De COP em COP: 193 países comprometeram-se com novas metas climáticas - e apenas 24 cumpriram

7 nov, 14:20
Cimeira do Clima, COP27

Quase 200 países concordaram na Cimeira do Clima do ano passado em melhorar as suas promessas de redução de emissões a tempo da COP27, mas apenas duas dúzias o fizeram até agora - e, mesmo assim, a maior parte não é suficiente

Passou um ano desde que os governos do mundo se comprometeram em apresentar novas (e mais ambiciosas) metas na Cimeira do Clima da ONU em Glasgow. Reduzir ainda mais as emissões, reduzir os combustíveis fósseis e acabar com a desflorestação foram algumas das promessas feitas na COP26. 

Só que, desde então, o mundo viu a invasão russa da Ucrânia, uma crise global a nível energético e instabilidade política em alguns países. E, numa altura em que os governos se reúnem novamente no Egito na COP27, para refletir sobre o progresso, será que realmente todos cumpriram as suas promessas climáticas?

Ora, até ao momento, apenas 24 dos 193 países – e quase nenhum dos principais emissores do mundo – atualizaram as suas metas nacionais para combater as alterações climáticas (NDC), apesar do acordo na COP26 para fazê-lo:

Metas climáticas (CAT Climate Target Update Tracker)

Facto é que os governos sabiam que, quando Acordo de Paris foi adotado, em 2015, o nível de redução de emissões proposto nas suas metas nacionais (NDCs) seria insuficiente para limitar ou atingir os 1,5˚C e, portanto, concordaram em atualizar essas metas até 2020. Na COP26 (em novembro de 2021), ficou claro que as metas atualizadas ainda ficam aquém e apontam para um aquecimento de 2,4˚C, quase um grau acima da temperatura limite. Os governos decidiram então dar mais um ano e concordaram em "revisitar e fortalecer ainda mais" as suas metas em 2022.

"O facto de apenas 24 planos climáticos novos ou atualizados terem sido apresentados desde a COP 26 é decepcionante. As decisões e ações dos governos devem refletir o nível de urgência, a gravidade das ameaças que enfrentamos e a brevidade do tempo que resta para evitar as consequências devastadoras das mudanças climáticas descontroladas", afirmou o Secretário Executivo da ONU para as Alterações Climáticas, Simon Stiell. 

Mesmo dos 24 que apresentaram novas metas este ano, nem todos aumentaram as ambições. Se países como a Noruega, Emirados Árabes Unidos, Tailândia e a Austrália  - que prometeu um corte de 43% nas emissões até 2030 - têm novos NDC mais ambiciosos, já o Brasil, por exemplo, apresentou um NDC que não contribui para reduzir as emissões, indica à CNN Portugal Carolina Silva, da associação ZERO.

"As metas nacionais para combater as alterações climáticas não são suficientes", alerta Carolina Silva.

A par do Brasil estão países como Egito, Reino Unido, Índia e Indonésia, bem como México, Guatemala, Haiti, Bolívia, Costa do Marfim, Gabão, República Centro Africana, Uganda, Sudão e Sérvia. Os restantes 168 não apresentaram nenhuma atualização. Entre eles estão alguns dos maiores poluidores do mundo, como os Estados Unidos, China, Rússia, Alemanha e Japão.

"Os países podem atualizar os NDC, mas isso nem sempre significa uma melhoria", diz a porta-voz da associação ambiental, deixando claro que "o objetivo é aumentar sempre o nível de ambição - e não estamos nem lá perto". Aliás, Carolina Silva defende que "esta COP deve servir para relembrar os países para atualizar as metas e que não têm de esperar pela COP para o fazer".

Anfitrião da COP27 acusa países de fazer promessas públicas "vazias"

A Conferência do Clima arrancou há pouco mais de um dia e já peca por falta de avanços. E há governos que estão a ser acusados pelos anfitriões egípcios de assumir compromissos em público, mas negá-los posteriormente na privacidade das salas de negociação. 

Wael Aboulmagd, o diplomata egípcio encarregado de conduzir as negociações na COP27, afirmou: "São feitas declarações e promessas políticas à frente das câmeras, mas nas salas de negociação volta-se à abordagem contraditória. Essas [posições publicamente positivas] não terão valor até serem traduzidas para as salas de negociação, e esse não foi o caso até agora.”

Decisores políticos, académicos e organizações não-governamentais reúnem-se entre 6 e 18 de novembro em Sharm el-Sheikh, no Egito, na 27.ª cimeira da ONU sobre alterações climáticas (COP27), para tentar travar o aquecimento do planeta, limitando o aquecimento global a 2ºC (graus celsius), e se possível a 1,5ºC, acima dos valores médios da época pré-industrial.

Líderes como o Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, confirmaram a presença, e o Governo português está a ser representado pelo primeiro-ministro, António Costa.

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