Portugueses estão mais confiantes na economia. Mas há razões para isso? "O pior virá à frente"

27 fev 2023, 22:00
Inflação, preços, economia, mercearia, compras, mercado, fruta. Foto: Burak Akbulut/Anadolu Agency via Getty Images

São três meses seguidos a aumentar a confiança dos consumidores. Mas porquê? Especialistas referem que há fatores que ainda não entraram em jogo, mas que estão para chegar. Um deles é o desemprego

Está mais caro ir ao supermercado, o crédito à habitação subiu e deve subir ainda mais e os últimos meses foram marcados por uma série de casos polémicos no Governo. Mesmo assim, e numa conjunção de fatores que se esperaria infernal, os portugueses estão mais confiantes a nível financeiro. Pelo terceiro mês consecutivo o indicador de confiança dos consumidores e do clima económico aumentou, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), sendo que muitos dos parâmetros atingem níveis que não se viam há vários meses.

Neste momento os portugueses têm uma melhor perspetiva relativamente à situação económica que aí vem (a melhor perspetiva desde março), incluindo à situação económica dos seus agregados familiares, que também entendem ter sido melhor nos últimos 12 meses.

João Cerejeira admite à CNN Portugal que "não estava à espera" destes dados, sobretudo numa altura em que o custo de vida aumentou de forma generalizada. O professor de Economia da Universidade do Minho refere que estes dados são "surpreendentes", mas avisa que o futuro não deverá ser tão otimista.

"A inflação ainda não teve o impacto que pode vir a ter, o pior ainda virá à frente, porque a inflação, mesmo que baixe, não vai fazer diminuir os preços", explica, apontando que as subidas de juros que ainda se perspetivam - "pelo menos mais dois pontos percentuais" - associadas à perda do poder de compra vão trazer dissabores para muitos portugueses.

Isto porque também há créditos cuja revisão ainda não foi seriamente afetada, nomeadamente os de pessoas que tenham empréstimos a 6 e 12 meses. No primeiro caso já toda a gente sentiu o aumento da prestação mensal, mas até é esperado que um aumento mais gravoso volte a acontecer. Já no segundo caso muitas pessoas ainda não viram efeitos, como é o caso de pessoas que tenham contratos feitos em abril, por exemplo, e cuja revisão da prestação ainda não ocorreu.

António Caleiro não fica surpreendido com estes dados, ainda que também anteveja uma descida do indicador, o que até pode acontecer "já no próximo mês". O professor de Economia da Universidade de Évora assinala à CNN Portugal que estes indicadores acabam por ser determinados, muitas vezes, com recurso a informação retrospetiva.

"Os agentes económicos formulam expetativas com base na evolução passada da situação económica, e da sua, em particular", explica, relevando o facto de os indicadores da situação financeira do agregado familiar para os últimos e para os próximos 12 meses uma clara correlação.

Na prática, os consumidores têm sempre em consideração aquilo que é a sua situação atual, o que não deixa de influenciar de forma decisiva as respostas que dão, nomeadamente porque podem ter "esquecido informação menos agradável para a sua formulação de confiança". O efeito contrário também pode ocorrer.

Desemprego, salários e os 125 euros

João Cerejeira aponta a atual situação de empregabilidade como um dos principais fatores para ainda se vislumbrar um aumento da confiança. Diz o professor que, mesmo perante uma perda do poder de compra e de maiores dificuldades das empresas, o mercado de trabalho ainda não sentiu o verdadeiro choque.

"Apesar do aumento de preços e perda de poder de compra ainda não houve um choque ao nível da procura. O custo de vida tem sido amortizado pela poupança e o efeito no emprego ainda é diminuto", acrescenta, dizendo que o aumento do desemprego ainda não é significativo, "e isso tem impacto na confiança das pessoas".

Em paralelo, aponta João Cerejeira, o ano começou com uma subida generalizada de salários, mesmo que não acompanhando a inflação. Funcionários públicos e pensionistas receberam aumentos, enquanto o Salário Mínimo Nacional também voltou a subir, o que poderá ter ajudado a "mascarar" o efeito da variação de preços, que acabará por se sentir, mesmo que mais tarde, até porque "a subida dos salários não tem acompanhado a inflação".

E ainda há outro fator que pode ter ajudado numa espécie de anestesia da perceção económica: as ajudas que o Governo tem anunciado, nomeadamente o cheque de 125 euros dado a grande parte das famílias portuguesas, e que em muitos casos serviu para equilibrar as contas.

É aquilo a que António Caleiro chama "confiança nas instituições", figura na qual está incluída o Governo. "Desse ponto de vista o cheque em causa teve, certamente, efeitos muito positivos", afirma, acrescentando um determinante que julga ser ainda mais decisivo: a sinalização de que existe alguém que percebe as consequências nefastas, para todos, no curto e longo prazo, da situação em causa. No fundo, os consumidores acabam por ver no Governo alguém em quem confiam para gerir uma situação aflitiva, a que o professor chama de "choque negativo". Num contexto político em que o eleitorado deu ao Governo uma maioria absoluta isso pode ser ainda mais significativo.

Em todo o caso, João Cerejeira, que até já esperava uma descida dos indicadores para este mês, vê como inevitável que isso venha a acontecer, mesmo que mais tarde. Para isso contribuirá a já falada situação laboral. "Quando o mercado de trabalho começar a dar sinais de aumento de desemprego vai piorar. Ainda não há muitos despedimentos, mas já há menos contratações", sublinha, apontando que muitas empresas deverão optar pela não renovação de contratos, o que na prática fará aumentar o número de desempregados.

António Caleiro concorda com esta visão sobre a estabilidade do emprego. O professor universitário indica que "a evolução da taxa de desemprego parece ser um elemento importante", apontando que há fatores como eleições ou crises de saúde pública que podem ajudar a forte volatilidade que se verifica nos indicadores. Ora, Portugal passou, recentemente, por ambas as situações: a pandemia de covid-19 ainda não acabou oficialmente e o ano de 2022 começou com eleições legislativas após a queda do Governo, o que originou uma crise política.

Melhor, mas longe dos melhores

A melhoria nos indicadores económicos aconteceu pelo terceiro mês consecutivo, mas João Cerejeira lembra que continuamos muito longe da média da União Europeia, mesmo num cenário de inversão das expectativas.

É isso que dizem os dados do Eurostat, com Portugal a ter uma indicação de confiança do consumidor quase duas vezes pior que a Zona Euro. De resto, segundo os mesmos dados, apenas Grécia (47,4 pontos), Hungria (41,1) e Eslovénia (35,3) têm perspetivas piores que Portugal, onde o número se cifrou nos 33 pontos, segundo o Eurostat, 32,5 para o INE.

Olhando para dentro, estamos também longe daquilo que é a média da série portuguesa, o que significa que os indicadores são melhores que há uns meses, mas são muito piores que aquilo que já foram. Com efeito, e comparando com fevereiro do ano passado, a expectativa dos portugueses está muito mais negativa, tendo aumentado de 14,5 para 32,5 pontos.

A isto João Cerejeira junta outro fator, um que pode já deixar uma pista que indica que a confiança não está assim tão sólida. É que o indicador de confiança na realização de compras importantes nos próximos 12 meses agravou-se, subindo quase mais quatro pontos. Foi o único a subir, mas o professor de Economia diz que isso é sintomático.

"O indicador é consistente com a subida das taxas de juro, porque as pessoas optam por cortar em bens que necessitam de crédito, como automóveis ou casas. Este dado é consistente com isso, é como que um adiamento de uma expectativa negativa. Acaba por ser o lado mais consistente com a situação atual", conclui.

Crise do Governo não abala confiança

A subida da confiança dos consumidores fez-se num período muito conturbado a nível político. Várias demissões no Governo marcaram o fim de 2022, com as saídas de Pedro Nuno Santos e Alexandra Reis à cabeça, no polémico caso da indemnização de 500 mil euros dada pela TAP àquela que meses depois viria a ser a secretária de Estado do Tesouro. Um caso que ainda não morreu, e que ainda espera por uma conclusão da Inspeção-Geral de Finanças.

Paula do Espírito Santo entende que a credibilidade do Executivo saiu beliscada pela sequência de casos, mas vê dois fatores importantes para que a confiança dos consumidores acabe por não ser influenciada: a guerra e a inflação. É um pouco a ideia de António Caleiro da "confiança nas instituições", uma vez que, num cenário de incerteza, grande parte do eleitorado que deu uma maioria absoluta ao PS continua a confiar que aquele é o caminho.

"Sabendo a aritmética parlamentar existente percebe-se essa sensação. Há uma estabilidade governativa importante", reforça a professora de Ciência Política. Uma ideia que também parece ter sido a do Presidente da República, uma vez que Marcelo Rebelo de Sousa disse sempre que era muito cedo para dissolver a Assembleia da República, deixando transparecer que ainda entendia que a maioria dos portugueses entende esta como a solução governativa pretendida.

Sobre o efeito de medidas como o cheque de 125 euros Paula do Espírito Santo vê uma possível correlação com o aumento da confiança, mesmo que isso só tenha um significado a "curto prazo", como diz poder ser o caso. "Há a falta de credibilidade que fez mossa no plano político, mas houve respostas que se foram dando".

No fundo, e no tal contexto de guerra e inflação, os consumidores acabam por perceber que o Governo terá sempre de agir nesse contexto. "Há alguma imprevisibilidade e os preços estão a subir, mas, em primeira e última fase, de forma imediata terá de ser o Governo a lidar. Depois, se algo não correr bem tem de ser o Governo a equilibrar", nota Paula do Espírito Santo, reforçando que ainda há essa confiança da maioria do eleitorado que votou no PS.

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