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Comentador da CNN Portugal

O Continente Fantasma

8 dez 2025, 13:35

Washington precisava de uma Europa reconstruída para conter o expansionismo soviético. Precisava da NATO para ancorar o seu poder. Precisava de aliados dóceis para legitimar a sua presença global.”

Há filmes que começam com um plano tão amplo que quase esquecemos onde estamos. A política internacional funciona da mesma forma. Durante anos acreditámos que a Europa estava no centro do ecrã. Hoje percebemos que éramos apenas um detalhe ampliado pelo conforto da aliança atlântica. O documento estratégico da administração americana devolve o foco ao sítio onde sempre esteve. A prioridade é o Indo Pacífico. A Europa é um plano intermédio. Nada disto é novo. A novidade é percebemos que já não há mais efeitos especiais que sustentem a ilusão.

A Europa parece sempre condenada a acordar tarde perante verdades que estavam à vista desde o início. O novo documento estratégico da administração americana, hoje tratado como se fosse um choque de placas tectónicas, pertence mais ao género do déjà vu do que ao da ruptura histórica. A sensação de que estamos perante algo novo nasce apenas do hábito europeu de fingir que o mundo é um livro com páginas por virar, quando é na verdade um manuscrito reescrito tantas vezes que já ninguém distingue a primeira versão.

A estratégia agora revelada, apresentada como uma grande correção de rumo, limita se a consolidar uma linha que atravessa a política externa dos Estados Unidos desde o século XIX. Basta regressar à Doutrina Monroe para perceber que Washington sempre olhou para o mundo através do mesmo binóculo. A prioridade era proteger o seu hemisfério e evitar interferências externas. No fundo não se tratava de generosidade diplomática, mas de autopreservação. A América definia a ordem à sua volta para não ter de a negociar com ninguém. O resto do planeta podia ser importante, mas nunca foi central. A Europa incluída.

O que este documento faz é apenas devolver o pêndulo ao sítio onde esteve durante quase toda a história americana. A ideia de que os Estados Unidos se teriam tornado naturalmente europeístas depois da Segunda Guerra Mundial é uma leitura preguiçosa. O que aconteceu foi pragmatismo. Washington precisava de uma Europa reconstruída para conter o expansionismo soviético. Precisava da NATO para ancorar o seu poder. Precisava de aliados dóceis para legitimar a sua presença global. Não precisava de uma Europa unida. Muito menos de uma entidade política capaz de falar a uma só voz.

A União Europeia nasceu como uma espécie de fenómeno inesperado para os estrategas americanos. Um projeto que ultrapassava a lógica meramente comercial, que criava instituições próprias e que ousava imaginar autonomia estratégica. Nunca foi totalmente levada a sério por Washington. Era vista como uma construção demasiado lenta, demasiado jurídica, demasiado abstrata. E quando o euro surgiu, a inquietação aumentou. Não porque ameaçasse o dólar, que continuou folgado no topo do sistema financeiro internacional, mas porque representava uma arquitetura económica que escapava ao controlo americano. No minuto em que a Europa se organiza como bloco, deixa de ser conveniente para os Estados Unidos, para a China e para a Rússia. Um continente unido é um interlocutor poderoso. Um conjunto de Estados negociados bilateralmente é muito mais manipulável.

Este novo documento americano diz com clareza aquilo que já sabíamos. A Europa não é prioridade. Não o é desde o final da Guerra Fria. Não o foi durante a presidência de Obama, que tentou orientar para a Ásia. Não o foi durante a primeira administração de Trump, que passou quatro anos a avisar que a era do guarda chuva gratuito tinha acabado. Não o é agora na sua segunda administração, num mundo em que a competição entre grandes potências já não tem no continente europeu o seu centro de gravidade mas tem na Europa um denominador comum, a destruição da coesão europeia e do modelo económico e político do continente. A administração americana pode mudar de estilo de comunicação, mas não muda de prioridades. E a prioridade não somos nós.

É também neste contexto que se torna evidente uma outra dimensão do problema. Se a Rússia conduz guerra híbrida permanente contra a Europa, infiltrando desinformação, instrumentalizando partidos de extrema direita, lançando ataques cibernéticos e promovendo operações de influência, os Estados Unidos não são completamente alheios a fenómenos paralelos. Assistimos a formas subtis e crescentes de interferência política oriunda do espaço americano, desde o financiamento indireto de movimentos eurocéticos até à multiplicação de plataformas tecnológicas que amplificam narrativas anti europeias. Figuras como Elon Musk transformaram o debate público europeu num laboratório de desestabilização, reforçando mensagens de partidos como o AfD e alimentando a erosão da confiança nas instituições europeias. A Europa enfrenta hoje não apenas pressões externas de adversários estratégicos mas também interferências disruptivas de aliados formais que contribuem para fragmentar o espaço democrático europeu.

Nenhum líder europeu deveria fingir surpresa. A Conferência de Munique tem sido o palco anual das advertências sucessivas. O secretário de Estado de Obama disse em palco, sem metáforas, que a Europa precisava de cuidar da sua própria segurança. Um aviso que na altura foi ouvido com a mesma incredulidade plácida com que se ouvem profecias sobre meteoritos. Mais tarde, figuras como JD Vance repetiram o diagnóstico. Continuamos a viver num continente que delega a sua defesa e que se escandaliza quando lhe apresentam a fatura.

Nada disto é isolacionismo no sentido clássico do termo. Os Estados Unidos não se retiram do mundo. Reorientam se. Focam recursos. Estabelecem prioridades que favoreçam os seus interesses estratégicos. O lema America First pode ser incómodo para os europeus, mas não é uma anomalia histórica. É a regra. O que a Europa viu nos últimos dias não é um desvio mas a normalização de uma visão antiga. A América cuida da América. E quando coopera, coopera porque lhe convém.

A parte mais desconfortável deste debate é reconhecer que a Europa nunca se preparou para este momento. Criou uma moeda que não completou com uma união política. Criou um mercado comum que não traduziu em poder estratégico. Criou uma dependência militar dos Estados Unidos que tratou como se fosse eterna. E agora descobre o óbvio. Quem paga a segurança manda na agenda. Quem depende de terceiros entra na mesa de negociações como convidado, não como coproprietário.

O mundo está a deslocar o seu centro de gravidade para o Indo Pacífico. Os Estados Unidos querem concentrar recursos nessa zona porque é aí que se joga a competição decisiva com a China. A Europa é hoje mais um teatro secundário do que um palco principal. Isto não deveria chocar ninguém. Só choca porque durante décadas se alimentou a ficção de que éramos indispensáveis. Sobretudo porque confundimos importância histórica com relevância estratégica.

Os líderes europeus têm agora duas escolhas. Ou continuam a fingir que nada mudou e repetem os apelos piedosos à unidade transatlântica. Ou finalmente compreendem que a única forma de preservar a relevância europeia é torná la real. Isso exige investimento em defesa. Exige autonomia industrial. Exige uma política externa comum que não seja refém de vetos. Exige superar a preguiça estratégica que se tornou marca identitária de Bruxelas. Já para não falar de que precisamos de líderes.

Nenhum documento americano resolverá esta crise de maturidade. O que foi anunciado apenas confirma que o tempo do conforto acabou. O guarda chuva já não é automático. A proteção já não é gratuita. A Europa pode continuar a tratá la como um direito adquirido ou começar a agir como um actor adulto. Se escolher a primeira opção, não será pela vontade americana que ficará irrelevante. Será pela sua própria indolência.

O continente que inventou o conceito de soberania está hoje paralisado perante a necessidade de a exercer. A nova estratégia americana não nos abandona. Apenas nos lembra, com brutal franqueza, que nunca fomos a prioridade. O que fazemos com essa verdade vai determinar o futuro europeu. O resto é ruído.

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