57 quilómetros: nunca um míssil norte-coreano tinha caído tão perto de uma cidade da Coreia do Sul

2 nov, 04:17
Televisão sul-coreana noticia lançamento de mísseis pela Coreia do Norte

Coreia do Norte lançou três mísseis em protesto contra exercícios aéreos conjuntos dos EUA com a Coreia do Sul. Um caiu para lá da linha de separa as águas do Norte e do Sul. Ameaças de Pyongyang indiciam que ensaio nuclear pode estar para breve

A Coreia do Norte lançou esta quarta-feira três mísseis balísticos de curto alcance, em mais uma ronda da já longa sucessão de testes de mísseis da parte de Pyongyang. Mesmo tendo em conta que este ano o Norte já lançou cerca de cinco dezenas de mísseis, este não foi apenas mais um episódio. Pela primeira vez, um dos mísseis norte-coreanos caiu a sul da linha de demarcação marítima que separa as águas do Sul e do Norte. Foi também a primeira vez que um míssil do Norte caiu perto de uma cidade do Sul: a apenas 57 quilómetros da cidade costeira de Sokcho, que fica perto da fronteira entre os dois países.

A Linha de Delimitação do Norte não corresponde à demarcação das águas territoriais da Coreia do Sul mas funciona desde a divisão da Península Coreana como a fronteira marítima “de facto” entre os dois países. Um dos mísseis lançados esta manhã (por volta das 9h, hora de Seul, meia-noite em Portugal) caiu 26 quilómetros a sul desta linha informal. 

Nunca um míssil norte-coreano havia caído tão perto das águas territoriais do Sul, e isso mesmo foi enfatizado numa declaração do Estado Maior-General das Forças Armadas sul-corenas citada pela agência de notícias Yonhap: "O lançamento de mísseis da Coreia do Norte, que marca a primeira vez desde a divisão da península que aterrou perto das nossas águas territoriais a sul da Linha do Limite Norte, é muito raro e intolerável". "Os nossos militares nunca poderão tolerar este tipo de ato de provocação da Coreia do Norte, e responderão com rigor e firmeza, com estreita cooperação entre a Coreia do Sul e os EUA", acrescentou o comando conjunto das Forças Armadas da Coreia do Sul no mesmo comunicado de imprensa.

O ponto de impacto deste míssil foi a apenas 57 quilómetros de Sokcho, uma cidade costeira no norte da Coreia do Sul. O projétil voava em direção à ilha de Ulleung, o que fez com que as autoridades sul-coreanas fizessem soar os alarmes de ataque aéreo na parte norte da ilha. O míssil balístico acabou por cair em águas internacionais 167 quilómetros a noroeste de Ulleung.

"Ouvimos a sirene por volta das 8h55 da manhã e todos nós no edifício descemos para o local de evacuação na cave", disse um funcionário público do condado de Ulleung à agência Reuters. "Subimos por volta das 9h15, depois de ouvirmos que o projétil caiu no alto mar".

"Para a Coreia do Norte, testar mísseis na direção Sul ou Sudeste para o Mar Oriental [Mar do Japão] e para o território sul-coreano é algo altamente invulgar e particularmente provocador", escreveu Joseph Dempsey, investigador de defesa do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, num comentário no Twitter.

Washington e Seul vão “pagar o preço mais horrível da história”

Os lançamentos aconteceram em resposta a exercícios aéreos conjuntos dos EUA e da Coreia do Sul, que começaram na segunda-feira e se prolongam até sexta-feira. Os exercícios, de larga escala, envolvem 240 aviões de guerra de ambos os países, incluindo caças furtivos avançados F-35, que deverão fazer 1.600 voos. As manobras, batizadas como Tempestade Vigilante, preveem o exercício de ataques aéreos conjuntos 24 horas por dia.

Na terça-feira ao fim do dia, Pak Jong Chon, secretário do Comité Central do Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte e um colaborador muito próximo do líder norte-coreano Kim Jong-un, prometeu retaliar contra estes exercícios, que Pyongyang interpreta como a preparação de uma invasão ao seu território. 

O porta-voz norte-coreano exigiu que Washington e Seul "parem com os seus frenéticos 'jogos militares' e comentários provocatórios". "Se os EUA e a Coreia do Sul tentarem utilizar as forças armadas contra a RPDC [iniciais de República Popular Democrática da Coreia, nome oficial da Coreia do Norte] sem qualquer receio, os meios especiais das Forças Armadas da RPDC realizarão a sua missão estratégica sem hesitação, e os EUA e a Coreia do Sul terão de enfrentar um caso terrível e pagar o preço mais horrível da história", ameaçou o mesmo responsável do partido comunista da Coreia do Norte.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Coreia do Norte também exigiu na segunda-feira o fim dos exercícios, dizendo que o país poderá retaliar com "medidas mais poderosas".

As ameaças do Norte são vistas por Washington e Seul como uma escalada para justificar o regresso de Pyongyang aos ensaios nucleares, o que está a ser preparado há já vários meses, conforme têm avisado os serviços de informações norte-americanos e sul-coreanos. 

O uso da expressão “missão estratégica” denuncia a probabilidade do regresso dos ensaios nucleares, pois o Norte usa frequentemente a palavra "estratégico" para se referir ao seu programa de armas atómicas.

A agência de espionagem da Coreia do Sul disse no mês passado que Kim Jong-un poderia ordenar um novo teste nuclear (que será o sétimo na história do país) entre o congresso do Partido Comunista Chinês e as eleições de 8 de novembro para o Congresso dos EUA. Ou seja, entre o momento da consagração de Xi Jinping, um dos principais aliados de Kim, e um teste eleitoral decisivo para Joe Biden. O interesse de Pyongyang será fazer uma demonstração de força que embarace a Casa Branca antes de os norte-americanos serem chamados às urnas.

O presidente sul-coreano Yoon Suk-yeol disse na semana passada que o Norte já concluiu os preparativos para o teste, uma opinião corroborada pelos EUA e pelo Japão. Será o primeiro teste nuclear da Coreia do Norte desde 2017. Nessa altura, Donald Trump ameaçou atacar o regime norte-coreano com “fogo e fúria”, mas acabou por fazer uma cimeira com Kim Jong-un, que suspendeu os ensaios nucleares como sinal de boa vontade.

Questionado sobre o calendário de um novo teste nuclear norte-coreano, porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Ned Price, respondeu que "é algo com que nós, os nossos aliados japoneses, e os nossos aliados sul-coreanos estamos preocupados há já algum tempo".

"A nossa mensagem tem sido muito simples: haveria custos sérios, e consequências sérias, se a RPDC tomasse esta medida perigosa e desestabilizadora em contravenção não só das resoluções do Conselho de Segurança da ONU, mas do que está a ouvir muito claramente de países de todo o mundo", acrescentou Price.

Sobre as alegações norte-coreanas relativamente aos exercícios aéreos com a Coreia do Norte, Price disse, esta terça-feira, que Pyonyang "sabe muito bem que os exercícios militares que conduzimos são de natureza puramente defensiva, e nada mais fazem do que apoiar a segurança dos nossos aliados na região".

Mísseis com trajetória irregular

Entretanto, o ministro da Defesa japonês, Yasukazu Hamada, revelou que os projéteis lançados esta quarta-feira pela Coreia do Norte parecem ser mísseis concebidos para escapar às defesas anti-míssil, pois voaram em trajetórias irregulares antes de caírem no Mar do Japão, fora da zona económica exclusiva do Japão.

"A Coreia do Norte lançou recentemente mísseis balísticos em rápida sucessão, e a sua série de provocação após provocação e a escalada unilateral das suas ações ameaçam a paz e a segurança da nossa região e da comunidade internacional, e são absolutamente inaceitáveis", disse Hamada, acrescentando que Tóquio protestou contra estes ensaios através da embaixada da Coreia do Norte em Pequim.

Ásia

Mais Ásia

Patrocinados