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Hipertensão e ataques cardíacos associados a conservantes comuns nos alimentos

CNN , Sandee LaMotte
22 mai, 08:00
Vitamina C (pixura/iStockphoto/Getty Images via CNN Newsource)
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O ácido ascórbico, ou vitamina C, também foi especificamente associado a doenças cardiovasculares, segundo o estudo

Os conservantes comuns utilizados em muitos alimentos comprados em lojas para eliminar bactérias e bolores foram associados a um risco 29% maior de hipertensão arterial e a um risco 16% maior de ataques cardíacos e acidentes vasculares cerebrais, de acordo com um novo estudo realizado em França.

Mesmo os chamados conservantes antioxidantes "naturais" utilizados para impedir a descoloração, como o ácido cítrico e o ácido ascórbico (vulgarmente conhecido como vitamina C), levaram a um risco 22% maior de hipertensão arterial em pessoas que consumiam mais alimentos com esses ingredientes, concluiu a investigação.

Embora antioxidantes como o ácido cítrico e o ácido ascórbico sejam encontrados naturalmente em alimentos como as frutas, eles “não são exatamente naturais” quando usados como conservantes, diz a autora principal Mathilde Touvier. Touvier é a investigadora principal do estudo NutriNet-Santé utilizado para conduzir a investigação.

"O ácido ascórbico natural e o ácido ascórbico adicionado — que pode ser fabricado quimicamente — podem ter impactos diferentes na saúde", afirma Touvier, que é também diretora de investigação do Instituto Nacional de Saúde e Investigação Médica de França, em Paris.

"Assim, os resultados aqui observados para estes aditivos alimentares não se aplicam às substâncias naturais encontradas em frutas e vegetais", acrescenta.

Não apenas alimentos ultraprocessados

O estudo destaca a forma como diferentes aditivos presentes nos alimentos ultraprocessados podem contribuir para o risco cardiovascular e "ecoam o recente consenso da Sociedade Europeia de Cardiologia, que destaca os alimentos ultraprocessados como uma preocupação de saúde pública a nível mundial", afirma Tracy Parker, responsável pela área de nutrição da British Heart Foundation, em Londres, num comunicado. Parker não participou no estudo.

Os alimentos ultraprocessados têm sido associados a um risco aproximadamente 50% maior de morte relacionada com doenças cardiovasculares e podem aumentar o risco de obesidade em 55%, de distúrbios do sono em 41% e de desenvolvimento de diabetes tipo 2 em 40%. A obesidade, a diabetes e a falta de sono estão intimamente ligadas à má saúde cardíaca. “Este é um dos primeiros grandes estudos a analisar conservantes individuais, em vez de tratar os alimentos ultraprocessados como uma única categoria”, diz Parker. “Os alimentos ultraprocessados há muito que suscitam preocupações devido aos seus elevados níveis de açúcar, sal e gordura, mas estes fatores, por si só, nunca explicaram totalmente por que razão parecem mais prejudiciais do que o seu perfil nutricional sugere. Estas descobertas ajudam a preencher parte dessa lacuna.”

No entanto, uma investigação anterior realizada por Touvier e a sua equipa revelou que os alimentos ultraprocessados representam apenas 35% dos alimentos com conservantes consumidos pelas pessoas. Isso significa que "os conservantes estão em todo o lado", indica a autora principal, Anaïs Hasenböhler, doutoranda da equipa de investigação em Epidemiologia Nutricional da Université Sorbonne Paris Nord.

"Não há nenhum grupo alimentar ou alimento que deva ser eliminado da dieta para resolver o problema", sublinha Hasenböhler. "Estes resultados também corroboram as recomendações para que os consumidores optem por alimentos não processados ou minimamente processados."

“Opte por alimentos frescos, crus e não processados; ou, se estiver à procura do que é mais rápido de preparar e comer, escolha ‘opções congeladas que são conservadas através de baixas temperaturas, e não necessariamente através da adição de conservantes alimentares’”, acrescenta.

Mais conservantes "naturais" associados a riscos

O estudo, publicado no European Heart Journal, investigou o impacto de 58 conservantes na saúde cardiovascular de mais de 112 mil pessoas com mais de 15 anos. Todos participam no NutriNet-Santé, que analisa as dietas de voluntários em toda a França desde 2009.

Para participar no estudo, cada participante regista cada refeição e bebida, indicando a marca, durante três dias a cada seis meses. Os investigadores utilizam então uma base de dados de ingredientes de produtos para identificar conservantes comuns e comparar os níveis de consumo ao longo dos anos com dados médicos armazenados no sistema nacional de saúde francês.

Os investigadores realizaram uma análise aprofundada de 17 conservantes consumidos por pelo menos 10% dos participantes e descobriram que oito deles estavam associados a níveis mais elevados de pressão arterial ao longo da década seguinte. Três desses conservantes — o sorbato de potássio, o metabissulfito de potássio e o nitrito de sódio — são conservantes "não antioxidantes", o que significa que eliminam bactérias, bolores e leveduras que provocam a deterioração dos alimentos.

O sorbato de potássio é frequentemente utilizado em vinho, produtos de panificação, queijos e molhos. O metabissulfito de potássio, que liberta dióxido de enxofre quando dissolvido, encontra-se em vinho, sumos, sidra, cerveja e outras bebidas fermentadas. O nitrito de sódio é um sal químico comumente utilizado em carnes processadas, como bacon, fiambre e charcutaria.

Os nitratos e os compostos à base de enxofre encontram-se em alimentos como carnes vermelhas e processadas, já conhecidos por aumentarem o risco de doenças cardíacas. Por isso, essa conclusão não deve ser surpreendente, afirmam alguns especialistas.

Além disso, os conservantes são necessários se os consumidores quiserem continuar a comprar alimentos que possam armazenar e consumir mais tarde, de acordo com Gunter Kuhnle, professor de ciências alimentares e nutricionais na Universidade de Reading, em Inglaterra. Ele não esteve envolvido em nenhum dos estudos.

"Os conservantes desempenham um papel importante no sistema alimentar, não só na prevenção de doenças de origem alimentar, mas também na prevenção da deterioração dos alimentos, na redução do desperdício alimentar e no prolongamento do prazo de validade", defende Kuhnle num comunicado.

Os restantes conservantes associados à hipertensão arterial no estudo — ácido ascórbico, ascorbato de sódio, eritorbato de sódio, ácido cítrico e extratos de alecrim — são os chamados conservantes “antioxidantes” naturais, utilizados para reduzir a oxidação que torna os alimentos escuros e rançosos.

O ácido ascórbico, ou vitamina C, também foi especificamente associado a doenças cardiovasculares, segundo o estudo.

Conservantes semelhantes também associados ao cancro e à diabetes tipo 2

Os resultados corroboram as conclusões de dois outros estudos realizados por Touvier e a sua equipa, que encontraram ligações semelhantes entre conservantes e um risco muito mais elevado de cancro e diabetes tipo 2.

Seis conservantes — nitrito de sódio, nitrato de potássio, sorbatos, metabissulfito de potássio, acetatos e ácido acético — foram associados a um risco até 32% maior de cancro da próstata, cancro da mama e todos os tipos de cancro. Todos esses conservantes, com exceção de um, também aumentaram o risco de desenvolver diabetes tipo 2 em 49%.

Embora as conclusões da nova investigação sejam de natureza observacional e não possam provar uma relação de causa e efeito, o estudo conseguiu controlar adequadamente outros fatores que podem influenciar a saúde, tais como a idade, o índice de massa corporal (IMC), o tabagismo, a atividade física e a alimentação em geral, afirmou Rachel Richardson, gestora da unidade de apoio metodológico da Cochrane Collaboration, uma organização internacional sem fins lucrativos altamente respeitada pela sua abordagem científica à investigação. Ela não participou no estudo.

"Outros pontos fortes deste estudo incluem a forma como avaliaram a alimentação das pessoas e a sua abordagem abrangente para identificar a hipertensão e as doenças cardiovasculares", destaca Richardson. "Embora não possam provar a causalidade, há sinais nos resultados que justificam uma investigação mais aprofundada."

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