Especialistas do Irão acreditam que Ali Khamenei já esperava morrer na primeira onda de ataques norte-americanos e israelitas. A prova disso é um plano previamente pensado que já previa instalar o caos na região
Ao quarto dia de ataques entre os EUA, Israel e o Irão, um informador do regime iraniano garantiu que o país “não teve outra escolha senão escalar” o conflito, mesmo que isso significasse deixar de respeitar “as regras do jogo”.
“Não tivemos outra escolha que não iniciar um grande incêndio para que todos pudessem ver. Quando as nossas linhas vermelhas foram ultrapassadas numa violação de todas as leis internacionais, já não podíamos respeitar as regras do jogo”, disse ao Financial Times.
E segundo Alireza Arafi, um dos membros do conselho interino de liderança, está mesmo tudo a correr “graciosamente de acordo com o que estava planeado”, afirmou numa mensagem de vídeo publicada esta segunda-feira.
Planeado, sim, uma vez que Ali Khamenei, o Líder Supremo iraniano, agora morto, começou a desenhar um plano “detalhado” preventivo para o país, juntamente com outros altos dirigentes do regime, depois da guerra dos 12 dias alavancada por Israel em junho do ano passado.
Alguns especialistas do Irão acreditam mesmo que o aiatola de 86 anos já esperava ser morto, tendo permanecido no seu complexo na capital apesar da ameaça iminente de um ataque, o que implicaria adotar medidas para garantir que o regime continuava a funcionar perfeitamente.
“O Irão, ao contrário dos Estados Unidos, preparou-se para uma guerra longa”, escreveu no X o principal responsável pela segurança do país, Ali Larijani.
Iran, unlike the United States, has prepared itself for a long war. pic.twitter.com/0nTGu9u2K4
— Ali Larijani | علی لاریجانی (@alilarijani_ir) March 2, 2026
A tática que está agora em curso assenta em pontos-chave que também representam aprendizagens face à guerra de junho. É o caso das alterações na organização das unidades militares iranianas, que hoje em dia são mais independentes do poder superior.
Durante o mês de junho de 2025, “o comando vinha de cima”, mas agora “as forças no terreno já sabem o que devem fazer, mantendo sempre total coordenação com o centro de comando”, adiantou o mesmo informador.
Khamenei pensou a descentralização da tomada de decisões militares de maneira a que as suas forças não paralisassem caso os altos comandantes fossem assassinados, depois de, em junho, vários comandantes de Teerão terem sido mortos pelos serviços de Israel, cuja infiltração era bastante profunda.
“As nossas unidades militares são agora, de facto, independentes e algo isoladas, e estão a agir com base em instruções gerais que lhes foram dadas antecipadamente”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, ao Al Jazeera no passado domingo.
Outra diferença está no alcance das ofensivas lançadas pelo Irão. Ao contrário do que aconteceu em 2025, ano em que a República Islâmica se limitou a ataques contra Israel e a uma base americana no Catar, agora acredita-se que Teerão tenha atacado os Emirados Árabes Unidos com a mesma - ou maior - força com que atacou Telavive.
Além disso, toda a retaliação torna qualquer local que acolha americanos “inseguro e ninguém vai querer ficar lá”, acrescentou o informador.
Escalada do conflito "vai continuar"
O objetivo era mesmo esse: semear o caos em toda a região do Médio Oriente, agravar a tensão regional e, no fim, desestabilizar os mercados globais.
Ao que tudo indica a última missão está a ser cumprida com sucesso, tendo em conta que o conflito já obrigou ao encerramento do Estreito de Ormuz, canal por onde passa cerca de um quinto da energia e do gás mundiais, resultando numa subida significativa dos preços do petróleo. O Catar também suspendeu o abastecimento de gás natural liquefeito. E recorde-se que este é um dos principais fornecedores a nível mundial.
Está instalada a escalada da guerra “e vai continuar”, garante, sublinhando que os outros países deviam ter antecipado uma resposta nestas proporções.
“O que é que esperavam? Se o chefe da República Islâmica é visado, acham que nada vai acontecer?”
Ainda assim, há quem considere a resposta do regime iraniano “imprudente”, correndo o risco de afastar os Estados do Golfo que investiram os seus esforços em persuadir Donald Trump a escolher a via diplomática.
Depois de algumas potências europeias admitirem a possibilidade de se envolver no conflito, Emile Hokayem, do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, teme que estes países se estejam a juntar “a algo que tem a sua dinâmica própria, sobre o qual não têm qualquer controlo”.