Costuma usar cotonetes para limpar os ouvidos? Atenção, há vários erros que pode estar a cometer

16 mar, 11:00
Cotonetes (Karolina Grabowska/Pexels)

Os cotonetes são frequentemente utilizados para a limpeza dos ouvidos, em especial para remover a cera. Os especialistas alertam, contudo, para as consequências da utilização destes objetos com pontas revestidas a algodão

É verão, está calor e dá por si com uma dor insuportável nos ouvidos depois de um dia passado na piscina. Não havia pior altura para ficar doente, pensa. E como ganhou essa dor? Segundo os especialistas, é simples: está a "manipular" o ouvido com o uso de cotonetes.

As "dolorosas" otites externas podem aparecer em qualquer altura do ano, mas no verão, como explica o otorrinolaringologista Leonel Luís, o cenário piora e elas vêm mais frequentemente dizer 'olá'. "Não são as piscinas, são as pessoas que vão lá secar com cotonetes e o calor é como fermento, que faz com que os bicharocos ultrapassem a ferida e afetem a pele", diz.

A pele dos ouvidos é "muito fina e frágil" e molhada fica "ainda mais". E, se vai "manipulá-las" com cotonetes está a criar terreno para estas "infeções da pele por traumatismo", como se refere a elas o também diretor do Serviço de Otorrinolaringologia do Hospital de Santa Maria.

Desde sempre ouvimos dizer que usar estes pequenos objetos pontiagudos com pontas revestidas a algodão faz mal. E, apesar de os avisos serem maioritariamente ignorados, é mesmo verdade, asseguram os especialistas.

"Os cotonetes não são para limpar os ouvidos", alerta Leonel Luís. São até perigosos para esta zona do corpo, porque "acabam por traumatizar a pele" sensível.

As otites são uma consequência desse traumatismo, mas não são a única. Ao usar estes objetos, empurra-se a cera "para dentro" em vez de a retirar, o que à partida seria o objetivo. Se a cera não sai e, pelo contrário, é conduzida para o local de onde veio, está a "destruir-se o processo de limpeza natural do ouvido", o que é prejudicial.

Desta forma, cria-se um "bolhão de cera", outra consequência da utilização dos cotonetes, aponta a médica de medicina geral e familiar Inês Espiga Macedo. Em causa está uma bolha de cera com uma dimensão considerável, que resulta da "acumulação de cera".

Este "bolhão de cera" pode levar a uma "perda auditiva transitória". O ouvido fica com aquele zumbido incomodativo que só termina quando a bolha em causa é devidamente removida, como explica a médica do Hospital Lusíadas do Porto, que admite não encontrar "uma grande utilidade em termos clínicos" nos cotonetes.

Para Leonel Luís, o "segredo" é "não mexer em nada". "Os ouvidos limpam-se sozinhos", sublinha o também professor Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

Para o especialista, é como "limpar os olhos por dentro: não limpamos, por isso os ouvidos também não limpamos". "Devemos lavar e limpar as orelhas, mas nos ouvidos não há necessidade de fazer nada", insiste.

Os cotonetes fazem mal aos ouvidos, mas continuam à venda. Afinal de contas, estes objetos têm utilidade e não têm de ser banidos da sua vida - só tem de os afastar dos seus ouvidos.

"Os cotonetes servem para limpar as pregas cutâneas dos bebés - o nariz, debaixo do braço, atrás da orelhinha, o canto do olhinho, sítios onde é difícil limpar, daí não estarem disponível na secção de higiene pessoal nos supermercados", garante o otorrinolaringologista.

Os cotonetes podem, para além disso, ser úteis na maquilhagem, para corrigir pequenas falhas e também para aplicar creme em zonas específicas do corpo, acrescenta Inês Espiga Macedo.

A médica de medicina geral e familiar admite até que os cotonetes possam servir para limpar a própria orelha.

O que é a cera e para que serve?

Ninguém a deseja, mas tem um papel importante. A cera não é, como explicam os especialistas, um inimigo que deva ser abatido.

A cera - ou cerúmen, como é designada na gíria médica - tem o nobre objetivo da proteção. "A cera tem contacto externo com o interior do corpo e é um líquido que é produzido para tentar manter essa proteção do corpo", esclarece Inês Espiga Macedo, médica de medicina geral e familiar.

Essa proteção passa até por, aponta Leonel Luís, afastar "fungos, bactérias e até insetos". "É como uma barreira e faz com que não entrem", garante o otorrinolaringologista. 

E se a cera é, afinal, algo positivo, devemos deixá-la onde está? Sim. "A cera tem tendência a sair por si mesma", assegura a médica de medicina geral e familiar, apresentando esse como outro motivo para não recomendar o uso de cotonetes para a remover.

O processo de formação da cera é longo e complexo. Para o explicar, o diretor do Serviço de Otorrinolaringologia do Hospital de Santa Maria recorre, a brincar, a comparações.

Imagine o ouvido como um copo. A cera vai se formando na borda do mesmo, tal como o sal numa "marguerita", depois de vir à superfície, através da pele que vai crescendo e sendo puxada para fora, abrindo-se pelas laterais do copo como "um mil-folhas". 

Ao interromper este processo com a agressão do cotonete, para retirar a cera, pode estar a "traumatizar a pele", reforça Leonel Luís.

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