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Assistente Hospitalar de Cardiologia, ULSSM - Hospital de Santa Maria

Insuficiência cardíaca: porque é urgente proteger estes doentes do VSR

31 mar, 11:22

Viver com insuficiência cardíaca é, todos os dias, enfrentar um conjunto exigente de desafios. Começa pela compreensão da própria doença e continua na gestão diária dos sintomas, que podem ir da falta de ar (dispneia) que limita, ao cansaço que persiste, ou o edema que não deixa esquecer que o coração não está a funcionar da forma como deveria.

O número de pessoas que enfrentam esta doença é já grande. Em Portugal, um estudo recente revelou que 1 em cada 6 portugueses com mais de 50 anos tem insuficiência cardíaca, a maioria deles desconhecendo o diagnóstico. (1) E as projeções dão conta que este número vai aumentar ainda mais, associado ao envelhecimento populacional, ele próprio um dos principais fatores de risco da doença, e ainda aos avanços na gestão de doenças agudas e crónicas, que permitem que mais pessoas vivam mais tempo. Esta realidade coloca desafios crescentes, como uma pressão sobre os sistemas de saúde, e exige-lhes uma aposta reforçada na prevenção de fatores precipitantes.

Neste contexto, uma causa aguda de descompensação que tem captado a atenção da comunidade científica é a infeção pelo vírus sincicial respiratório (VSR). Ter uma doença que impacta o coração, como a insuficiência cardíaca, é hoje reconhecido como um fator de risco para formas graves desta infeção em adultos. Embora durante muito tempo o foco tenha estado noutras infeções respiratórias, como a gripe ou a Covid-19, a robustez da evidência atual sobre o VSR impõe uma mudança de paradigma.

Um desses estudos, publicado recentemente, revela uma realidade preocupante, ao mostrar que a infeção por VSR está associada a um risco aumentado de eventos cardiovasculares, risco esse que se mantém elevado até seis meses após, provavelmente mediado por respostas inflamatórias sistémicas e disfunção endotelial. (2) Uma janela de vulnerabilidade longa, que nos obriga a pensar e a agir com antecedência.

Um outro trabalho mostra que a insuficiência cardíaca é o evento cardiovascular mais reportado após uma infeção pelo VSR. Deixa assim claro que a infeção causada por este agente apresenta riscos significativos que vão além das doenças respiratórias, com um impacto direto na morbilidade e mortalidade. (3)

Mas no meio de tudo isto há boas notícias: existe forma de prevenção. A introdução de estratégias de imunização ativa (vacinação) representa uma oportunidade de proteger quem já carrega o peso de uma doença cardíaca.

É encorajador constatar que o plano da Comissão Europeia para a Saúde Cardiovascular — o Safe Hearts Plan — destacou a vacinação como um dos pilares da prevenção primária e secundária, tendo proposto recomendações relativas à vacinação contra infeções respiratórias, entre as quais a causada pelo VSR. Esta diretriz valida que a vacinação contra agentes infeciosos é indissociável da prevenção da doença cardiovascular.

Em suma, uma pessoa com insuficiência cardíaca vacinada é menos uma pessoa com risco das formas mais graves de VSR, libertando camas de hospital e recursos de saúde, garantindo a sustentabilidade do nosso Sistema Nacional de Saúde, numa altura em que os seus recursos são cada vez mais essenciais.

Referências:

  1. Baptista R, Silva Cardoso J, Canhão H, et al. Portuguese Heart Failure Prevalence Observational Study (PORTHOS) rationale and design - A population-based study. Rev Port Cardiol. 2023;42(12):985-995. doi:10.1016/j.repc.2023.10.004
  2. Sudnik P, Walsh EE, Branche AR, Islam MR, Falsey AR. Comprehensive Analysis of Cardiovascular Events and Risk Factors in Patients Hospitalized With Respiratory Syncytial Virus. Clin Infect Dis. 2026;82(2):e396-e403. doi:10.1093/cid/ciaf310

Montiel J, Williams E, Robles-Rodríguez WG, et al. The risk of cardiac disease events after respiratory syncytial virus disease: a systematic literature review and meta-analysis. Eur Respir Rev. 2026;35(179):250160. Published 2026 Jan 28. doi:10.1183/16000617.0160-2025

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