Uma microfábrica pode produzir os painéis para uma casa típica em cerca de um dia — um processo que, de acordo com Claypool, levaria quatro semanas para uma equipa normal de carpintaria
Muitas partes do mundo estão a passar por uma crise habitacional, com a procura nas áreas urbanas a ultrapassar frequentemente a oferta, levando a um aumento vertiginoso dos preços.
Em países como o Reino Unido e os EUA, o envelhecimento da população de construtores, combinado com a necessidade de suprir a escassez de moradias, significa que há uma necessidade de mais trabalhadores para o setor da construção civil. O Conselho de Formação da Indústria da Construção Civil do Reino Unido apurou que o país vai precisar de mais 250.000 trabalhadores até 2028 para atingir as metas de construção, mas em 2023, foram mais as pessoas que deixaram o setor do que aquelas que entraram.
A empresa de tecnologia britânica Automated Architecture, ou AUAR (pronuncia-se «our»), acredita ter uma solução. Ela produz microfábricas portáteis que podem produzir a estrutura de madeira de uma casa — paredes, pisos e telhados. A cofundadora Mollie Claypool afirma que as microfábricas serão capazes de produzir os painéis de forma mais rápida, barata e precisa do que uma equipa de carpinteiros, libertando os carpinteiros para que se concentrem na construção do edifício.
Apesar do foco na automação, Claypool insiste que a sua empresa não está a tentar tirar o emprego a ninguém. “A automação não está a substituir empregos, a automação está a preencher a lacuna”, diz à CNN.
A AUAR cobra a uma construtora por metro quadrado para produzir os painéis de madeira de uma casa. Para começar, as construtoras enviam à AUAR as plantas do edifício, e o seu software, Master Builder, usa IA para calcular quantos painéis são necessários e exatamente quanta madeira é que o empreendedor precisa de comprar.
A microfábrica cabe num contentor de transporte que é enviado para o local da construção juntamente com um operador. Dentro da fábrica, um braço robótico mede, corta e prega a madeira em painéis de até 6,7 metros de comprimento, mantendo espaços para janelas e portas e fazendo furos para a instalação elétrica e hidráulica. De seguida, o empreiteiro encaixa os painéis manualmente.
Uma microfábrica pode produzir os painéis para uma casa típica em cerca de um dia — um processo que, de acordo com Claypool, levaria quatro semanas para uma equipa normal de carpintaria — e é capaz de produzir estruturas para edifícios de até sete andares.
Claypool lançou a empresa em 2019 juntamente com Gilles Retsin, depois de terem trabalhado juntos na The Bartlett School of Architecture, parte da University College London, onde se concentraram em automação e tecnologia na arquitetura.
Ela diz que o serviço deles é 30% mais barato do que o de uma equipa padrão de construção em madeira e até 15% mais barato do que comprar painéis de grandes fábricas e enviá-los para um local.
É também mais ecológico, adianta Claypool. “A madeira é um material natural, o que significa que tem curvas, torções, por vezes tem partes removidas, tem nós”, explica. A microfábrica responde às imperfeições da madeira e calcula a melhor forma de trabalhar com o material disponível, reduzindo o desperdício de madeira.
A responsável acrescenta que a precisão das microfábricas significa que os painéis se encaixam perfeitamente, reduzindo a perda de calor da casa na sua versão final, tornando-as mais eficientes em termos energéticos.
A AUAR tem atualmente três microfábricas em funcionamento nos EUA e na UE, com mais cinco previstas para serem entregues este ano.
Bater na madeira
David Philp, presidente do painel consultivo de inovação e digital do Chartered Institute of Building, que não está envolvido com a AUAR, diz à CNN que “estas inovações eram uma oportunidade há alguns anos, mas agora são uma necessidade”. “Já não são um luxo — são essenciais para qualquer modelo de negócio de construção”, adianta.
O governo do Reino Unido comprometeu-se a construir 1,5 milhões de novas casas até 2029. No ano fiscal de 2024 a 2025, houve 208.600 habitações adicionais líquidas na Inglaterra, de acordo com o governo — uma diminuição de 6% em comparação com o ano anterior.
Para dar resposta à procura, Claypool diz que o Reino Unido terá de abandonar as tradicionais casas de tijolos e passar a construir casas com estrutura de madeira.
A construção de uma casa com estrutura de madeira produz menos 20% de gases com efeito de estufa em comparação com uma de tijolo, de acordo com uma avaliação da Universidade de Bangor, no País de Gales. Elas também são mais rápidas de construir.
O governo do Reino Unido diz estar a planear “incorporar a madeira no setor da construção através de métodos modernos e inovadores de construção” e a plantar mais árvores para garantir o abastecimento de madeira. No entanto, o executivo constatou que os construtores e promotores imobiliários estão relutantes em usar madeira, pois consideram que não é tão durável quanto o tijolo e que é mais suscetível ao fogo.
Apenas 9% das casas construídas na Inglaterra em 2019 tinham estrutura de madeira, em comparação com 92% na Escócia, onde Philps afirma que existe uma tradição de usar madeira para construir casas.
Um dos grandes desafios para que novas tecnologias como a AUAR ganhem escala no Reino Unido será combater as perceções negativas, tanto dos consumidores como da indústria, ressalta Philp. “A tecnologia e os padrões existem — a verdadeira barreira é a cultura. Temos formas tradicionais de trabalhar profundamente enraizadas, por isso o desafio agora são as pessoas e a mudança, não as ferramentas e os processos.”
Há outras empresas a desenvolver abordagens semelhantes. A Facit Technologies, sediada em Londres, constrói microfábricas que produzem componentes de madeira para projetos de construção no local, enquanto a Cuby Technologies, sediada nos EUA, produz unidades modulares que fabricam diferentes elementos para uma casa; essas unidades são combinadas para formar configurações muito maiores.
Até ao momento, a AUAR arrecadou 7,7 milhões de libras (8.9 milhões de euros) está a expandir-se para os EUA, onde a falta de moradias e a preferência pelo uso de madeira tornam esse mercado muito promissor. Noventa e quatro por cento das casas unifamiliares construídas nos EUA em 2024 tinham estruturas de madeira, sendo que a escassez de habitação é estimada entre 1,5 e 5,5 milhões de casas. Um relatório da Goldman Sachs concluiu que esta escassez está a fazer subir os preços das casas e é “a raiz do problema da acessibilidade”.
Em 2024, a AUAR estabeleceu uma parceria com a Rival Holdings, uma empresa de investimentos sediada nos Estados Unidos com foco no setor de construção. Um representante da AUAR diz que a empresa está numa “fase de crescimento nos Estados Unidos e tem várias outras novas parcerias”, sem divulgar mais detalhes. A Rival Holdings não respondeu a um pedido de comentário.
A AUAR afirma ter 600.000 metros quadrados de painéis em produção, o que equivale a centenas de casas, e Claypool espera ter 1.000 microfábricas em funcionamento até 2030, produzindo 200.000 casas por ano.
Para ela, o problema da habitação não é apenas uma questão de logística, materiais e financiamento.
“Boas casas não são apenas um problema de construção, são um problema social”, refere. “Quando as casas são escassas e somos lentos a construí-las, tudo o resto sofre.”