Como é que se relaxa num dos países mais trabalhadores do mundo

CNN , Hanna Park
9 fev 2025, 18:00
Os visitantes aproveitam a piscina num resort temático em Yangju, na Coreia do Sul (Kim Seunggu)

Na fotografia de capa, os visitantes aproveitam a piscina num resort temático em Yangju. É uma das formas de lazer mais comuns na Coreia do Sul

Equipado com uma grande câmara de filmar e muitas vezes vestido com roupa desportiva, o fotógrafo Kim Seunggu, que vive em Seul, passou praticamente 15 anos a capturar a essência daquilo a que chama de “cultura do lazer” – férias, momentos de descanso à beira da piscina e encontros comunitários – na Coreia do Sul contemporânea.

O foco da sua série “Better Days” [Melhores Dias, em português], que está em constante atualização, é ainda mais marcante por ter lugar num país que ocupa o quarto lugar do mundo no número de horas trabalhadas – e onde o fenómeno do gwarosa, ou seja, de mortes por excesso de trabalho, ainda é responsável por inúmeras mortes todos os anos. Em 2023, o governo sul-coreano foi forçado a abandonar os seus planos para aumentar a carga horária semanal de 52 para 69 horas, devido à resistência das gerações mais jovens de trabalhadores, conhecidos como gerações Millennial e Z. A proposta tinha como objetivo combater a escassez de mão de obra causada pela baixa taxa de natalidade e pelo envelhecimento da população.

Segundo Kim Seunggu, a cultura de lazer na Coreia do Sul é marcada por um desejo de alívio face às intensas pressões do trabalho e ao estilo de vida acelerado do país.

Num parque público da cidade de Yangju, os visitantes tiram fotografias num festival dedicado às vibrantes perpétuas roxas, flores conhecidas pela sua resiliência e cores (Kim Seunggu)

Kim Seunggu, de 45 anos, começou a registar estas cenas em 2010, enquanto tirava uma pós-graduação. O projeto levou-o ao popular parque aquático Jangheung Hanok, com as suas águas minerais junto a uma casa tradicional coreana; à Real Colina de Azáleas, famosa pelas suas flores; ao Parque Mulbit, que conta com trilhos tranquilos pela natureza; e a diversos acampamentos em parques urbanos espalhados por todo o país.

Quando era criança, Kim Seunggu costumava observar com atenção as interações entre as pessoas durante o seu tempo livre. Ao crescer, sentiu-se motivado a documentá-las. “Senti um novo fascínio por essas cenas”, conta à CNN numa entrevista por telefone.

A série deste fotógrafo recebeu aclamação dos críticos, conquistando o Grande Prémio na Competição Internacional de Fotografia de Tóquio e recebendo uma nomeação para o BBA Photography Prize [Prémio de Fotografia BBA]. O trabalho de Kim Seunggu também foi mostrado em importantes exposições no Museu de Arte Moderna de Gyeonggi e no SeMA - Seoul Museum of Art [Museu de Arte de Seul].

O seu último livro, intitulado “Better Days”, vai apresentar quase 50 fotografias desta série, explorando de forma mais profunda as questões da comunidade, da recreação e do equilíbrio entre a vida profissional e pessoal.

Momento para relaxar num parque aquático na Praça Mulbit, em Seul (Kim Seunggu)
A diversão também se faz em trenós quando a neve, mesmo que artificial, surge em Seul (Kim Seunggu)

Assim como os fotógrafos do século XX captaram, de forma inadvertida, os momentos fugazes da sua época - Kim Seunggu diz admirar os fotógrafos americanos Richard Misrach e Joel Sternfeld -, este fotógrafo emergiu como um cronista da vida moderna coreana, revelando as subtis camadas de alegria e complexidade que a definem.

A arte de encontrar locais

Em muitas das fotografias de Kim Seunggu, há como fundo paisagens urbanas aborrecidas, muito diferentes das animadas atividades de lazer do primeiro plano. Produz-se assim um contraste entre as pressões da vida quotidiana e os momentos de alegria que a pontuam.

Na fotografia do parque aquático Jangheung Hanok, Kim Seunggu mostra uma piscina movimentada, emoldurada pela tradicional arquitetura coreana, com estruturas de madeira e telhados curvados, ecoando um diálogo entre o passado e o presente. As crianças brincam na água, com as suas gargalhadas quase palpáveis no ar. Os pais relaxam à beira da piscina com trajes de banho coloridos, enquanto outros flutuam em boias insufláveis.

No entretanto, na fotografia da Real Colina de Azáleas, as flores cor de rosa dominam a cena, refletindo a importância das festividades sazonais na Coreia.

A Real Colina de Azáleas em plena floração (Kim Seunggu)

Os locais escolhidos por Kim Seunggu para a série “Better Days” são locais que costumam concentrar pessoas da classe média, não das classes altas da sociedade coreana.

“As pessoas da classe alta tendem a ir para lugares luxuosos e exclusivos, que são inacessíveis, como resorts ou hotéis de luxo, tornando difícil observar de perto a sua forma de estar”, conta, acrescentando: “Acredito que a cultura aproveitada pela maioria representa melhor a sociedade coreana”.

“Na dinastia Joseon, as pinturas muitas vezes retratavam a cultura das pessoas comuns, assim como houve pintores europeus que se focavam nas festividades locais e na vida dos camponeses”, explica, referindo-se à dinastia que moldou a história coreana do século XIV ao final do século XIX. “Essas representações revelam muito sobre a época. A vida da classe alta costuma estar escondida por detrás de várias camadas de luxo. Já a cultura aberta das pessoas comuns reflete um folclore moderno”.

Descobrir a resiliência cultural

Para entender melhor como é única a cultura de lazer da Coreia do Sul, Kim Seunggu analisou o seu contexto histórico, nomeadamente a estagnação cultural que se seguiu às décadas de domínio colonial japonês e à Guerra da Coreia.

“Nos anos 1980 e 1990, o apelo por reformas políticas – especialmente depois dos protestos de 1987 – despertou um forte desejo por liberdade e democracia. Isso levou à aceitação das culturas ocidentais, vindas dos Estados Unidos e da Europa”, explica. Kim Seunggu reforça que o movimento de busca pelo individualismo na Coreia coexiste com um sentido de comunidade, enraizado num desejo coletivo de liberdade decorrente da ocupação japonesa e dos regimes ditatoriais.

Por sua vez, segundo Kim Seunggu, a sociedade sul-coreana tornou-se aquilo a que ele chama de “comunidade flexível”, que mistura individualismo com confiança mútua – e onde os encontros com pessoas que não se conhecem são considerados parte da rotina e seguros.

As fotografias de Kim Seunggu são o testemunho de uma sociedade que, ao mesmo tempo que lida com as pressões das longas horas de trabalho e da rápida modernização, encontra momentos de alegria e conexão com os outros. O fotógrafo insiste que o seu trabalho não aborda questões políticas de uma forma direta. Contudo, quando questionado sobre os desafios que enfrenta atualmente a Coreia do Sul, que vai da recente turbulência política à crescente crise demográfica, defende que as “contradições” da sociedade são “dores de crescimento rumo a uma democracia e a um mundo melhores”.

Kim Seunggu vê estas ideias como parte integrante da série “Better Days”, acrescentando: “A sociedade coreana superou muitos desafios graças à força dos seus cidadãos. A paixão refletida na nossa cultura de lazer indica o potencial para melhorar a nossa sociedade”.

Cena de um festival no Parque Desportivo Salgoji (Kim Seunggu)
Natação ao ar livre em Vale Baegun, Pocheon, Coreia do Sul (Kim Seunggu)

As longas jornadas de trabalho, com pouco tempo para pausas, levaram muitos coreanos a viver perto dos centros urbanos. Mais de 80% da população vive em cidades. Por isso, dentro das fotografias de Kim Seunggu existe uma dualidade intrigante: uma tensão entre a paisagem urbana opressiva e as coloridas atividades de lazer dos seus residentes.

O fotógrafo utiliza frequentemente cores vivas, ângulos altos e pontos de vista distantes, captando um contexto mais amplo das interações sociais.

“As pessoas podem olhar para as longas jornadas de trabalho e para as férias curtas na Coreia de uma forma negativa, mas eu vejo-as como o reflexo de pessoas que se adaptam e superam os desafios, mostrando como são diligentes”, diz. “Aceitamos essas contradições até um certo ponto. E, dentro dessa tarefa, está a busca pelo prazer no lazer. É um otimismo evidente na cultura de lazer coreana, que eu procuro expressar através de fotografias quentes e brilhantes”.

Os espectadores reúnem-se para assistir a uma apresentação dos soldados da guarda de honra sul-coreana em Seul (Kim Seunggu)

Kim Seunggu também destaca a importância do seu processo criativo e do compromisso com uma “fotografia lenta”, que exige paciência, uma vez que muitas vezes passa horas a observar, antes de captar uma imagem.

De um modo um tanto ou quanto irónico, a forma como documenta a evolução da cultura de lazer na Coreia contém em si mesma uma forte ética de trabalho.

“Quero continuar até não poder mais”, diz.

“Better Days” foi publicado pela editora Kehrer Verlag.

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