Míssil balístico intercontinental norte-coreano terá explodido em pleno voo e fez soar alarmes no Japão

3 nov, 04:01
Imagem divulgada pelas autoridades norte-coreanas do lançamento de um míssil entre setembro e outubro de 2022

Coreia do Norte lançou esta manhã mais três mísseis para o Mar do Japão, depois de quarta-feira ter batido o recorde de projéteis disparados num só dia

A Coreia do Norte lançou esta quinta-feira mais três mísseis balísticos em direção ao Mar do Japão, depois de ontem ter batido o recorde de projéteis disparados num só dia: 23. A notícia de ontem não foi só o número de lançamentos, mas também o facto de um deles ter caído muito perto de águas territoriais da Coreia do Sul, e a apenas 57 quilómetros de uma cidade costeira sul-coreana, o que nunca havia acontecido antes. A notícia de hoje, para além dos disparos em si, é o facto de um dos lançamentos ter aparentemente falhado, após deixar o Japão em alerta.

Segundo a agência de notícias sul-coreana Yonhap, a arma mais poderosa lançada esta quinta-feira de manhã - um míssil balístico intercontinental (ICBM) - terá explodido em pleno voo durante a segunda fase do seu percurso. O ICBM foi lançado da área de Sunan, nos arredores de Pyongyang, por volta das 7h40 da manhã (menos 9 horas em Portugal) e voou cerca de 760 quilómetros, com uma altitude máxima de cerca de 1.920 km, tendo atingido uma velocidade de Mach 15 (ou seja, 15 vezes a velocidade do som), de acordo com o comunicado do Estado-Maior General das Forças Armadas da Coreia do Sul. Contudo, após a separação da segunda fase, o míssil parece ter falhado o seu voo normal e terá desaparecido dos radares, segundo acrescentou outra fonte militar sul-coreana. 

Japão lança alertas em 3 províncias

O suposto ICBM seguiu uma trajetória que o faria passar sobre o Japão, o que levou o governo de Tóquio a emitir um alerta de emergência para três províncias no norte e noroeste da principal ilha do arquipélago: Niigata, Yamagata and Miyagi. 

Num vídeo filmado na província de Niigata após o lançamento do primeiro míssil, ouve-se uma sirene e um anúncio público apelando às pessoas para que se abriguem dentro de edifícios ou nas caves. Nas três prefeituras a população recebeu avisos, também reproduzidos pela comunicação social, para evitar locais desabrigados que pudessem ser atingidos por eventuais destroços de um míssil. Mais tarde o alerta foi retirado.

"Detetámos um lançamento com o potencial de sobrevoar o Japão, e por isso desencadeámos o J-Alert [sistema nacional de alerta de emergência]", explicou o ministro da Defesa, Yasukazu Hamada, numa conferência de imprensa. "Mas, após verificar o voo, confirmámos que não tinha passado sobre o Japão".

A East Japan Railway suspendeu parcialmente três linhas de comboio-bala durante algum tempo. O Ministério dos Transportes do Japão emitiu um aviso às tripulações das companhias aéreas e disse-lhes para estarem em alerta, tendo informado mais tarde não haver reporte de quaisquer danos a aeronaves que voavam no espaço aéreo em redor do país.

"Um ultraje que não pode ser tolerado"

Este foi o sétimo disparo de um ICBM por parte da Coreia do Norte este ano. Para além desse projétil, foram disparados esta manhã outros dois mísseis balísticos de curto alcance, cerca de uma hora depois do primeiro lançamento.  

"Os nossos militares reforçaram a vigilância e a vigilância, mantendo a postura de prontidão em estreita cooperação com os EUA", garantiu o comando militar sul-coreano numa declaração. Em Tóquio, o primeiro-ministro Fumio Kishida considerou os “repetidos lançamentos de mísseis balísticos dos últimos dias” por parte da Coreia do Norte como “inaceitáveis” e “um ultraje [que] nunca deve ser tolerado”. E instruiu o Ministério da Defesa para dar atenção especial à recolha e análise de informação sobre os disparos de hoje, "uma vez que existe a possibilidade de um dos mísseis lançados desta vez poder ter sido um ICBM".

Contagem decrescente para um teste nuclear?

Os lançamentos desta quinta-feira seguem-se a um dia que fez história: ao longo da quarta-feira, a Coreia do Norte enviou um total de 23 mísseis, a maior barragem de lançamentos de sempre num único dia. Os lançamentos foram feitos tanto da costa leste (para o Mar do Japão) como da costa ocidental (para o Mar Amarelo) e incluíram uma variedade de projéteis. Num dia particularmente intenso, o Norte também disparou cerca de 100 tiros de artilharia para uma "zona tampão" militar ao largo da sua costa oriental.

Em resposta, a Coreia do Sul anunciou que os seus caças tinham disparado três mísseis em direção a águas a norte da Linha de Demarcação do Norte, que funciona há décadas como a fronteira marítima “de facto” entre as duas Coreias.

Recorde-se que um dos mísseis disparados ontem por Pyongyang caiu 26 quilómetros para lá dessa linha informal. Foi a primeira vez, desde a guerra da Coreia, que um míssil do Norte caiu tão perto das águas territoriais da Coreia do Sul. Tratou-se de um míssil balístico de curto alcance que caiu a apenas 57 quilómetros de Sokcho, uma cidade costeira no norte da Coreia do Sul.

As demonstrações do poder de fogo do Norte são o protesto contra os exercícios aéreos conjuntos que a Coreia do Sul e os EUA estão a fazer ao longo desta semana. Trata-se do maior exercício militar combinado das duas forças aéreas, envolvendo mais de 240 aviões que têm simulado bombardeamentos aéreos 24h por dia. 

Pyongyang entende sempre este tipo de manobras militares como ensaios para uma suposta invasão do Norte. Pak Jong-chon, secretário do Comité Central do Partido dos Trabalhadores do Norte, e figura bastante próxima do ditador Kim Jong-un, voltou a advertir na quarta-feira que Seul e Washington "pagarão o preço mais horrível da história" se decidirem atacar a metade norte da península. EUA e Coreia do Sul têm garantido que, como sempre, os exercícios são de natureza apenas defensiva.

As agências de informações sul-coreanas e norte-americanas acreditam que a atual escalada de disparos de mísseis e de ameaças visa preparar caminho para um ensaio nuclear por parte do regime de Kim Jong-un. Os serviços secretos da Coreia do Sul avisaram no final do verão que um ensaio nuclear deverá acontecer antes das eleições intercalares nos Estados Unidos, marcadas para a próxima terça-feira. 

A acontecer, será o sétimo ensaio nuclear por parte de Pyonyang, e o primeiro desde 2017. Em 2018, a Coreia do Norte anunciou uma moratória auto-imposta, esperando recolher daí benefícios, tendo em conta as negociações que então decorriam com Donald Trump. Essas conversações não deram qualquer resultado prático.

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