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A poesia está "viva e de boa saúde" no Corpo Humano de Maria do Rosário Pedreira

17 fev 2023, 19:57
Maria do Rosário Pedreira

A escritora, que é também editora no grupo Leya, foi distinguida no Correntes D'Escritas pelo livro "O Meu Corpo Humano", que marcou o seu regresso literário. Na Póvoa de Varzim falou sobre poesia, livros, novos leitores e o impacto da pandemia

Foi num momento de pausa do programa do Correntes D'Escritas, à entrada do Cine-Teatro Garrett na Póvoa de Varzim, que encontrámos Maria do Rosário Pedreira, a vencedora deste ano do Prémio Literário Casino da Póvoa. A escritora, que é também editora no grupo Leya, foi distinguida pela obra "O Meu Corpo Humano", editado pela Quetzal, no ano passado. 
 
"Tem dois significados muito bons, o primeiro tem que ver com a lista de finalistas, ou seja, podia ter ganho qualquer um daqueles livros. É sempre um fator sorte sermos nós os contemplados, havia ali livros e autores muitos bons. E portanto tem um significado especial por saber que, ao lado de todas aquelas pessoas, o meu livro foi escolhido. Por outro lado, porque sucedo a outros nomes da poesia portuguesa que admiro muito, como a Ana Luísa Amaral ou o Pedro Tamen, para citar apenas dois", começa por dizer à CNN Portugal.
 
Nascida em Lisboa, em 1959, Maria do Rosário Pedreira conta à CNN Portugal que tem já uma longa ligação ao Correntes D'Escritas, que destaca pelo seu carácter menos formal e mais caloroso. "É um encontro a que eu venho desde a segunda vez, só falhei o primeiro ano. É um encontro de escritores que é muito caloroso, que é muito diferente de outros encontros a que fui noutros países e mesmo em Portugal, que são mais formais ou mais académicos. É um encontro de amigos, digamos assim. Voltar aqui todos os anos é sempre surpreendente, é sempre carinhoso e terno, mas ao mesmo tempo este ano teve este suplemento de alegria que foi ter recebido o prémio."
 
É um encontro de escritores e de leitores. E, como afirmou o vereador da cultura Luís Diamantino à CNN Portugal, um encontro onde "não há barreiras": "O leitor está ali com o escritor à mão de semear, ou à mão de assinar, e pode conversar com ele. O leitor pode ser um amigo do escritor e do livro, logicamente, porque o livro está no centro disto tudo".
 
Os livros estão no centro de tudo e, no caso de Maria do Rosário Pedreira, é de poesia de que falamos. A autora publicou o seu primeiro livro de poemas, "A Casa e o Cheiro dos Livros", em 1996. "O Canto do Vento nos Ciprestes" foi editado em 2001, "Nenhum Nome Depois" em 2004 e um volume com a "Poesia Reunida", em 2012. "O Meu Corpo Humano", que marca o seu regresso literário e é organizado em três momentos, vamos percorrendo a anatomia humana de forma sombria e melancólica. "É o meu corpo/humano: vê, ouve,/toca, pensa e/ dói-lhe./Volto porque/preciso muito/que me amem."
 
"A poesia é uma maneira concentrada de escrever e é preciso ter experiência de leitura para atingir muitas vezes a linguagem metafórica da poesia. Não penso que a gente nova leia muita poesia", afirma à CNN Portugal.
 
Mas num tempo dominado por múltiplos apelos das plataformas digitais, eventos como o Correntes D'Escritas servem também para provar que "há um público para os livros e para os escritores". E até, como disse na curta declaração que fez quando recebeu o prémio, que "a poesia está viva e de boa saúde".
 
"O importante é perceber que há um público para os livros e um público para os escritores e que ainda há esta esperança de podermos estar a falar cara a cara. Vimos de uma pandemia que nos afastou muito, que nos obrigou a falar através de máquinas e estamos de volta, podemos falar olho no olho com o público", afirma a escritora à CNN Portugal.
 
A pandemia não só nos obrigou a falar através de máquinas, como nos confinou, dentro das nossas casas. Os livros podem ter sido um refúgio para alguns, mas é sem grandes ilusões que Maria do Rosário Pedreira nos diz: "Não creio que a pandemia tenha tido o efeito de criar novos leitores, nisso não acredito. Acho que os que liam leram provavelmente mais porque não puderam ir à rua".

"Numa primeira fase, as pessoas estavam com muito medo, desconheciam completamente a doença, sabiam que ela era um risco muito grande e alienaram-se um pouco com a televisão e com as séries. Penso que numa fase posterior a leitura já ajudou muito a ocupar o tempo dessas pessoas. Mas também penso que aqueles que leram leem sempre, mesmo quando não se podia sair", explica.

Há um público para os livros e para os escritores e, este ano, esse público voltou a juntar-se nos diferentes espaços do Correntes D'Escritas, na Póvoa de Varzim, um festival criado há 24 anos e que já se tornou um dos mais importantes eventos literários do país.

Além dos lançamentos de novas obras que levaram à cidade escritores como Rosa Montero, Marcial Gala ou Juan Gabriel Vásquez, no programa deste ano destaca-se a homenagem à poeta Ana Luísa Amaral, que morreu no ano passado e que era uma "amiga" do festival, como a própria organização descreveu. A sala principal do Cine-Teatro Garrett, com capacidade para 500 pessoas, encheu várias vezes para ouvir reflexões de personalidades da cultura e das artes a partir de versos da autora.

Seja para os que leem poesia, seja para o que preferem romances de amor, os livros podem ser tanto um escape como uma forma de conexão e de proximidade com o outro. E numa das mesas de debate ouviu-se assim, pela voz da ilustradora e livreira Mafalda Milhões: "Ainda que o mundo ande torto, sigo para além do que me sonharam e sei, tenho a certeza de que onde há uma livraria há esperança".

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