Kim Jong-un de óculos escuros e em câmara lenta, à "Top Gun". "Está a lembrar o Ocidente que continua a ser um risco"

25 mar, 19:29
Video de propaganda da Coreia do Norte: Kim Jong Un assiste a lançamento de míssil

Num momento em que as atenções internacionais estão viradas para a Ucrânia, o líder coreano é protagonista de um vídeo de propaganda que imita o estilo das produções de Hollywood dos anos 80: "Quer dar um sinal de modernidade, mas aquilo parece uma produção antiga"

Com um blusão de cabedal e óculos escuros, ladeado por dois militares, Kim Jong-un supervisiona o lançamento de um míssil balístico intercontinental. O vídeo, que foi exibido na televisão pública da Coreia da Norte, coloca as imagens em câmara lenta e tenta criar alguma tensão: o presidente caminha pelo hangar, olha para o relógio e acena com a cabeça para dar o ok ao lançamento. 

O disparo foi feito na quinta-feira da costa leste do país e terá aterrado já dentro da zona económica exclusiva do Japão, na zona de Aomori. Foi 11.º lançamento destes projéteis norte-coreanos este ano, um número recorde. De acordo com Washington e Seul, Pyongyang está a testar um novo míssil balístico intercontinental, chamado Hwasong-17, alegadamente com maior alcance e poder destrutivo.

"Tanto quanto sabemos, a Coreia teve acesso àquela tecnologia através da Rússia. Sem o apoio de Putin, Kim Jong-un não teria aqueles mísseis intercontinentais", recorda à CNN Portugal Miguel Santos Neves, especialista em Relações Internacionais e professor da Universidade Autónoma. Por isso, na sua opinião, o lançamento deste míssil é, antes de mais, uma maneira de reagir à "indiferença da Rússia no momento atual", lembrando que também a Coreia do Norte pode constituir uma ameaça nuclear. Além disso, este vídeo é também uma forma de "relembrar os Estados Unidos que a Coreia do Norte pode atingir solo norte-americano".

"A Coreia do Norte está nervosa porque a Rússia tem sido o seu grande apoio e teme que Putin agora tenha outras prioridades. O país sente-se indiretamente ameçado pela guerra na Ucrânia, porque corre o risco de deixar de contar com o apoio essencial da Rússia", explica Miguel Santos Neves.

Por outro lado, "a Coreia do Norte sabe que depois da resolução desta crise, a questão do armamento nuclear vai estar no topo da agenda internacional". "A Coreia do Norte vai estar sob enorme pressão, nomeadamente da China. Portanto, este vídeo é também um aviso para o futuro".

Existe uma terceira leitura que pode ser feita, diz este especialista: "Esta pode ser também uma forma de revelar o seu apoio a Putin, esperando vir a ter algum tipo de benefício no futuro".

De qualquer forma, parece claro para Miguel Santos Neves que, apesar de haver uma mensagem para a população da Coreia, dizendo que "o país está pronto para se defender", "o vídeo destina-se ao exterior, por isso é que usa uma linguagem tão hollywoodesca".

 

É, na verdade, um vídeo de propaganda um tanto "paradoxal", comenta à CNN Portugal Nelson Ribeiro, especialista em comunicação e professor da Universidade Católica. "Vemos que se tentou fazer uma grande produção, imitando o estilo dos filmes de Hollywood para dar uma grande sinal de modernidade, mas, por outro lado, aquilo parece uma produção antiga, algo saído dos anos 80", diz, sublinhando as referências a filmes como "Top Gun", onde Tom Cruise também usava aquele tipo de óculos e aparecia em câmara lenta.

Com este vídeo, Kim Jong-un quer chamar a atenção sobre si: "Se fosse só mais um vídeo com um míssil provavelmente não seria noticiado. A capacidade de atenção mediática neste momento é muito baixa, a nossa atenção está focada na Ucrânia", explica. "Parece-me que o vídeo se dirige sobretudo para o Ocidente, quer chegar a muitas pessoas, mas no Ocidente a sensação que temos é que aquilo já está fora do tempo, por isso não cumpre o seu objetivo."

O que parece claro para os dois especialistas é que com este vídeo, Kim Jong-un está a mandar uma mensagem à comunidade internacional: "Não sabemos se existe alguma relação entre o conflito na Ucrânia e o lançamento do míssil ou se este já fazia parte do planeamento militar da Coreia, mas sabemos que com o vídeo ele está a lembrar a comunidade internacional que está aqui, que é um jogador importante e que continua a ser um risco para o Ocidente", diz Nelson Ribeiro.

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