Novo estudo foi desenvolvido no Reino Unido. Este teste simples e rápido permite antecipar em cinco anos o diagnóstico
Basta um simples teste, daqueles em que se esfrega uma zaragatoa na parte de dentro da boca, para conseguir identificar crianças com uma doença do coração que pode levar à morte, revela um novo estudo.
Em causa está a miocardiopatia arritmogénica (MA), que costuma ser uma doença transmitida geneticamente e é responsável por mais de 10% das mortes súbitas por problemas do coração em crianças.
Esta doença afeta o ventrículo direito, levando à substituição do tecido do músculo por gordura e fibrose. É algo que leva a arritmias ventriculares graves, aumentando o risco de morte súbita.
Trata-se de uma condição causada por anomalias nas proteínas entre as células cardíacas, levando a problemas na estrutura e na atividade elétrica do coração. Esta doença costuma desenvolver-se e atacar sem aviso prévio.
Contudo, há agora investigação a mostrar que essas anomalias nas proteínas também podem ser observadas no revestimento das nossas bochechas, ajudando a revelar o que está a acontecer no coração. Os investigadores desenvolveram um teste com zaragatoa, que não leva mais do que dois minutos, para detetar a miocardiopatia arritmogénica em crianças até cinco anos antes daquele que seria o momento do diagnóstico.
Os detalhes foram revelados no congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia, em Madrid, que é o maior evento do género dedicado ao coração.
Especialistas do Great Ormond Street Hospital e da City St George’s, University of London testaram este exame junto de 51 crianças, entre os três meses e os 18 anos, com risco genético conhecido de AM.
Ao longo de sete anos, foram esfregadas zaragatoas no interior da boca a cada três a seis meses. Deste grupo, houve 10 pessoas que acabaram por desenvolver miocardiopatia arritmogénica. Desses, oito apresentaram anomalias que foram detetadas pelo teste da zaragatoa antes de outros exames.
Os investigadores também estudaram outro grupo de 21 crianças em que não era conhecido o risco de MA. Destas, cinco viram o teste da zaragatoa identificar anomalias.
O diagnóstico de miocardiopatia arritmogénica acabou por ser confirmado por outros testes e exames, daí que os investigadores sugiram que a zaragatoa seria apenas um passo adicional, ajudando na deteção precoce.
“Existe mesmo a necessidade de um teste rápido e fácil, para sinalizar suspeitas de AM, que possam depois ser confirmadas por outros testes hospitalares”, argumenta Joanna Jager, da City St George’s, University of London.
No Reino Unido, onde esta pesquisa surgiu, estima-se que existam 10 mil pessoas com AM. Os sintomas podem incluir palpitações cardíacas, desmaios, falta de ar, ritmos cardíacos anormais e inchaço no estômago, pernas ou tornozelos.
Os investigadores estão agora a desenvolver kits com zaragotas que possam ser utilizados em casa, para que as amostras sejam posteriormente enviadas para análise.
“O nosso teste fornece uma janela para as mudanças microscópicas que estão a ter lugar no coração, não tem qualquer risco e não é invasivo”, argumenta Angeliki Asimaki, professora de morfologia cardíaca e morte súbita na escola de ciências médicas da City St George’s, University of London.