COP27: presidência egípcia terá de avançar onde COP26 falhou. Ambientalistas temem efeitos das férias

Agência Lusa , DCT
5 nov, 08:55
COP27

A COP27, que marca o 30.º aniversário da adoção da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas mantém os mesmos objetivos de outras cimeiras desde 2015, quando foi assinado o Acordo de Paris, para limitar o aquecimento global a 2ºC, e se possível a 1,5ºC, acima dos valores médios da época pré-industrial

A conferência das Nações Unidas sobre alterações climáticas (COP27), que começa no domingo em Sharm el-Sheikh, no Egito, terá de avançar com processos deixados incompletos pela COP26 no Reino Unido em 2021, afirmaram especialistas britânicos. 

A presidência britânica da COP26, que decorreu em Glasgow, reivindicou no final “sucesso” em manter “vivo” o objetivo de limitar o aquecimento global a 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais, mas metas concretas não foram atingidas e a declaração final alargou até ao final deste ano o prazo para o fortalecimento dos planos de redução de emissões, as chamadas "contribuições determinadas nacionalmente" (NDC).

"O que aconteceu na COP26 foi ambicioso, mas não foi suficientemente longe”, disse a investigadora do Programa de Ambiente e Sociedade do Instituto Real de Relações Internacionais (Chatham House), Ruth Townsend, que lembrou que “a COP27 não estava agendada para ser um marco importante no processo de Paris" (referência ao acordo de Paris, alcançado em 2015, sobre redução de emissões de gases com efeito de estufa).

A especialista aponta para a discussão em Sharm-el-Sheikh de um programa de trabalho sobre mitigação para “aumentar urgentemente a ambição e implementação”, mas mantém algum ceticismo tendo em conta os compromissos feitos até agora.  

Até ao final de setembro, apenas 24 países reviram as respetivas NDC, o que é insuficiente para o objetivo de reduzir as emissões em 45% até 2030 e travar o aquecimento global.  

"Se quisermos manter vivo o objetivo de 1,5º, então é realmente necessário encontrar algo radical com que os países sejam capazes de se comprometer. Caso contrário, começa a duvidar-se da capacidade de cumprir”, acrescentou.

Daniel Willis, gestor de campanhas e política da organização não-governamental Justiça Global Agora [Global Justice Now], também hesita em recordar a COP26 como um triunfo. 

“Houve muitos anúncios na COP26 que foram bem planeados pelo Governo britânico e por vários dos países que subscreveram muitas iniciativas. Mas algumas delas desmoronaram-se rapidamente”, disse à Lusa. 

Um exemplo foi a promessa da presidência britânica de concretizar o compromisso de os países mais desenvolvidos contribuirem com 100.000 milhões de dólares por ano para ajudar os países em desenvolvimento na transição para energias renováveis e na adaptação aos impactos das alterações climáticas.

O compromisso, inicialmente, previsto para ser atingido em 2020, foi de novo falhado na COP26, tendo o presidente da conferência, Alok Sharma, admitido que só seria alcançado o mais tardar em 2023. 

"Uma esperança é que na COP27 os países possam anunciar que finalmente atingimos os 100.000 milhões de dólares por ano, mas temos quase a certeza de que não o fizeram. Tudo indica que o financiamento climático está estagnado em cerca de 90.000 milhões de dólares por ano”, afirmou Willis. 

Como consequência, acrescentou, países como o Paquistão ou Moçambique, onde se têm registado grandes inundações nos últimos anos, continuam sem compensação por perdas e danos devido às alterações climáticas. 

"A Presidência egípcia deixou muito claro que o financiamento de perdas e danos tem de estar no topo da agenda este ano e muitos ativistas e grupos no Sul Global estão a dizer que, se não houver uma espécie de acordo sobre o mecanismo financeiro para perdas e danos este ano, então isso significa que as negociações terão essencialmente fracassado”, vincou. 

Segundo Tom Evans, assessor político do centro de estudos E3G, “a COP26 viu governos fazerem muitas promessas, mas o cumprimento parou este ano”, pelo que a conferência no Egito poderá dar “um novo ímpeto” à questão do financiamento climático.

"A COP27 é uma das melhores oportunidades até agora para alcançar um acordo inovador sobre financiamento de perdas e danos”, afirmou à Lusa, culpando os países desenvolvidos por bloquearem mais avanços nesta matéria. 

Evans antecipa uma maior abertura da presidência egípcia da COP27 a que sejam discutidas e acordadas algumas das prioridades dos países menos desenvolvidos.  

"A perspetiva africana nas negociações, dando prioridade a questões de justiça climática, equidade e necessidade de financiamento para desbloquear transições energéticas justas, ajudará certamente a proporcionar uma pressão construtiva para desbloquear resultados importantes”, vincou.

Decisores políticos, especialistas, académicos e organizações não-governamentais reúnem-se entre 06 e 18 de novembro em Sharm el-Sheikh, no Egito na COP27, para tentar travar o aquecimento do planeta.

Líderes como o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, já confirmaram que vão estar presentes, com o Governo português a ser representado pelo primeiro-ministro António Costa.

A COP27, que marca o 30.º aniversário da adoção da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (UNFCCC, na sigla original) mantém os mesmos objetivos de outras cimeiras desde 2015, quando foi assinado o Acordo de Paris, para limitar o aquecimento global a 2ºC (graus celsius), e se possível a 1,5ºC, acima dos valores médios da época pré-industrial.

Ambientalistas pedem ambição e compromissos mas temem efeito da guerra

Ambição, compromissos, decisões e ação é o que organizações ambientalistas portuguesas esperam da cimeira do clima que começa no domingo no Egito, ainda que temam que a crise atual possa relegar o aquecimento global para segundo plano.

Representantes de cerca de 200 países estarão entre domingo e 18 de novembro em Sharm el-Sheikh, no Egito, para debater o aquecimento global, numa altura em que as alterações climáticas são já visíveis em todo o mundo.

A 27.ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP27), acontece quando há uma guerra na Europa, que levou a uma crise económica, energética, inflacionista e alimentar.

A propósito da COP27, a Lusa falou com cinco organizações ambientalistas portuguesas, com algumas a serem mais pessimistas, não esperando decisões substanciais para conter o aquecimento global, e outras a falar do que consideram que de importante devia ser decidido nas próximas semanas.

O grupo Climáximo afirma-se contra a COP27 e apela para o seu boicote, porque o Egito “não permitiu espaço para a sociedade civil”, pelo que esta conferência vai “ser pior do que as anteriores”.

“A COP27 é uma zona de crime e as vítimas do crime, como as 33 milhões de pessoas afetadas pelas cheias no Paquistão, vão estar a olhar de fora. A COP27 vai ser só políticos a receberem ordens das empresas petrolíferas”, diz Sinan Eden, ativista do movimento de jovens.

João Dias Coelho, presidente do Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente (GEOTA) é também pessimista ao dizer à Lusa que quanto à COP27 “as expectativas são baixíssimas”.

Porque, justifica, se vivem momentos críticos a nível mundial, com uma guerra na Europa e com crises em países determinantes nas alterações climáticas. João Dias Coelho, fala da Rússia, que “está fora” devido à guerra na Ucrânia, fala da China, “que também não trará nenhuma novidade”, fala de uma guerra que é também económica e de energia e que, na Europa, está a afastar os países dos objetivos de redução de gases com efeito de estufa (GEE).

“Estão de facto criadas condições para o falhanço da cimeira e, mais grave, estão criadas as condições para um substancial recuo na implementação de medidas de redução de emissões já assumidas”, admite Jorge Palmeirim, presidente da Liga para a Proteção da Natureza (LPN), acrescentando que “a guerra e sanções energéticas vão, pelo menos a curto prazo, resultar num retrocesso grave na luta contra as alterações climáticas”, e que “o atual crescimento do consumo de carvão é já prova disso”.

Jorge Palmeirim disse que gostaria de ver os governos na conferência de Sharm el-Sheikh “a enfrentarem de frente” o agravamento do problema das alterações climáticas, “assumindo compromissos de redução de emissões mais ambiciosos do que os assumidos no passado”, e que os países mais ricos reforçassem o apoio a medidas de adaptação e mitigação dos países pobres.

Marta Leandro, vice-presidente da associação ambientalista Quercus, também espera da COP27 mais solidariedade norte-sul, mais ambição nas contribuições de cada país no controlo dos GEE, e que sejam “dados passos mais consistentes” por parte da União Europeia.

A responsável não valoriza o peso da guerra nas decisões da conferência da ONU e releva antes a dependência dos combustíveis fósseis. “A Quercus defende que temos de nos livrar dos combustíveis fósseis, porque sem isso não conseguiremos ter preços estáveis nos setores da energia e da alimentação”, diz.

De Sharm el-Sheikh, acrescenta à Lusa, gostava de ver sair também um acordo equilibrado sobre compensação de perdas e danos, protegendo os países que menos contribuíram para as alterações climáticas, mas admite que não é fácil, quando a negociação é entre 200 países.

Francisco Ferreira, presidente da associação ambientalista Zero, tem o mesmo desejo. “Espera-se claramente que se finalize uma negociação quanto ao apoio a países em desenvolvimento na área de perdas e danos”.

A propósito de a COP27 se realizar no Egito, o responsável lembra que África é um continente que sofre com as alterações climáticas, dá exemplos (como Moçambique), fala de outros continentes, todos com consequências do aquecimento global, concluindo que “as perdas e danos são uma prioridade máxima”.

Face aos últimos dados oficiais de agravamento da emissão de GEE e de as contribuições para os diminuir não serem suficientes (as atuais contribuições levarão a um aumento da temperatura média de 2,8ºC - graus celsius -, segundo a ONU), Francisco Ferreira espera também que a COP27 faça uma reflexão sobre a trajetória da humanidade e sobre o Acordo de Paris, “já com orientações para os próximos anos”.

E sobre a guerra lembra que as reuniões da ONU exigem sempre consenso, que não é fácil quando há países relevantes isolados ou separados. “Quando há uma segmentação tão clara as negociações refletirão isso mesmo”, afirma.

“Temos um problema global que exige soluções globais. Temos um segundo problema que é o da prioridade das questões climáticas. Mesmo com a guerra não se pode perder a visão de que a crise verdadeiramente dramática a longo prazo não será a guerra mas serão as alterações climáticas”, alerta Francisco Ferreira.

Clima

Mais Clima

Patrocinados