O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, declarou que a população de Gaza será deslocada para sul após a aprovação de uma ofensiva militar expandida na faixa de Gaza, descrita como um plano para "conquistar" o território.
A votação da decisão aconteceu poucas horas depois de o exército anunciar a mobilização de dezenas de milhares de reservas, aumentando a sua capacidade de operar no território palestiniano ocupado.
"Uma coisa ficará clara: não haverá entradas e saídas", disse Netanyahu num vídeo publicado esta segunda-feira na rede social X. "Chamaremos reservas para vir, ocupar território - não vamos entrar e sair da área para realizar incursões depois. Esse não é o plano. A intenção é o oposto."
"Haverá um movimento da população para sua própria proteção", acrescentou o primeiro-ministro sobre a "operação intensificada".
Um alto oficial de Segurança israelita afirmou que a operação em Gaza, apelidada de "Carroças de Gideão", foi aprovada de forma unânime pelo gabinete de Segurança com o objetivo de subjugar o Hamas e garantir a libertação de todos os reféns.
O plano seria implementado após a visita do presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, ao Médio Oriente na próxima semana, para "oferecer uma janela de oportunidade" para um acordo sobre os reféns, segundo o oficial.
"Se nenhum acordo sobre os reféns for alcançado, a Operação Carroças de Gideão começará com força total e não vai parar até que todos os seus objetivos sejam alcançados".
O plano, então, é deslocar toda a população de Gaza para o sul da faixa, após o bloqueio total de ajuda humanitária que poderá ser levantado, acrescentou o oficial, afirmando que o exército "permanecerá em todas as áreas que capturar".
"Em qualquer acordo temporário ou permanente, Israel não evacuará a zona de segurança ao redor de Gaza, que tem como objetivo proteger as comunidades israelitas e impedir o contrabando de armas para o Hamas", declarou.
"Estamos à beira de uma grande incursão em Gaza com base na recomendação do Estado-Maior", disse Netanyahu no vídeo, acrescentando que os oficiais militares lhe disseram que era hora de "iniciar os movimentos finais".
'Maior objetivo'
O "maior objetivo" da expansão da ofensiva em Gaza, segundo o principal porta-voz militar, Brigadeiro-General Effie Defrin, é a devolução dos reféns, e não a derrota do Hamas. Os seus comentários surgem uma semana depois de Netanyahu ter afirmado que o "objetivo supremo" da guerra é a derrota dos inimigos de Israel, não a devolução dos reféns.
"O principal objetivo da operação é a devolução dos reféns. Depois disso - a queda do regime do Hamas, a sua derrota e subjugação - mas antes de tudo, a devolução dos reféns", afirmou Defrin em resposta a uma pergunta sobre a sua mensagem para as famílias dos reféns.
O porta-voz militar enfrentou condenações rápidas do ministro da Segurança de Israel, Itamar Ben Gvir, que disse que Defrin estava "confuso, ao achar que o exército está acima da esfera política".
As famílias dos reféns condenaram rapidamente o anúncio da expansão da ofensiva, temendo que o governo israelita estivesse a priorizar a derrota do Hamas em vez de garantir um acordo para a devolução dos reféns - colocando-os em perigo com a expansão das operações militares.
Questionado sobre se os EUA aprovam o novo plano israelita, o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, Brian Hughes, disse à CNN: "O presidente deixou claro as consequências que o Hamas enfrentará se continuar a manter reféns, incluindo o americano Edan Alexander, e os corpos de quatro norte-americanos. O Hamas é o único responsável por este conflito e pela retomada das hostilidades."
Anexação de Gaza não descartada
Enquanto isso, o ministro das Finanças de Israel, Bezalel Smotrich, disse na segunda-feira que "finalmente vamos conquistar a Faixa de Gaza".
A anexação de Gaza é uma possibilidade, e uma vez que as operações militares vão expandir-se na região, Israel não recuará - mesmo se o Hamas concordar com um novo acordo sobre os reféns, afirmou o ministro numa conferência em Jerusalém, referindo-se à decisão do gabinete de Segurança.
"Assim que conquistarmos e ficarmos - podemos falar sobre soberania (sobre Gaza). Mas eu não exigi que isso fosse incluído nos objetivos da guerra", acrescentou. "Assim que a manobra comece não haverá retirada dos territórios que capturarmos, nem mesmo em troca de reféns."
Smotrich, que lida principalmente com as Finanças do país, embora seja membro do gabinete de Segurança, tem grande influência sobre Netanyahu, que depende de seu apoio para evitar o colapso do Governo.
Mais de 2.400 palestinianos foram mortos em Gaza desde meados de março, quando Israel iniciou uma onda de ataques, violando um cessar-fogo que estava em vigor há quase dois meses. Segundo o ministério da Saúde palestiniano, mais de 52 mil palestinianos morreram em Gaza desde o início da guerra.
A expansão dos combates será gradual para dar uma oportunidade a um novo cessar-fogo e a um acordo sobre os reféns antes da visita do presidente Donald Trump à região, prevista para meados de maio, de acordo com os oficiais. Trump irá visitar a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Catar na próxima semana, mas não tem qualquer visita planeada a Israel.
As Nações Unidas levantaram preocupações com o mais recente plano de expansão, dizendo que resultará em mais civis mortos.
"Posso dizer que o secretário-geral está alarmado com os relatórios sobre os planos de Israel para expandir as operações terrestres e prolongar a sua presença militar em Gaza", declarou o porta-voz adjunto do secretário-geral, Farhan Haq, na passada segunda-feira.
Novo mecanismo de ajuda
O bloqueio israelita de toda a ajuda humanitária que chega à faixa de Gaza atinge agora a nona semana.
Israel diz que cortou a entrada de ajuda humanitária para pressionar o Hamas a libertar reféns. Mas várias organizações internacionais dizem que a ação viola o direito internacional, acusando Israel de usar a fome como arma de guerra - um crime de guerra.
O gabinete também terá discutido a permissão da retoma das entregas de ajuda para Gaza sob um novo quadro que foi aprovado, mas ainda não implementado, segundo uma das fontes.
A emissora pública de Israel, Kan 11, noticiou que houve uma confrontação durante a reunião de domingo sobre a retoma das entregas de ajuda, com dois membros do gabinete de extrema-direita, o ministro de Segurança Nacional Itamar Ben Gvir e a ministra dos Assentamentos Orit Strook, a oporem-se a qualquer retomada da ajuda, e o chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel (IDF), o general de Exército Eyal Zamir, argumentando que Israel estava obrigado a facilitar essas entregas de acordo com a lei internacional.
De acordo com uma das fontes ouvida pela CNN, os relatos dos meios de comunicação israelita sobre os argumentos em relação à ajuda "não estão errados".
Oficiais dos EUA e de Israel estão a discutir um mecanismo para entregar ajuda a Gaza que contorne o Hamas, segundo uma fonte israelita familiarizada com o assunto e um oficial do departamento de Estado. Em declarações à CNN, o oficial disse que um anúncio poderá ser feito "nos próximos dias".
O mecanismo de entrega em questão visa permitir que a ajuda chegue à população palestina com garantias de que não será desviada pelo Hamas ou pela Jihad Islâmica.
Uma fundação privada gerenciaria o mecanismo de ajuda e a entrega dos suprimentos humanitários a Gaza.
De acordo com o oficial, os EUA esperam que as Nações Unidas e as organizações internacionais de ajuda trabalhem com a fundação para garantir que os suprimentos não cheguem ao Hamas.
Numa declaração feita na segunda-feira, o Hamas criticou o novo cenário, ao dizer: "Rejeitamos transformar a ajuda numa ferramenta de chantagem política e apoiamos a posição internacional que rejeita quaisquer acordos que não respeitem os princípios humanitários."
As agências de ajuda que operam no território palestiniano ocupado também criticaram o novo cenário, dizendo que o plano parecia "projetado para reforçar o controlo sobre itens essenciais à sobrevivência" e falharia em garantir que a ajuda chegasse aos mais vulneráveis.
"O secretário-geral da ONU e o coordenador de Ajuda de Emergência deixaram claro que não participaremos de qualquer esquema que não esteja em conformidade com os princípios humanitários globais de humanidade, imparcialidade, independência e neutralidade", declararam numa declaração conjunta.