Reino Unido anuncia trabalho comunitário e aulas para os pais de crianças com comportamentos antissociais. "Mais do que penas judiciais, convém falar em apoio e suporte para estas pessoas"

CNN Portugal , MCP
22 abr 2023, 19:00
Graffiti de Bansky no Barbican Center, em Londres, representa o artista norte-americano Basquiat a ser revistado pela polícia. Setembro 2017. Foto:  Robert Alexander/Getty Images

"Durante demasiado tempo, as pessoas têm suportado o flagelo do comportamento anti-social nos seus bairros", disse o chefe do governo britânico

Rishi Sunak, primeiro-ministro britânico, lançou um conjunto de medidas de combate ao comportamento antissocial definindo-o como um comportamento delinquente e visando promover uma maior segurança nas ruas de Inglaterra. As medidas implementadas passam por trabalho comunitário não pago com fatos-macaco ou coletes fluorescentes e aulas de parentalidade para os encarregados de educação das crianças que persistirem com comportamentos considerados antissociais.

Em causa estão autores de crimes menores como atos de vandalismo. Sunak afirmou que "durante demasiado tempo, as pessoas têm suportado o flagelo do comportamento anti-social nos seus bairros". Justificando as novas regras, o governante acrescentou que este tipo de criminalidade "perturba a vida quotidiana das pessoas, prejudica o comércio e corrói a sensação de segurança e comunidade que une as pessoas".

A psicóloga Filipa Jardim da Silva, da Academia Transformar, considera que esta não é a melhor estratégia para combater a pequena criminalidade e questiona mesmo a utilização do termo "antissocial" para descrever estes comportamentos. “Faz-me confusão que o termo «antissocial» seja utilizado nesse contexto porque pode gerar ou perpetuar parte do problema. É necessário percebermos que, às vezes, as nossas ações partem de uma boa intenção, mas a maneira como agimos pode destruir completamente a nossa intenção. Se vamos falar em comportamentos e condutas antissociais, convém falar em apoio e suporte para as pessoas que desenvolvem este tipo de condutas. Mais do que penas judiciais, é preciso dar-lhes aquilo de que precisam em termos de competências emocionais. O trabalho comunitário pode ser uma maneira de os integrar, mas são precisos acompanhamentos clínicos, grupos terapêuticos, programas para fomentar autocontrole e o autoconhecimento.”

Tentar combater a pequena criminalidade com medidas punitivas, aliás, tende a agravar o que se pretende corrigir, alerta a especialista.

“O isolamento e afastamento só tendem a agravar a conduta, porque reforçam a falta de competências sociais, de empatia e ligação ao outro, além de que faz com que internamente se crie um diálogo de legitimidade para fazer mal ao outro ou se destruir”, explica a psicóloga.

O que é um comportamento antissocial?

Tende-se a usar o termo “antissocial” quando a pessoa é envergonhada, introvertida e gosta de estar no seu canto. O termo leva a esse entendimento e a confusão é comum, mas também um problema e é necessário estar mais atento ao que o outro nos está a revelar.

No contexto clínico, o termo antissocial refere-se a uma perturbação de personalidade em que existe um padrão de comportamentos que viola os direitos dos outros e as normas sociais e culturais em que a pessoa está enquadrada. E não é uma condição ligeira. Pelo contrário, é grave e complexa. “Quando pensamos no espetro de comportamentos sociais temos aqui uma grande variedade, em termos de gravidade e em termos do que pode evoluir. Neste caso, podemos ter questões de manipulação, podemos ter o abuso de álcool, roubo, vandalismo, agressão física, comportamentos sexualmente inapropriados, mas aquilo que há de transversal é precisamente o desrespeito pelos direitos dos outros e pelas normas implementadas pelo contexto social”, esclarece a psicóloga.

A causa não é certa. Julga-se que o desenvolvimento desta perturbação pode partir de uma predisposição genética, pode ter a ver com fatores neurológicos ou poderá ter a ver com fatores ambientais. Ou seja, é multifatorial. Mas se for para falar sobre o mais “fácil de presumir e combater”, para Filipa Jardim da Silva, a conversa incide sobre onde e como a pessoa cresce e em que contextos se insere ao longo da vida.

“O fator ambiental é muito importante para o desenvolvimento destes comportamentos. Se a pessoa cresce com falta de suporte social, num ambiente onde não são promovidas competências emocionais e sociais, onde não se sente integrada, onde há falta de supervisão parental, exposição à violência, abuso, negligência, descriminação, tudo vai levar a uma maior ou menor prevalência de comportamentos antissociais”, revela.

Ainda assim, não é por ser mais fácil de calcular, que se torna mais fácil de combater. A complexidade está em distinguir o que faz parte do crescimento da pessoa ou o que pode ser apenas uma fase, do que é, na verdade, um sinal indicativo do estado de saúde mental. 

Apostar na saúde mental

Sem ferramentas de apoio, a solução pode tornar-se mais difícil. Para a psicóloga, a resposta “passa por não banalizar o mau estar alheio”, mas afere: “devia existir uma maior aposta na saúde mental”.

“Existe um plano nacional de vacinas em que ao longo da vida temos vários reforços, mas depois não temos um plano de saúde mental - ou seja, esta ideia de que, tal como uma criança vai pelo menos anualmente a um médico para perceber em termos de desenvolvimento físico ou fisiológico como está, também podemos ter, cada vez mais, estes recursos preventivos, porque a ideia  não é que todos nós sejamos especialistas de saúde mental, mas antes aumentar a nossa literacia a esse nível e abastecer a inteligência emocional”, considera.

“Sem esses recursos existem muitas situações que vão evoluir para algo gravoso e depois vai se a pedir ajuda e já se está numa fase em que já não basta uma intervenção psicológica ou social, além de que, em algumas situações, os estragos já podem ter sido provocados”, reitera.

Como lidar com uma pessoa antissocial?

Os sinais estão identificados. Maior nível de impulsividade, mais agressivos, com dificuldade em sentir empatia. Os antissociais não se encaixam no modelo social e isso causa dor alheia, mas não só. Eles também sofrem. E, por isso, para criar uma maior harmonia entre mundos tão distintos é preciso, mais uma vez, arranjar formas de adaptação e cooperação. A psicóloga da Academia Transformar dá algumas dicas.

“Quando me dirijo a esta pessoa, devo modelar as minhas palavras com empatia e assertividade mas, também, com calma, sem gritar, sem insultar. A postura física deve ser uma postura que não transporta uma posição de ameaça” que pode estar em coisas simples como “ao falar com o dedo levantado, ao começar uma frase com `tu´, num tom acusatório, ou mais alterado, isso tudo podem ser ignições para que a conduta dessa pessoa evolua”, ou seja: “preciso de ser calma, firme e fazer a pessoa sentir segurança. Se se sentir atacada, isto é um comportamento animal, vai atacar. No final do dia, somos seres humanos, com uma base animal, vale a pena lembrar”.

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