“Cale a boca”: a resposta da Coreia do Norte às ofertas de paz do presidente sul-coreano

19 ago, 05:14

Irmã do líder norte-coreano destratou propostas de apoio feitas pelo líder da Coreia do Sul, considerando-as “o cúmulo do absurdo”. Kim Yo-jong diz que os sul-coreanos são "vilões" e o seu presidente é "infantil"

E, ao quarto dia, insultou. Quatro dias depois de o presidente sul-coreano ter apresentado detalhes de um plano de apoio financeiro, económico e social ao Norte, em troca de Pyongyang desistir do seu programa de armas nucleares, a resposta norte-coreana chegou, pela voz de Kim Yo-jong, a poderosa irmã do líder do país, Kim Jong-un.

A resposta foi um rotundo “não”, não seria aquilo que Seul esperaria ouvir, mas era a resposta mais previsível. Mais surpreendente foi o tom em que esse “não” foi enviado ao Sul. Kim Yo-jong esmerou-se a destratar o presidente sul-coreano, chegando a sugerir-lhe que “cale a boca”, em vez de fazer propostas como a que fez na terça-feira. E foi mais longe, considerando que os planos apresentados pelo presidente Yoon Suk-yeol são “o cúmulo do absurdo”, que mostra que o novo chefe de Estado sul-coreano é alguém com um pensamento “simples” e “ainda infantil”.

Pelo meio dos insultos e da linguagem pouco diplomática (referiu-se aos dirigentes sul-coreanos como “vilões”), ficou uma garantia solene, deixada pela irmã do supremo líder da Coreia do Norte: “Não nos sentaremos cara a cara com ele”, prometeu Kim, sobre a proposta de Yoon para serem retomadas as conversações entre os dois países ao mais alto nível.

Yoon Suk-yeol detalhou na terça-feira a sua “proposta audaciosa”, que consiste num vasto pacote de ajuda à Coreia do Norte, em troca da desnuclearização do país. O apoio do sul passaria por investimento em infraestruturas (de energia a vias de comunicação e transportes), injeção de capital em várias áreas - da agricultura à saúde -, mas também envio de alimentos e medicamentos, sendo certo que tanto uns como outros escasseiam no Norte.

Esta ideia já havia sido esboçada em maio, no discurso de tomada de posse de Yoon, mas agora foi apresentada com mais densidade. No dia seguinte, assinalando os seus primeiros cem dias como presidente, Yoon voltou a acenar com esse acordo e propôs que as duas Coreias voltassem ao diálogo ao mais alto nível, disponibilizando-se para encontrar-se com o seu homólogo, desde que isso produzisse resultados concretos. Yoon disse mesmo que não colocava como condição para o diálogo qualquer espécie de mudança de regime no Norte.

Ideias agora destratadas por Kim Yo-jong, que disse não haver nada de novo neste plano - não será mais do que uma cópia do que foi proposto há mais de uma década por outro presidente conservador, Lee Myung-bak. Também esse projeto fazia depender a ajuda do Sul ao Norte do fim do programa nuclear de Pyongyang e da sua abertura ao mundo. O plano redundou em fracasso. 

O novo projeto de Yoon Suk-yeol é "o cúmulo do absurdo”, disse Kim, tal como seria , “impraticável criar campos de amora no mar azul". "Embora ele possa bater-nos à porta com outro grande plano no futuro, conforme o seu 'plano ousado' não funcione, deixamos claro que não nos sentaremos cara a cara com ele", disse a irmão do ditador norte-coreano. 

"Para pensar que o plano de troca de 'cooperação económica' pela nossa honra, as bombas nucleares, é o grande sonho, esperança e plano de Yoon, chegamos à conclusão de que ele é realmente simples e ainda infantil", acusou Kim, assegurando que "ninguém troca o seu destino por bolo de milho".

"Expressões rudes e indignas"

"Teria sido melhor para a sua imagem que calasse a boca", disse Kim Yo-jong numa declaração divulgada pela agência noticiosa estatal KCNA. Em jeito de argumento final, Kim concluiu: “Não gostamos [de Yoon]”, que foi eleito prometendo uma atitude mais dura em relação ao Norte, mas se tem desmultiplicado em ofertas de paz, ao mesmo tempo que reforça a cooperação militar com os EUA e prepara a compra de novos sistemas de mísseis defensivos norte-americanos.

O ministro sul-coreano da Unificação, Kwon Young-se, já lamentou as declarações de Kim Yo-jong. "É muito lamentável que [Kim] tenha distorcido a iniciativa audaciosa [do presidente sul-coreano] e a tenha criticado com expressões rudes e indignas", disse o governante esta sexta-feira, durante uma sessão da Assembleia Nacional da Coreia do Sul.

Para além do poder que tem por ser irmão do supremo líder norte-coreano, num país que sempre foi dominado pela família Kim, Yo-jong é também a responsável pelos assuntos inter-coreanos e é vice-diretora do Comité Central do Partido dos Trabalhadores da Coreia. 

Na semana passada, num discurso em que declarou a vitória do seu país sobre a Covid-19, Kim prometeu medidas de retaliação "mortíferas" contra o Sul, que teria enviado o vírus para o Norte através de balões com panfletos. Na sua intervenção desta sexta-feira, Kim insistiu nessa acusação, dizendo que o Sul continua a enviar "resíduos sujos" para o Norte.

Ásia

Mais Ásia

Patrocinados