contando diariamente os casos como fazíamos até agora”.

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