Uma década nuclear: dez anos de Kim Jong-un no poder

18 dez 2021, 16:45

Depois de chegar ao poder com menos de 30 anos, o neto do fundador da República Popular Democrática da Coreia do Norte provou às elites do seu país e ao mundo que a dinastia Kim veio para ficar

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Ao contrário de outros líderes mundiais, Kim Jong-un não tem de preocupar-se com a qualidade da sua liderança. Não existem eleições naquele que é um dos Estados mais isolados do Planeta.

Jong-un, tal como os seus antecessores, governa sem limitação de mandatos. E, dada a sua idade – 37 anos – poderá permanecer à frente dos destinos de Pyongyang durante muitos anos.

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Apesar de ser o líder máximo de um Estado que vive sob um regime comunista, a cultura pop dos Estados Unidos não lhe causa repugna. Antes pelo contrário. Há 10 anos, um dos seus melhores amigos da escola que frequentou em Liebefeld, no cantão suíço de Berna, o português João Micaelo, contou à TVI que Un Pak, como era conhecido, “era fanático por basquetebol” e “vestia roupas de marca.”

“Para ele, só existia basquetebol,” contou João Micaelo, na altura chef de cozinha na Áustria.

“A equipa preferida dele eram os Chicago Bulls e o jogador favorito era o Michael Jordan,” continuou. “Saíamos juntos, eu ia a casa dele e ele à minha. Fazíamos desporto, os deveres ou víamos filmes”.

Os dois adolescentes partilharam muitos segredos, mas João nunca desconfiou de nada. E nem no dia que Un Pak que lhe confessou que era filho do ainda líder da Coreia do Norte e mostrou uma foto, acreditou ser verdade. Mas o tempo provou que assim era.

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Os Kim: nepotismo comunista e do “grande líder” e “querido líder”

Jong-un é o terceiro da dinastia Kim, fundadora da República Democrática da Coreia. Kim Il-sung, “o grande líder”, assume o poder em 1948, tornando-se também no líder do Partido dos Trabalhadores. Governa uma república próxima de Moscovo e cujos habitantes chegam a viver com melhores condições de vida do que os vizinhos do sul. Nos anos 60 e 70, a economia planificada do Norte contrastava com o caos político e económico que dominava em Seul. A situação mudou nos anos 80, quando a Coreia do Sul passou a fazer parte dos chamados “tigres asiáticos”, com altos níveis de desenvolvimento registados ano após ano.

Kim Il Sung (Korean Central News Agency/Korea News Service via AP)

Il-Sung morreu em 1994, tendo o lugar sido assumido pelo filho. Para trás ficavam a invasão da Coreia do Sul nos anos 50 e o cessar-fogo, assinado em julho de 1953. Foi dos chefes de Estado que mais tempo esteve no poder, 45 anos. O filho, Jong-il, assume o poder com 53 anos. Assume também o cargo de Secretário Geral do Partido dos Trabalhadores da Coreia e de Comandante Supremo do Exército Popular da Coreia. Dirigiu o país de forma repressiva e totalitária, com medo de não sobreviver à desintegração do bloco comunista.

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Durante liderança de Kim Jong-il, o exército assume um papel central na organização da vida pública. Acentuam-se as visões de exaltação nacionalista do regime e da dinastia no poder. Jong-il passa a ser conhecido como o “querido líder". Tenta algumas reformas económicas, mas a Coreia do Norte, isolada do mundo e pressionada pelos Estados Unidos e Seul, não consegue melhorar o nível de vida de uma população sem voz.

Hollywood em Kuala Lumpur

Kim Jong-un assume a liderança da Coreia depois da morte do pai, Kim Jong-il, em dezembro de 2011. Tinha 27 anos e as elites viam-no como um jovem sem experiência. Não era sequer membro do comité político do Partido dos Trabalhadores, mas tinha em mãos os destinos de um dos regimes mais monolíticos à face da Terra. Washington chegou a equacionar a possibilidade de um golpe de Estado que iria pôr fim à dinastia fundadora.

Foi então que Jong-Un quis mostrar aos norte-coreanos e ao mundo que a dinastia fundadora iria permanecer no poder mais alguns anos. E que estava preparado para eliminar opositores, incluindo famíliares, assumindo a brutalidade e a repressão dos seus antecessores.

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Dois anos depois assumir o cargo, manda executar o tio, Jang Song-thaek, que acusa de traição. Em 2017, acontece o que parecia um episódio de uma série de ação de Hollywood. O seu meio irmão, Kim Jong-nam, é assassinado no aeroporto de Kuala Lumpur, com recurso a um agente neurotóxico.

Crítico do regime e exiliado em Macau, Jong-nam foi abordado por duas mulheres, que alegaram pensar que tudo se tratava de uma partida. Posteriormente, uma delas, de nacionalidade vietnamita, confessou o crime. Disse que tinha agido às ordens de quatro norte-coreanos. Condenada, acabou livre por boa conduta.

Uma potência nuclear sem soberania alimentar

Mas se Kim Jong-un parece indiferente às sanções internacionais de que tem sido alvo a Coreia do Norte, a verdade é que o regime político que dirige com mão de ferro é incapaz de manter parte da população alimentada. Há fome na Coreia do Norte e os casos de subnutrição não são uma novidade.

Nos anos 90, depois da morte de Kim Il-Sung, avô de Kim Jong-un e presidente da República Popular da Coreia do Norte de 1948 até à sua morte, em 1998, as Nações Unidas alertaram para as consequências do declínio económico do país.

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As crises da fome de há 30 anos foram a consequência de catástrofes naturais. A Coreia do Norte foi castigada por cheias associadas a tufões e largos períodos de secas, que destruíram culturas essenciais para alimentar uma população que, na altura, superava os 20 milhões de habitantes.

Entretanto, Pyongyang ia ficando cada vez mais isolada na cena internacional. A queda do bloco soviético e o distanciamento de Pequim deixaram o país mais isolado do que nunca, perdendo aliados fundamentais a nível geopolítico e que eram importantes parceiros comerciais.

As Nações Unidas diziam que, em 1998, cerca de 18% da população sofria subnutrição, problema que tocava em particular as crianças com menos de 9 anos – mais de 60% sofria de raquitismo, uma doença metabólica que provoca deformações nos ossos.

Dados deste ano do Programa Alimentar Mundial (WFP, na sigla em inglês) concluem que cerca de 40% da população norte-coreana sofre de insegurança alimentar. E que a pandemia de covid-19 mais não fez do que agravar o isolamento e acesso a alimentos dos cidadãos.

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Jong-un, o “rocket man”

Para além dos assassinatos em família, a imagem de marca Jong-un têm sido os testes nucleares à revelia do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Em 2017, Pyongyiang lançou mísseis balísticos com capacidade para atingir o território continental dos Estados Unidos.

O agravamento de sanções por parte das Nações Unidas de nada valeu. Jong-un assumiu uma retórica agressiva perante a comunidade internacional e desafiou o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que o avisou nas Nações Unidas que Washington estava de olho nele, chamando-lhe “rocket man” – homem dos foguetes, referindo-se aos mísseis balísticos.

Em 2018, graças à mediação do presidente sul-coreano Moon Jae-in, Kim Jong-un e Donald Trump encontram-se em Singapura. Poucas vezes o termo “momento histórico” parece ter feito tanto sentido em narrativa jornalística. Jong-un e Trump apertaram as mãos e conversaram. A ameaça do arsenal nuclear de Pyongyiang é verdadeira e os norte-americanos sabem disso. Tentar dialogar tornou-se importante.

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Seguiram-se mais dois encontros. O primeiro em Hanoi, Vietnam, e o segundo na Zona Desmilitarizada da Coreia (ZDC). Jong-un mostrou um lado mais conciliador e reformador, aberto a limitar os testes nucleares com as exigências de umas Nações Unidas atentas aos seus passos.

Mas os três encontros não permitiram aos EUA e à Coreia do Norte sair de um impasse. Na altura, vários diplomatas confiaram a publicações internacionais que o líder norte-coreano não tinha qualquer intenção de pôr termo aos projetos de desenvolvimento nuclear.

Pequim é o amigo do Norte

A Coreia do Norte teceu laços fortes com a República Popular da China durante a Guerra da Coreia, quando o Norte invadiu o Sul. Atualmente, Pyongyang olha para a China como um modelo de desenvolvimento possível com um sistema de partido único.

Mas esse desenvolvimento só será possível com um aliviar das sanções internacionais e, idealmente, com o fim das mesmas. Além disso, a amizade entre Pequim e Pyongyang é vista como uma relação de conveniência. Partilham, embora a níveis diferentes, rivais comuns, de Washington a Tóquio.

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O certo é que, 10 anos depois de chegar ao poder, Kim Jong-un é detentor de uma autoridade incontestada na Coreia do Norte e passou a ser referido, desde o início deste ano, como “Grande Líder”, tal como o seu avô. A sua presença a nível internacional é também incontestada, ainda que não pelos melhores motivos. A Coreia do Norte pode não ser oficialmente reconhecida como uma potência nuclear, mas o Ocidente e os seus vizinhos estão conscientes da sua capacidade a esse nível.

A Coreia do Norte é vigiada com muita atenção pela vizinha Coreia do Sul, mas também por outros países, como o Japão. Em Washington, a Administração Biden continua apreensiva com as intenções nucleares norte-coreanas, mas tem-se ocupado das rivalidades com a China na região.

As Coreias continuam, tecnicamente, em conflito, e Kim Jong-un optou, afinal de contas, nos últimos anos, por uma trajetória de isolamento, ao mesmo tempo que anuncia triunfante as etapas de um desenvolvimento de uma tecnologia nuclear cujos fins são tudo menos pacíficos. Entretanto, a Coreia do Norte intensifica a retórica nacionalista e a exaltação de um passado recente. Jong-un quer manter viva a herança do avô. E nem se esquece do corte de cabelo.

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