Fica irritado no trânsito? Os truques para não se enervar ao volante

17 jul, 18:38
"Nunca vi a Areosa tão estragada". Como uma simples alteração de trânsito mudou tanto a vida destas pessoas

A resposta para esse comportamento está em algumas zonas do cérebro. Especialistas explicam como é que o stress e as emoções surgem enquanto se está a conduzir e sugerem atitudes que ajudam a combater a ansiedade

Traços de personalidade, stress e espaço fechado. São estes fatores que, segundo os especialistas, tornam o trânsito e a condução um momento de maior tensão, que leva a que se assista a zangas, berros, insultos e nervos entre os condutores. “Quem tem como traço de personalidade a impulsividade, enerva-se mais do que o habitual”, começa por explicar a psiquiatra Maria Moreno, notando que este tipo de perfil tem mais propensão para reagir de modo exagerado.  Mas todas as pessoas correm o risco de se irritarem e exagerarem na reação. “Está tudo relacionado com as emoções, o stress e a inibição de comportamentos inadequados”, diz a especialista, esclarecendo que quando um dos sistemas que no cérebro comanda estes fatores está desequilibrado, aumenta a possibilidade de a pessoa sentir raiva, refilar ou até ter ações mais radicais, como sair do carro para enfrentar outra.

A psicóloga Catarina Graça lembra, por seu lado, que a reação dos condutores depende também do estado emocional de cada um. “Para muitos, a condução é forma de descarregar os problemas acumulados”. A psicóloga sublinha que grande parte das atitudes mais agressivos ou insultos resultam de uma sensação especial que surge por se estar no interior da viatura. “É como se se estivesse numa cápsula em que se pode tudo”. Essa sensação de ‘proteção’ pode facilitar, certas atitudes, como insultos.

Mas ao mesmo tempo a sensação de estar reduzido a um espaço pode para alguns ter outras consequências, em especial em situações como filas de trânsito.  “O estar confinado a um espaço pode também causar uma tensão”, avisa a psicóloga.

Aliás, a especialista Maria Moreno nota que por ser um “local fechado” de onde não se pode fugir, leva a que muitas pessoas tenham até “ataques de pânico quando estão a conduzir”. É comum durante a condução ocorreram episódios destes que resultam da ansiedade e stress que se desenvolvem.

Os três fatores decisivos

De acordo com a psiquiatra há três fatores que influenciam a forma como se conduz e determinam a irritabilidade, a agressividade e impulsividade ao volante. São elas: as emoções, o stress e a incapacidade de inibir os comportamentos desadequados. Todos são regulados por sistemas cerebrais e quando algum deles está em desequilíbrio pode provocar reações em situações que se vivem diariamente no trânsito: como filas, manobras perigosas de um outro condutor, velocidade lenta de alguém, paragens em segunda fila, percas de prioridade, entre muitas outras situações.

No cérebro há três eixos essenciais, segundo Maria Moreno: o que regula o stress (eixo hipotálamo-pituitária-adrenal); o que trata das emoções (sistema límbico) e o que inibe que se tenham comportamentos desadequados (córtex pré-frontal). “Basta um deles estar em desequilíbrio para se ter uma situação de stress e ansiedade”, avisa.

Para explicar o que pode acontecer quando o circuito que controla as emoções está em desequilíbrio, a psiquiatra recorre ao exemplo dos doentes bipolares, que têm esse mesmo eixo afetado. Os condutores que sofrem dessa doença, em certas fases, nota a especialista, têm mais tendência para “deixar o carro no meio da estrada ou até conduzir em contra-mão”.

Já quando a zona do cérebro que filtra os comportamentos desadequados está atingida, muita vezes dizem-se e fazem-se coisas que não se devia. “É muito comum nos doentes que tiveram AVC ficarem com lesões no eixo cerebral pré-frontal afetado e isso faz com que  percam a noção daquilo que é adequado”, deixando de filtrar o que dizem e tendo comportamentos impulsivos.

Segundo vários estudos que têm sido publicados, a agressividade no trânsito é muitas vezes causa de acidentes e de infrações, sendo por isso necessário investir na educação comportamental, dizem os especialistas. Uma situação que se torna mais preocupante quando o número de portugueses que assume sentir raiva, ansiedade e stress ao volante é elevado: mais de 65% já demonstrou irritação durante a condução, e uma maioria diz palavrões, sendo que 14% o faz frequentemente; 35% grita com os outros condutores, 26% faz gestos aos outros que os enervam e mais de 68% buzina quando se sente provocado.

Os dados, de um estudo feito pela empresa Continental em colaboração com o IPAM, são o relato do que se passa nas estradas de norte a sul do país. Mas segundo a psiquiatra Maria Moreno e a psicológica Catarina Graça, há formas que podem ajudar os condutores a diminuir o stress ao volante.

Dicas para combater o stress

Contar até 20

Para não se deixar levar pelo stress de algo que o irrita, a psiquiatra Maria Moreno garante que um truque é criar a regra de contar sempre até 20 antes de agir. É uma forma de evitar a impulsividade criada pela situação

Baixar a temperatura e barrar os barulhos

Uma das estratégias é arejar o espaço. Deve-se, aconselha a especialista, abrir as janelas do carro para baixar a temperatura. Já quando se está no meio da confusão do trânsito, então, refere Catarina Graça, deve-se tentar impedir que o barulho invada o interior do carro. Aí solução pode ser fechar a janela.

Ouvir música

Uma das formas de combater o stress do trânsito é arranjar outros estímulos, nota Maria Moreno, explicando que ouvir música no carro pode ser uma das soluções. “As vezes uma música tranquila ajuda”, diz, por seu lado, a psicóloga Catarina Graça

Telefonar a alguém

Uma atitude que pode ser um bom aliado para tirar o foco do stress do trânsito é telefonar a alguém, diz Maria Moreno. 

Estar numa posição confortável

O longo tempo que se passa dentro do carro, além de provocar stress causa também desconforto, nomeadamente físico. As duas situações juntas podem agravar ainda mais o estado de ansiedade e raiva. Por isso Catarina Graça sugere que se perca algum tempo a encontrar uma posição confortável quando está sentado ao volante.

Comer pastilha elástica

Estar parado pode ser uma das causas de stress , em especial quando há falta de tempo. Por isso, a psicóloga diz que comer uma pastilha elástica pode ajudar. “Movimenta-se algum músculo, pelo menos”

Experimentar o mindfulness

Quem tem tendência para stress pode começar a fazer mindfulness e com as técnicas aprendidas acabam por ser uma ajuda, diz Maria Moreno, para combater a ansiedade, como que muitos condutores demonstram.

 

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