Coreia do Norte jura que nunca vendeu armas à Rússia

22 set, 06:10
Kim Jong-un e Vladimir Putin

Pyongyang garante que não forneceu nem armamento nem munições a Moscovo, e diz aos EUA que "calem a boca". Entretanto, há indícios de que os norte-coreanos preparam o lançamento de um submarino capaz de disparar mísseis balísticos

 

A Coreia do Norte garantiu esta quinta-feira que "não exportou armas ou munições para a Rússia" e não tem "planos" para o fazer no futuro, de acordo com um responsável militar norte-coreano citado pelos meios de comunicação estatais de Pyongyang. O curioso esclarecimento do regime de Kim Jong-un surge duas semanas depois de notícias dando conta de que Vladimir Putin estaria a tentar reabastecer os seus stocks com material de guerra norte-coreano.

"Recentemente, os EUA e outras forças hostis falaram sobre a ‘violação de uma resolução’ do CSNU [Conselho de Segurança das Nações Unidas], espalhando um ‘rumor de negócios de armas’ entre a RPDC [República Popular Democrática da Coreia] e a Rússia... Nunca tínhamos exportado armas ou munições para a Rússia e não tencionamos exportá-las", disse o vice-diretor-geral do Gabinete Geral de Equipamento do Ministério da Defesa norte-coreano.

As informações sobre o interesse russo em comprar armamento a Pyongyang foram divulgadas em primeira mão pelo New York Times, citando relatórios dos serviços secretos norte-americanos, e acabaram por ser confirmadas tanto pelo Departamento de Estado dos EUA como pela Casa Branca. Mas nunca os EUA afirmaram que a Coreia do Norte havia vendido equipamento bélico ou munições a Moscovo - apenas que os russos estariam interessados, e a negociar, essa compra. O porta-voz-adjunto do Departamento de Estado, Vedant Patel, disse que a Rússia estava então “no processo de compra de milhões de foguetes e ogivas de artilharia da Coreia do Norte para uso na Ucrânia", e o porta-voz da Casa Branca para assuntos de Segurança Nacional, John Kirby, foi ainda mais cauteloso, falando apenas de uma “potencial compra”. "Ainda não temos qualquer indicação de que a compra tenha realmente ocorrido, por isso é difícil dizer o que acabará por acontecer", realçou Kirby.

Mas o que ficou dessa informação foi a necessidade da Rússia procurar munições para o seu esforço de guerra junto de um fornecedor tão improvável como a Coreia do Norte, tal como já havia batido à porta do Irão para repor os seus stocks de drones. Um sintoma, segundo os EUA, do “desespero” de Vladimir Putin, por não conseguir repor material de guerra devido aos embargos decretados pelos EUA e outros países aliados da Ucrânia.

Agora, com duas semanas de atraso, a Agência Central de Notícias da Coreia (KCNA) divulgou o desmentido de um sub-diretor-geral não identificado, de um departamento cuja existência nunca foi referida em notícias oficiais nas últimas duas décadas. 

“Seria bom que os EUA calassem a boca”

Apesar da sua identidade obscura, este alegado responsável norte-coreano não poupou nas palavras. "Condenamos veementemente e advertimos severamente os EUA sobre a divulgação de tal retórica anti-RPDC" com a intenção de "manchar o nosso nome", lê-se na declaração (RPDC é o acrónimo de República Popular Democrática da Coreia, a designação oficial da Coreia do Norte).

Apesar do desmentido sobre eventuais negócios de armas com a Rússia, o porta-voz de Pyongyang defendeu o direito do seu país a vir a fazer esses negócios. "É nosso direito legítimo, como nação soberana, desenvolver, produzir, possuir e mesmo importar e exportar equipamento militar com outras nações", afirmou. De facto, não é assim, desde que o Conselho de Segurança da ONU decretou a proibição de venda de armas por parte da Coreia do Norte, como sanção pelos seus ensaios nucleares. A Rússia, membro permanente do Conselho de Segurança, aprovou essa proibição.

O responsável norte-coreano foi ainda mais longe: “Seria bom que os EUA calassem a boca", acrescentou, seguindo o que parece ser uma tendência recente na retórica agressiva da Coreia do Norte - mandar calar os visados. No mês passado, a irmã do ditador Kim Jong-un mandou o presidente sul-coreano “calar a boca”, depois de este ter proposto ajuda económica ao norte em troca da sua desnuclearização.

Desmentido para estrangeiro ler

O desmentido de Pyongyang foi emitido nos serviços internacionais da agência de notícias estatal, mas não há provas de que tenha sido em simultâneo divulgado para consumo interno do público norte-coreano. Segundo o site NK News, baseado nos EUA e dedicado a informação sobre o regime de Kim Jong-un, a declaração não apareceu na edição do Rodong Sinmun, o principal órgão de comunicação social do partido único da Coreia do Norte, utilizado para divulgar notícias e propaganda oficial - um pormenor que levanta a suspeita de que o desmentido se destine apenas a audiências estrangeiras.

Observadores internacionais admitem que a Coreia do Norte tem interesse em fornecer equipamento de guerra à Rússia, e que a Rússia tem procurado comprar foguetes e munições de artilharia, de que Pyongyang tem grandes quantidades. Poderão estar em causa diversos tipos de munições, como ogivas de artilharia (nomeadamente de 152mm e 122mm, compatíveis com o armamento russo) e foguetes. Material que Kim Jong-un tem em grande quantidade, de acordo os experts.

Segundo o investigador sul-coreano Go Myung-hyun, a Coreia do Norte é "mais ou menos auto-suficiente na produção de armas" e que tem "bastante" artilharia de 122mm e 152mm. Joost Oliemans, estudioso da capacidade militar norte-coreana, acrescenta que Pyongyang tem "grandes quantidades de munições mais antigas" e também pode produzir novas armas para exportação. 

Há fortes suspeitas de que a Coreia do Norte tem tentando vender armas a vários compradores, como forma de garantir receitas para uma economia que está depauperada por anos de sanções internacionais. Há acusações de que vendeu granadas propulsionadas por foguetes ao Egipto e também suspeitas de venda de armas para a Síria, a Nigéria e outros países.

As relações entre a Coreia do Norte e a Rússia estreitaram-se nos últimos meses, sobretudo após o início da invasão da Ucrânia, uma agressão apoiada explicitamente pelo regime de Kim Jong-un, que reconheceu a independência das autoproclamadas repúblicas separatistas de Donetsk e Lugansk. Kim prometeu enviar milhares de trabalhadores para ajudar a Rússia nos territórios ocupados, e falou também em enviar militares para ajudar o Kremlin na frente de combate.

Putin e Kim também trocaram cartas com elogios mútuos e com promessas de aprofundar a cooperação entre os dois países nos mais variados setores.

Norte lança novo submarino?

Entretanto, a Coreia do Norte poderá estar a preparar-se para um novo passo na escalada da sua capacidade militar, aproveitando o facto de contar com o respaldo da Rússia e da China em relação a novas sanções no Conselho de Segurança da ONU. Segundo um think tank norte-americano, Pyongyang pode estar a preparar o lançamento de um novo submarino que se acredita ser capaz de disparar mísseis balísticos.

Segundo a agência Reuters, que teve acesso ao relatório do think tank 38 North, que monitoriza a Coreia do Norte, imagens do estaleiro Sinpo South Shipyard, na costa leste do país, mostram seis barcaças e navios reunidos em torno do cais da construção. "Embora tenham sido ocasionalmente observadas barcaças e uma doca seca em redor do cais de lançamento de submarinos no principal cais de construção, a presença de seis navios e barcaças nesta área não foi observada antes", diz o relatório, concluindo que este tipo de atividade sugere preparativos para o lançamento de um submarino.

Analistas citados pela Reuters dizem que o tamanho aparente da nova embarcação indica que esta terá sido concebida para transportar mísseis. A Coreia do Norte tem uma grande frota de submarinos, mas, que se saiba, apenas um submarino experimental capaz de transportar um míssil balístico.

Entre uma grande quantidade de testes de mísseis feitos desde o início do ano, a Coreia do Norte testou, em maio, um míssil balístico lançado por submarinos. E desde 2019 que se sabe, pela comunicação social oficial norte-coreana, que o país está a desenvolver um novo submarino, sob a “especial atenção” de Kim.

Também há suspeitas, veiculadas pelos serviços de espionagem norte-americanos e sul-coreanos, de que a Coreia do Norte se estará a preparar para retomar os testes nucleares, que suspendeu em 2018.

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