Coreia do Norte divulga vídeo de propaganda a elogiar os soldados que lutaram contra a Ucrânia
A poucos dias de Kim Jong-un se juntar a Vladimir Putin para assistir a uma demonstração do poder militar da China, a Coreia do Norte divulgou um filme de propaganda para elogiar os esforços das suas tropas a combater pela Rússia na guerra contra a Ucrânia.
O vídeo de 20 minutos, divulgado pelos meios de comunicação estatais norte-coreanos KCTV, mostrou imagens fortemente dramatizadas de soldados num campo de batalha coberto de neve – a manusearem armas, a reunirem-se com soldados russos e a instalarem explosivos em árvores.
Também foram exibidas imagens aéreas que alegadamente mostram os danos causados pelos soldados norte-coreanos, com excertos de explosões e ataques dirigidos.
Outras partes do vídeo enfatizaram o patriotismo dos soldados – com uma cena a mostrar, aparentemente, soldados a contemplar um retrato emoldurado de Kim e outra a mostrar um soldado a encostar a face à bandeira da Coreia do Norte.
Não é claro até que ponto as imagens são autênticas ou se foram encenadas ou manipuladas, como é comum na propaganda norte-coreana. A CNN não consegue verificar de forma independente quando e onde os vídeos foram filmados.
“Estão a apresentar a sua participação na guerra da Ucrânia como um feito importante, como mais uma confirmação do poderio militar da Coreia do Norte e da sua lealdade ao partido, ao Estado e ao próprio líder”, diz Andrei Lankov, professor de Estudos Coreanos na Universidade Kookmin, em Seul.
O vídeo oferece uma visão otimista da situação no terreno num teatro que se tornou notório pelos ataques em massa e pelas horríveis taxas de baixas do lado russo. Autoridades ocidentais estimaram que um terço dos 12 mil soldados norte-coreanos acreditados como parte da implantação inicial foram mortos ou feridos.
O programa, inicialmente envolto em segredo, foi posteriormente confirmado tanto por Pyongyang como por Moscovo. Nas últimas semanas, Kim reconheceu finalmente a perda de tropas, realizando dois eventos em agosto para encontrar famílias em luto.
Na última sexta-feira, prometeu “uma vida bonita” para as famílias dos “mártires” que morreram a lutar pela Rússia, noticiaram os meios de comunicação estatais. No início de agosto, disse que o seu “coração dói”, com fotografias divulgadas pelos meios estatais a mostrar o líder a abraçar famílias em pranto e a ajoelhar-se diante dos retratos dos soldados falecidos.
O vídeo de propaganda divulgado no domingo também prestou homenagem a estes soldados, começando com uma declaração de que as tropas participaram em operações para “libertar” a região russa de Kursk em outubro de 2024, após a ofensiva surpresa da Ucrânia. Também mencionou alguns soldados mortos e descreveu como morreram.
Durante décadas, a propaganda norte-coreana tem enfatizado a importância do seu exército, mas “tinha muito pouco conteúdo real para apresentar”, afirma Lankov, referindo-se à anterior falta de experiência real deste exército em campos de batalha.
“Agora, tiveram uma guerra real onde, de modo geral, os soldados norte-coreanos lutaram bastante bem”, acrescenta. “É compreensível que isso se torne provavelmente um tema importante da sua propaganda interna, da sua educação ideológica doméstica e da sua doutrinação.”
A Coreia do Norte tem-se aproximado da Rússia desde o início da guerra, com especialistas a alertarem que Moscovo pode estar a oferecer assistência militar e tecnológica a Pyongyang em troca das suas tropas.
Visita a Pequim
Kim e o líder russo Vladimir Putin vão estar ambos em Pequim esta quarta-feira para um grande desfile militar que assinala o 80.º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial – preparando o cenário para uma demonstração impressionante de unidade entre os dois líderes autocratas e Xi Jinping, da China.
Esta será a primeira viagem de Kim à China desde 2019. Kim, que apenas fez 10 viagens ao estrangeiro desde que assumiu o poder, em 2011, saiu do seu país pela última vez em 2023 para se encontrar com Putin numa base espacial remota no extremo oriente da Rússia.
Hong Min, investigador sénior no Instituto Coreano para a Unificação Nacional em Seul, afirma que a Coreia do Norte pode ter divulgado o vídeo antes desta visita a Pequim para retratar Kim como “um líder importante com uma posição estratégica no Nordeste da Ásia, equivalente à de Putin e Xi Jinping na celebração do Dia da Vitória”.
Isto reforçaria a narrativa de que a Coreia do Norte está “a formar uma frente de solidariedade com países poderosos no palco diplomático,” acrescenta Hong.
Este domingo, Kim também inspecionou mísseis numa linha de produção “recém-inaugurada” e informou-se sobre a “condição geral da capacidade estatal de produção de mísseis,” noticiou a agência estatal KCNA, esta segunda-feira.
Imagens publicadas pela KCNA mostravam Kim num local não divulgado a inspecionar várias dezenas de armas em diferentes fases de produção e a conversar com oficiais fardados.
De acordo com o relatório da KCNA, a Coreia do Norte “cumpriu com sucesso” o seu plano quinquenal para expandir a capacidade de produção de mísseis.
“Vários tipos de mísseis foram postos em produção em série”, noticiou a agência, acrescentando que Kim ratificou três novos planos de longo prazo “relacionados com a capacidade de produção de mísseis”.
A Coreia do Norte intensificou o seu programa de armamento nos últimos anos, modernizando rapidamente as suas forças armadas, desenvolvendo novas armas e testando mísseis balísticos intercontinentais capazes de atingir quase qualquer lugar nos Estados Unidos.
Kim também intensificou a sua retórica, prometendo recentemente reforçar o programa nuclear do país e ameaçou usá-lo para destruir a Coreia do Sul, caso seja atacado.