A Europa ainda não entrou na guerra com o Irão, mas também já não está totalmente fora dela. Entre bases militares expostas, porta-aviões enviados para a região e apoio logístico a operações dos Estados Unidos, o continente encontra-se numa zona cinzenta. E, segundo especialistas ouvidos pela CNN Portugal, o risco de escalada depende menos de decisões formais e mais de um incidente que mude o clima político
"Basta que exista um míssil que seja disparado contra o interesse europeu na região e dificilmente se vai parar a França de usar o seu porta-aviões [já enviado para o Mediterrâneo] no processo de retaliação", considera o tenente-general Rafael Martins em declarações à CNN Portugal. A escalada recente no Médio Oriente, com ataques a bases e infraestruturas energéticas na região onde operam forças europeias, expôs uma vulnerabilidade que vários governos preferiam evitar discutir: a possibilidade de a Europa ser empurrada para o conflito.
Já para Manuel Serrano "basta um ataque com vítimas europeias para gerar uma pressão política interna para retaliação". Para o analista de Política Internacional e Assuntos Europeus, esse é o cenário que pode mudar tudo, ao transformar o atual posicionamento europeu - oficialmente defensivo - num envolvimento militar mais ativo.
"Aqui o risco é passar para uma fase defensiva, de um envolvimento europeu defensivo para um envolvimento ativo à semelhança do que aconteceu no Iraque em 2003, que é passar de uma solidariedade para uma cobeligerância", argumenta.
Foi nesse ano que a Europa se juntou aos Estados Unidos para lançar uma guerra na base das armas de "destruição maciça" que George W. Bush alegou que Saddam Hussein tinha, numa acusação que nunca se veio a comprovar. E esta terça-feira Espanha desmarcou-se de qualquer intervenção no Irão ao dizer "não à guerra" por não querer repetir "erros do passado". A guerra no Iraque, recordou Pedro Sanchez, "levou a um mundo mais inseguro e a uma vida pior".
De acordo com Manuel Serrano, um dos fatores que aumenta a imprevisibilidade do momento atual é a falta de uma posição europeia clara e unificada: "Politicamente, a Europa está dividida e sem uma estratégia comum. Infelizmente não temos estratégia comum para reagir a isto."
Segundo o especialista, os governos europeus estão divididos entre a necessidade de manter a aliança com Washington, DC e o receio de legitimar uma escalada militar controversa. "O que grande parte dos governos tem tentado fazer é evitar questionar a legitimidade dos bombardeamentos americanos israelitas ao mesmo tempo que esvaziam o discurso europeu da ordem internacional baseada em regras."
Além disto, refere o tenente-general Rafael Martins, a Europa "não tem ainda" um poder militar "fortalecido" nem está "maturada em termos das suas linhas logísticas, da capacidade e de produção".
O maior risco, consideram ambos, é que a Europa acabe por entrar na guerra não por decisão própria, mas por arrasto dentro da lógica da aliança atlântica.
"Estrategicamente e simbolicamente, o risco é uma espécie de atlantização forçada do conflito, que sob um Trump bastante imprevisível, a Europa pode acabar por ser arrastada por uma guerra americana e israelita enquanto perdemos autonomia estratégica e credibilidade moral", afirma Manuel Serrano.
Essa dependência, argumenta, coloca o futuro da segurança europeia nas mãos de decisões tomadas fora do continente: "Continuamos a deixar o nosso futuro nas mãos da sorte ou nas mãos dos eleitores americanos. E esse não é o caminho a seguir."
E as consequências não se esperam boas. Entre os efeitos que prevê estão novas ondas migratórias, pressão energética, inflação e aumento do risco terrorista. Todas consequências que, lembra, já marcaram crises anteriores no Médio Oriente.
"Corremos o risco de vir a pagar mais uma crise, sobre a qual nós não temos capacidade por causa de um conflito que não tivemos responsabilidade", acrescenta o especialista.
A linha ténue entre apoio e participação
Apesar de não haver ainda forças europeias envolvidas diretamente em combate, vários países já tomaram medidas que os colocam mais próximos do teatro de operações. O tenente-general Rafael Martins lembra que um porta-aviões - como o Charles de Gaulle enviado por França - "tem uma natureza defensiva e ofensiva" e que "rapidamente também se vê envolvido no conflito".
"O que estamos a assistir agora é a uma operação militar de larguíssima escala, muitíssimo violenta. Corremos o risco porque a situação pode agravar-se de forma muitíssimo dramática por envolver não só a região do Médio Oriente, como a Europa", acrescenta.
Em relação a Portugal e às autorizações que foram dadas para bombardeiros B-2 abastecerem na Base das Lajes, na ilha Terceira, o especialista militar considera que a participação no atual contexto é sobretudo logística e que não implica, para já, qualquer envolvimento no teatro das operações.
"O que Portugal fez foi ceder uma infraestrutura para que as aeronaves de reabastecimento permitam que a logística passe sobre o Atlântico. O Reino Unido e a França estão muito mais próximos de uma ação de apoio a combate do que estará, com certeza Portugal", defende.
A hipótese do Artigo 5.º - e o cenário de guerra alargada
Sobre se um ataque direto a interesses europeus poderia levar à ativação do Artigo 5.º da NATO - que expressa que os países signatários concordam que um ataque armado contra um ou vários desses países será considerado um ataque a todos - , Manuel Serrano considera que o cenário não está, para já, em cima da mesa: "Nem isso, nem a Cláusula de Defesa Mútua da União Europeia parece que vão ser ativadas."
Ainda assim, alerta que existe uma tentativa política de ampliar o conflito para o quadro das alianças ocidentais.
"Há uma tentativa dos Estados Unidos de tentar trazer mais aliados para isto, tentar justificar internacionalmente isto e tentar vender a ideia de que isto é uma guerra contra um regime a quem não se aplica o direito internacional."
Já Rafael Martins considera que a ativação dessa cláusula significaria uma escalada muito mais grave. "Se tivermos que considerar o artigo 5º, estaremos perante um conflito quase à escala global."
E nesse caso, Portugal não teria margem para ficar de fora. "Portugal tem que cumprir assim como os outros países todos. Se a NATO está realmente viva teriam de cumprir com as suas obrigações."