Luzes, músicas, mesas fartas e uma pressão silenciosa para “não falhar”. Todos os anos, o Natal e a Passagem de Ano transformam-se num teste à nossa força de vontade para consumirmos menos. E quase sempre perdemos. Mas o consumismo nesta altura do ano não é apenas falta de controlo: é o resultado de um cérebro hiperestimulado, emoções amplificadas e normas sociais que associam gastar a cuidar. Uma psiquiatra e uma psicóloga explicam porque gastamos tanto dinheiro nas festas e dão estratégias para travar o impulso antes que a conta bancária pague o preço
Ainda faltam umas decorações e o presente daquela tia que só vemos uma vez por ano. Já agora, levamos uma prendinha para nós também. Afinal, não é só dar, dar e não receber nada… este ano, a ceia é lá em casa e é preciso uma mesa farta. Vai mais um bolo-rei, já agora aquela variante com chocolate ou ovos moles também, “só para provar”. Vão mais umas azevias e umas rabanadas. Vamos comprar um vinho ‘melhorzinho’, que esta não é uma noite qualquer. Não queremos ninguém com fome, nem de copo vazio!
O dia de Natal pede um outfit novo. Vamos lá comprar! Já agora, esta camisola tão engraçada para a noite de Natal. Só a vamos vestir uma vez, mas um dia não são dias e, nesta altura, não é para se olhar a gastos.
E há ainda os presentes dos amigos secretos do trabalho, do grupo do ginásio, do grupo dos vizinhos e também do curso de reiki que terminámos agora a meio de dezembro. E há ainda um jantar de Natal de cada grupo!
No fim das festas, olhamos para a conta bancária e levamos um murro no estômago. Onde é que gastámos tanto dinheiro? E, sobretudo, porque é que gastámos tanto dinheiro? Porque é que comprámos tantas coisas? A resposta pode ser mais científica do que se pensa.
“O cérebro reage ao Natal como se estivesse num ‘parque temático’: luzes, cheiros, músicas, muita publicidade… tudo calibrado para acelerar o nosso sistema de recompensa e ‘avariar’ os nossos travões. Tudo liberta dopamina. Aquela que é conhecida como o químico do prazer, mas que, na verdade, é a química da expectativa. A dopamina é o neurotransmissor que diz ao cérebro: ‘Vai atrás disto, é importante!’. É como se o cérebro fosse um radar que não para de detetar oportunidades. A dopamina é libertada quando imagina a compra e não apenas quando a concretiza. Resultado: sentimos uma urgência quase automática de comprar”, começa por explicar a psiquiatra Maria Moreno.
“E, quando cedemos ao impulso e compramos, ativamos o circuito da recompensa e oferecemos-lhe uma pequena ‘conquista’. E nós queremos mais, porque ‘aquilo soube bem’”, acrescenta a especialista.
“Um carro com os travões gastos”
A psiquiatra explica-nos ainda que o hipocampo e a amígdala do cérebro nos “trazem as nossas memórias e amplificam as nossas emoções”. Então, se tivemos Natais felizes, tentamos recriar esse ‘cenário ideal’ através de compras. Por outro lado, se tivemos Natais difíceis, procuramos um conforto rápido, também através de compras. E depois há outras áreas do cérebro, “como o córtex cingulado anterior, que reagem fortemente ao risco de exclusão e o medo de ‘não estar à altura’ - do grupo, da família, dos amigos – e ativam os sistemas de dor social”.
“O único que podia frenar estes nossos impulsos, perde força. O córtex pré-frontal é o responsável pelo controlo, pela reflexão e pelas nossas decisões mais inteligentes. Mas ele perde poder. É como tentar travar um carro com os travões gastos numa descida. A força da gravidade ganha”, resume.
O aumento de consumo nesta época do ano não faz automaticamente de alguém um consumidor “excessivo” nos outros 11 meses. “Mas uma coisa é certa - o Natal naturalmente amplifica algo que já existe. Fragilidades emocionais maiores nesta fase podem deixar de passar despercebidas. Porque são maiores e porque o contexto é mais propicio ao alívio momentâneo e fácil”, sublinha Maria Moreno.
Mas não é só o nosso cérebro o culpado de esvaziarmos os bolsos nesta altura de festas. O ambiente em que nos inserimos e as nossas emoções também têm de responder perante os juízes do consumismo. “Oferecer presentes torna-se sinónimo de demonstrar amor, atenção e de reconhecimento, estatuto relacional e integração social, ao materializar algo que está no nosso interior. Existe também uma pressão social implícita para corresponder às expectativas (da família, dos amigos e das redes sociais). Através daquilo que vemos, quer nos filmes, na televisão ou na literatura, associa-se um ‘bom Natal’ a uma mesa abastada, muitos presentes e a experiências especiais, o que realça a ideia de que consumir é quase uma obrigação emocional e social e uma forma de demonstrar afeto e agradar”, explica a psicóloga Jéssica Araújo.
“Neste sentido, não consumir pode ser interpretado como desinteresse ou até uma falha afetiva ou na relação, levando muitas pessoas a consumir para evitar sentimentos de culpa, de rejeição ou de julgamento social”, acrescenta.
A psicóloga explica também que o consumo possui ainda “uma função de identidade”: “os objetos que oferecemos (e recebemos) funcionam como extensões do self e de nós mesmos, representando o grau de investimento emocional na relação”.
Devolver travões ao carro
A descida pode até ser íngreme, mas é fundamental devolver ao carro os travões. Travar a fundo é sempre possível e vai sempre a tempo de parar, olhar e refletir, antes de avançar. “Uma das estratégias mais importantes é pararmos por um momento antes de pagarmos e colocar a pergunta: ‘Estou a comprar isto porquê? O que é que isto resolve em mim?’. Se a resposta for tristeza, ansiedade, culpa ou aliviar a pressão, isto não é uma compra. É automedicação. O cérebro usa a compra como um analgésico rápido, mas que dura (invariavelmente) pouco”, alerta Maria Moreno.
A psicóloga Jéssica Araújo corrobora: “O primeiro passo para a prevenção do consumismo excessivo é a consciência emocional. Devemos questionar o que está por trás da vontade de comprar. Se é uma necessidade real, um desejo genuíno ou uma tentativa de aliviar um desconforto interno”.
A psicóloga dá mesmo algumas estratégias práticas:
- Definir limites claros e fazer uma lista prévia daquilo que queremos comprar. “Definir prioridades, planear quanto pretendemos gastar e para quem queremos comprar presentes”, explica Jéssica Araújo.
- Diminuir a exposição a estímulos e filtrar a informação como a que nos traz a publicidade que nos inunda nesta época do ano.
- Atribuir um novo significado ao Natal, valorizando experiências e conexões, presença e vínculos emocionais.
- Praticar o consumo consciente e separar o desejo momentâneo da necessidade real e aceitar que não é preciso corresponder a todas as expectativas externas.
- Cuidar da saúde mental.
- Reconhecer que o Natal também pode ser uma época emocionalmente exigente.
Além disso, diz Jéssica Araújo, pode ajudar na redução dos comportamentos compensatórios “substituir o consumo por estratégias de regulação, como um maior contacto social, práticas de mindfulness e de escrita expressiva e pelo autocuidado”. “Um Natal consciente assenta sobretudo em escolhas alinhadas com os nossos próprios valores internos e não apenas com normas sociais ou apelos emocionais externos”, resume.
Gastar menos e estar mais presente
À lista de estratégias aconselhadas pela psicóloga, a psiquiatra Maria Moreno acrescenta a “redução de estímulos”. “Centros comerciais, newsletters, promoções… tudo isto foi desenhado para ativar o nosso sistema de recompensa e empurrar-nos para compras impulsivas. Devemos também comprar tudo com antecedência, porque, quanto mais perto do Natal, mais a amígdala (a parte que amplifica as emoções) fica ativada: mais pressa, mais necessidade de nos compararmos com os outros, mas medo de falhar as expectativas. Comprar em cima do acontecimento é como tentar decidir com calma enquanto alguém nos grita ao ouvido. Quanto menos ruído emocional e menos influência do nosso sistema de recompensa, melhor vai ser a decisão”, explica.
Maria Morena lembra que “mais do que oferecer uma grande prenda cara no Natal, queremos oferecer a nossa presença assídua ao longo do ano”, por isso, sugere que, em vez de presentes caros e ostentativos, ofereçamos experiências, como “um jantar, um passeio ou tempo para conversar”. Isto cria memórias duradouras e aumenta a oxitocina, a hormona da ligação que nos faz sentir verdadeiramente acompanhados”, explica.
Afinal, como sublinha a psiquiatra, “prevenir o consumismo não é sobre gastar menos, mas sobre estar mais vezes e mais presente”.