Covid: Coreia do Norte recusa ajuda internacional e aposta nos militares, em chás e analgésicos

17 mai, 05:54

Já há quase um milhão e meio de pessoas com sintomas de febre, que se teme seja provocada pela covid. Os militares foram mobilizados para distribuir medicamentos, mas não há vacinas nem antivirais, apenas analgésicos, antibióticos… e chás caseiros

A Coreia do Norte ordenou uma grande mobilização de militares para distribuir medicamentos e implementar as medidas de combate à vaga de covid que assola o país. Nas últimas 24 horas foram reportadas mais 269.510 pessoas com febre, sintoma que tem servido para monitorizar os casos suspeitos de covid, pois o país tem uma capacidade muito baixa de realização de testes. 

O total de pessoas com sintomas febre subiu para 1.483.060, enquanto o número de mortos aumentou para 56 na segunda-feira à noite, segundo a agência estatal de notícias, a KCNA. Porém, como a testagem é muito baixa, não há dados sobre quantas dessas pessoas morreram mesmo de covid, nem quantas estarão infetadas. Este surto deve-se à variante Ómicron, que não só é mais contagiosa como é, muitas vezes, assintomática - o que significa que muitas infeções ficarão por identificar, e muita gente assintomática poderá continuar a disseminar o vírus. 

"O Norte está aparentemente a contabilizar os casos com base apenas nos sintomas, sem testes para confirmação. Metade dos casos Ómicron mostram poucos sintomas. Isto significa que o Norte não está a conseguir impedir a transmissão do vírus [do] vírus pelas pessoas infetadas que têm poucos sintomas ou pelas que ainda não apresentaram sintomas", disse Sohn", disse Sohn Young-rae, um alto funcionário do Ministério da Saúde da Coreia do Sul, citado pela imprensa local. 

Segundo este responsável, os números reais dos casos no Norte serão muito mais elevados do que os oficialmente relatados. Mas, com a falta de dados generalizada, não se sabe sequer, dos testes realizados, quantas pessoas tiveram resultado positivo.

Para além da mobilização dos militares, foram destacados mais de 10 mil trabalhadores do setor da saúde, funcionários administrativos do Estado, professores e alunos, para ajudar a localizar potenciais pacientes e impor as quarentenas obrigatórias. A sua missão é fazer um "exame médico intensivo de todos os habitantes" em todo o país, para localizar e tratar… pessoas com febre.

Milhares foram mobilizados, mas não há medicamentos

"Uma força poderosa" do corpo médico do exército foi imediatamente destacada para melhorar o fornecimento de medicamentos na capital Pyongyang, o centro da epidemia, seguindo uma ordem do líder do país, Kim Jong Un, segundo informou a KCNA.

No entanto, a escassez de medicamentos é um problema com que se confronta há anos o regime norte-coreano, praticamente isolado do resto do mundo.

Kim e vários membros da cúpula do Partido dos Trabalhadores, o partido único do regime, visitaram farmácias no fim de semana, para verificar a oferta e a procura de medicamentos, depois do líder do país ter criticado a sua administração pela distribuição ineficaz de fármacos. O problema - não admitido pelo governo de Pyongyang - é que os medicamentos quase não existem.

Segundo a agência Reuters, para tratar a covid os meios de comunicação estatais encorajaram os doentes a usar analgésicos e redutores de febre como o ibuprofeno, bem como antibióticos - que não combatem vírus mas são por vezes prescritos para infeções bacterianas secundárias.

Para além destes fármacos, a comunicação social oficial recomenda tratamentos tradicionais caseiros: gargarejos de água salgada, ou o consumo três vezes ao dia de chá de madressilva ou de folhas de salgueiro. Chás e mezinhas à base de gengibre também são altamente populares.

"Os tratamentos tradicionais são os melhores!" disse uma mulher às emissoras estatais, enquanto o seu marido contava que os seus filhos gargarejam com água salgada todas as manhãs e noites.

A Reuters dá conta de que a Coreia do Norte tem uma longa história de desenvolvimento de tratamentos cientificamente não comprovados, incluindo uma injeção feita a partir de ginseng cultivado em elementos de terras raras que alegou poder curar tudo, desde a SIDA até à impotência.

Kim não responde às ofertas de ajuda da Coreia do Sul e da China 

A Coreia do Norte apenas na quinta-feira passada reconheceu os primeiros casos de covid-19, mas em poucos dias deu conta de mais de seiscentas mil pessoas em isolamento, e quase um milhão e meio de casos suspeitos. O país não desenvolveu qualquer programa de vacinação contra o novo coronavírus, apesar das ofertas de vacinas feitas no ano passado pela ONU, pela Rússia e pela China.

Agora, a braços com a sua primeira vaga da pandemia, já recebeu propostas de ajuda dos governos da China e da Coreia do Sul, mas ainda não terá respondido a qualquer das ofertas. Responsáveis sul-coreanos tentaram comunicar com o governo de Kim Jong-un, para enviar material médico, incluindo vacinas, máscaras e kits de teste, bem como cooperação técnica, mas o Norte não respondeu às mensagens de Seul.

Pelo segundo dia consecutivo, esta terça-feira o ministério sul-coreano da Unificação tentou contactar o Norte com a oferta de ajuda, através de linhas de comunicação transfronteiriças que existem há décadas para momentos de emergência. "Mas o Norte não respondeu se aceitaria ou não esta mensagem" pelo segundo dia consecutivo, disse um porta-voz do ministério.

A Organização Mundial de Saúde disse ter enviado alguns kits de saúde e outros materiais para a Coreia do Norte, mas não disse que medicamentos foram incluídos nessa remessa. 

Especialistas internacionais temem que a vaga de covid se torne incontrolável, num país onde a população é subnutrida e o sistema de saúde é muito débil: faltam infraestruturas, pessoal médico, equipamento e medicamentos, mas também falta fornecimento de energia regular, o que condiciona o funcionamento das unidades de saúde existentes.

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