Voltar ao básico não significa recuar no tempo, significa ancorar o progresso tecnológico no princípio intemporal da confiança
Assistimos a uma reconfiguração do xadrez global. A era de relativa previsibilidade deu lugar a um novo paradigma marcado pela fragmentação geopolítica, por tensões inflacionistas persistentes e por uma dupla transição, energética e tecnológica, que está a redefinir por completo o funcionamento das economias. O cenário atual, de incerteza, está a ter um impacto direto nos mercados e nos cidadãos, e a elevar, cada vez mais, a importância de um ativo que, embora intangível, se tornou o verdadeiro pilar do sistema financeiro: a confiança.
Independentemente da aceleração digital e do estado de disrupção constante, a missão fundamental da banca permanece inalterada: ser um guardião seguro das poupanças, um motor de financiamento da economia real e uma âncora de estabilidade. A confiança é o alicerce sobre o qual este contrato social assenta. É um capital que se constrói lentamente, através de consistência e prudência, mas que pode evaporar-se rapidamente. A sua gestão e preservação são, por isso, a principal responsabilidade de qualquer instituição financeira.
Neste domínio, o sistema bancário europeu colhe hoje os dividendos das reformas implementadas ao longo da última década e meia. O sólido enquadramento regulatório resultou em instituições mais resilientes e capitalizadas. Uma realidade validada pelo Financial Stability Review de novembro de 2025 do Banco Central Europeu, que, apesar de alertar para os riscos geopolíticos, sublinha que os bancos da Zona Euro mantêm rácios de capital (CET1) próximos dos máximos históricos, na ordem dos 16%, e com uma notável capacidade de absorver choques externos. Esta solidez não é um exercício teórico; é a garantia real que os depositantes e os investidores procuram.
A atual estabilidade do setor financeiro não nos permite, contudo, baixar a guarda, uma vez que as novas tecnologias, como a inteligência artificial, e a nossa dependência das mesmas, trazem riscos significativos no que toca à cibersegurança. A própria Agência da União Europeia para a Cibersegurança, no relatório Threat Landscape 2024 da ENISA, alerta que o setor financeiro é um dos alvos principais de ciberataques, sendo que mais de 30% dessas ameaças são ataques de ransomware. Perante isto, em vez de vermos a inovação como uma ameaça, devemos encará-la como uma aliada fundamental, usando a tecnologia para reforçar a própria segurança do sistema. Isto é feito, por exemplo, ao tratar os ativos digitais como qualquer outro ativo "normal", registando-os nas contas do banco e aproveitando a tecnologia de base (blockchain) para aumentar a rastreabilidade e transparência, bem como ao desenvolver novos produtos, como as stablecoins (moedas digitais ligadas a uma moeda fiduciária estável), que já são criadas desde a raiz para cumprir com todas as regras do setor. Desta forma, o que poderia ser visto como uma tecnologia disruptiva e arriscada, transforma-se num pilar que gera mais confiança e segurança para todos.
A simbiose entre a inovação e a prudência exige a presença de reguladores fortes, tecnicamente preparados e com uma visão de longo prazo. Estes reguladores desempenham o papel de arquitetos e guardiões do ecossistema, cuja missão é fomentar um ambiente competitivo e inovador, sem nunca comprometer a estabilidade financeira ou a proteção do consumidor. A sua competência e independência são um pilar essencial da confiança.
Num mundo em acelerada transformação, as instituições financeiras que irão liderar não serão necessariamente as maiores, mas sim as que melhor conseguirem harmonizar a solidez do passado com a capacidade de inovar para o futuro. Voltar ao básico não significa recuar no tempo, significa ancorar o progresso tecnológico no princípio intemporal da confiança. É neste ponto de encontro entre a tradição e a vanguarda que reside a chave para uma banca verdadeiramente preparada para os desafios do século XXI.