O senador já é por alguns tido como "o combatente de que os Democratas precisavam". E tudo por causa de 25 horas e cinco minutos em pé e a discursar
Nasceu Cory Anthony Booker em Washington, D.C., eram os idos de abril - o ano, 1969 -, mas crescer, cresceu em Nova Jérsia, cidade de maioria branca, e concretamente em Harrington Park, onde os pais, Cary e Carolyn, foram das primeiras famílias afro-americanas da comunidade — e sofreu, por isso, de racismo. Pelo que desde cedo a ideia (ou ideal) de justiça social marcou o trajeto de Booker, então só o jovem Cory. Estudou em Stanford, onde foi ainda jogador de futebol americano, e depois viria a Universidade de Oxford, enquanto aluno bolseiro da Rhodes. A seguir a Oxford veio Yale, onde se forma em Direito e onde se forma um activista comunitário. Cory Booker foi após aquela licenciatura trabalhar em bairros pobres de Newark, cidade da qual se vem a tornar mayor em 2006, cidade que transforma num “laboratório de políticas progressistas” - escreveram os apoiantes, ou críticos; depende da teoria que defendem economicamente e socialmente.
Falemos de Senado, pois foi esse Senado que lhe deu ribalta por estes dias. Chega lá em 2013, como o representante de Nova Jérsia. Cory Booker era apenas o quarto senador negro eleito na história norte-americana. Ao Senado levava uma retórica tida como “inflamada”. Onde muitos viam inflamação, Booker via os seus mitos, exemplos da palavra: Martin Luther King Jr. e John Lewis, figuras-maiores e incontornáveis da luta pelos direitos civis. Replicava-os não os imitando, ganhando pouco a pouco a sua voz própria, mas não gravava como eles o nome Cory, Cory Booker, de maneira definitiva, cravada, na História. Agora conseguiu fazer isso. Enfim fez.
Esteve durante 25 horas - e mais outros cinco minutos -, sem se sentar, sem se ceder, sem hesitar, sem titubear, a discursar no Senado, e o essencial do que Cory foi isto: a denuncia do presidente Trump e o que ele, Cory, considera a destruição dos valores fundamentais da democracia americana. Essencial é o recorde batido também, ao falar por tão longo período. Vinha já de 1957 e pertencia a um tal Strom Thurmond, um segregacionista, que tentou travar a Lei dos Direitos Civis.
Booker não quis falar tão longamente pelo recorde de Thurmond. Falou por saber que o Partido Democrata precisava de um momento assim. É pelo menos o que leem analistas e apoiantes. Os democratas precisavam de gestos, de um gesto que fosse, algo que para dentro simbolizasse resistência, que para todos capturasse a indignação difusa de milhões de eleitores progressistas, desanimados pela passividade do partido frente à investida republicana. O senador Cory Booker transformar uma intervenção legislativa num momento de mobilização popular.
Uma mobilização, mais até do que política, popular - popular mesmo. O discurso de Booker tornou-se num fenómeno nas redes sociais, somando mais de 350 milhões de gostos no TikTok e levando 300 mil pessoas a assistirem em direto. De fora, o gabinete do senador recebeu mais de 28 mil mensagens de apoio e, internamente, no seio dos democratas, a palavra que ecoava era uma: liderança. “Os democratas de base estão desesperados por combatividade”, resumiu Ezra Levin, cofundador da Indivisible, um grupo progressista que muito tem criticado a “passividade” do Partido Democrata.
Voltando ao discurso de Thurmond. Falou em 1957 por longas 24 horas. Um dia todo, e mais 18 minutos. O discurso de Booker bateu-o também no simbolismo. É que o segregacionista defendeu no discurso a chamada supremacia branca. E o senador afro-americano quebrou esse recordo para combater um presidente que, segundo ele, alimenta as dinâmicas (as mesmas de Thurmond) de exclusão e de injustiça. “Sendo-vos franco, o recorde de Thurmond sempre me irritou”, confessou Booker. Porquê? “Porque o mais longo discurso da história do nosso Senado tinha sido feito por alguém que queria impedir pessoas como eu de aqui estarem - e sempre me pareceu errado isso.”
Esqueçamos o recorde. Há mais na mensagem do senador além dele. Pela dia adentro, pela noite dentro, durante todas aquelas horas de resistência, Booker usou da tribuna para ler excertos da Constituição, testemunhos de eleitores, histórias de imigrantes, de beneficiários do Medicaid, de trabalhadores que perderam o seguro de saúde. E manteve-se focado. Sem ser verbo de encher. Ao contrário de Ted Cruz, por exemplo: que em 2013, durante um discurso de 21 horas, usou parte do tempo para ler "Green Eggs and Ham", um livro de Dr. Seuss. Famoso. Famoso por ser infantil. Booker não cedeu à tentação de ocupar o tempo com tempo vazio.
Falemos do que disse ele. Os momentos mais impactantes do discurso vieram quando o senador Booker denunciou, com minuciosos detalhes até, as políticas da administração Trump. Classificou de “destruição imprudente” os cortes na Segurança Social, as deportações em massa, o desmantelamento de programas de assistência médica e a sabotagem das instituições democráticas. “Este não é um momento partidário; é um momento moral”, declarou, enquanto segurava um pequeno exemplar da Constituição. E questionava, a desafiar: “Tu, onde te posicionas?”
Não se julga que é somente de crítica o discurso de Booker; é também de apelo. Como aqui: “Se os americanos não tomarem uma posição agora, quando é que o farão?”, perguntou, já com a voz enrouquecida, ao atingir a marca das 20 horas consecutivas a discursar. O senador criticou e também apelou. O senador apelou e também evocou. Cory Booker evocou John Lewis, o congressista que é uma lenda dos direitos civis, e que incentivava os americanos a meterem-se em “bons problemas” na luta pela justiça. “John Lewis dir-nos-ia: façam alguma coisa. Ele não trataria este momento moral como se fosse algo de normal. Faremos tudo o que podermos para o orgulhar.” E questiona: 2Como estou a honrar as suas palavras?”
Já ao aproximar-se do recorde, Cory Booker mencionou novamente que sempre se sentiu “incomodado” por Thurmond deter a marca do discurso mais longo no Senado. “Não estou aqui por causa dele, estou aqui apesar dele”, afirmou. E rematou: “Estou aqui porque, por mais poderoso que fosse, o povo era mais poderoso ainda.” E quando o recorde foi batido, o líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, interveio para assinalar esse feito: “Sabes o quão orgulhoso está de ti este partido? O quão orgulhosa está a América?”, declarou, enquanto os senadores democratas se levantavam para aplaudir.
Booker admitiu que, batido o recorde, teria de encerrar o discurso em breve. Disse-o gracejando: “Depois disto, vou tratar de algumas urgências biológicas”. Graças à parte, este discurso de 25 horas surgiu num momento de frustração entre os democratas progressistas, que se dizem traídos pelos recentes acordos com os republicanos, incluindo um orçamento apoiado por Trump - e aprovado com o voto de dez senadores democratas.
Uma sondagem da CNN internacional revelou que quase três quartos dos democratas e eleitores democratas sentiam que o seu partido não estava a fazer o suficiente para se opor ao presidente norte-americano. O discurso-manifesto de Booker foi visto como uma tentativa de dar resposta a tais inquietações e sinalizar que, pelo menos ele, está disposto a desafiar o status quo.
Após terminar o discurso, o senador revelou que não tinha comido desde sexta-feira e que parara de beber líquidos na noite de domingo. Tudo para aguentar a jornada. Mas recusou-se a responder quando questionado se usou uma algália, ou fraldas, durante a sessão. Sobre se se via como o futuro da resistência democrata contra Donald Trump, Booker também não respondeu e fugiu assim à pergunta: “Estou apenas a tentar fazer a minha parte. Todos devíamos estar a pensar em como fazer mais. Espero que haja uma nova geração de líderes americanos e que se levantem. Essa geração já chegou”.
Apesar de elogiado, de assistido e elogiado, impacto político do discurso de Booker ainda está por medir. Politicamente, legislativamente, não consegui travar, claro está, os avanços republicanos. Mas politicamente, não legislativamente, conseguiu colocar os holofotes na resistência dos Democratas. A reação de incómodo (desvalorizam, incomodados) da Casa Branca é exemplo cabal disso. De lá, do número 1600 da Pennsylvania Avenue, comparam o discurso a anteriores momentos “teatrais” do senador: “Quando é que ele se aperceberá de que não é Espártaco, mas apenas uma caricatura?”, ironizou um porta-voz de Trump.
Espartano foi — de rigoroso. Quebrou um recorde e fez a sua história no Senado. Resta saber se a vai conseguir fazer na América toda. Se pelo menos vai conseguir galvanizar a oposição democrata. Se os democratas querem, afinal, seguir este caminho com ele. O tempo o dirá. Ou pode ele, Booker, ser mais um persa, e não um espartano, e inverter o velho provérbio molon labe: vai ele ao Partido e toma-o.