Recebeu o primeiro computador aos 11 anos, dois anos depois já tinha desenvolvido vários videojogos. Enfrentou uma crise existencial na adolescência devido a esta inquietação: qual a origem do universo? Deu a volta, ganhou muito dinheiro e até mais cabelo. A relação com o pai é complexa e marcou-o profundamente - "tudo aquilo de mau que se possa pensar, o meu pai fez". E vem aí uma nova fase da relação de Musk com outra pessoa complexa - o multimilionário é um dos grandes apoiantes de Trump, que toma posse esta segunda-feira. Mas como é que Elon Musk se transformou neste Elon Musk?
“Sou constantemente insultado nesta plataforma.” Poucas frases resumem tão bem os últimos anos da vida de Elon Musk como esta publicação do próprio na sua plataforma, o X. O magnata move milhões, quer a seu favor, quer para o ridicularizar.
É fascinante imaginar o que Musk estará a pensar a qualquer momento. O que é que ele vai fazer a seguir? E dizer? Porque é que ele se comporta assim?
Ao ler mais sobre esta figura incrivelmente polarizadora e também misteriosa, ficou claro que a sua infância pouco ortodoxa, e em particular a atitude do seu pai, moldou de forma significativa o comportamento do magnata.
Cresceu na África do Sul do apartheid, numa sociedade onde a discriminação e a marginalização eram parte do dia-a-dia. Por proposta da sua mãe, Maye, Elon entrou no pré-escolar mais cedo que o suposto, aos três anos. Um erro. Elon não conseguia socializar, era solitário e estava sempre no mundo da lua durante as aulas. “Achamos que ele é atrasado”, disse o diretor da escola aos pais, quando os chamou para uma reunião para debater os problemas do filho.
Os pais de Elon divorciaram-se quando ele tinha oito anos e, após um breve período a viver com a mãe em Durban, voltou para o pai, em Pretória, decisão da qual se arrepende. O pai, Errol Musk, era violento. Segundo Maye, o pai de Elon batia nela à frente dos filhos, acusação que Errol desmente a Walter Isaacson, autor da biografia oficial do multimilionário.
O pai também enriqueceu, embora não ao mesmo nível. Em 1986, adquiriu os direitos de produção de três minas de esmeraldas na Zâmbia. Não legalizou os negócios porque, segundo o próprio, “os pretos tiravam-te tudo”, referindo-se ao governo zambiano. Errol insiste que não é racista. “Eles são diferentes de mim, é só isso”, diz a Isaacson.
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Errol e Elon entraram muitas vezes em confronto, algo que perdura até aos dias de hoje. “É um ser humano terrível. Tudo aquilo de mau que se possa pensar, ele fez”, disse o dono da Tesla à Rolling Stone em 2017. Em 2022, numa entrevista a uma rádio australiana, Errol referiu que não estava orgulhoso dos feitos do filho. No ano passado, embora defendendo as palavras do filho sobre o estado do Reino Unido – disse no X que uma “guerra civil é inevitável” –, Errol pediu ao mundo para o ignorar.
Aos 11 anos, Elon recebeu o seu primeiro computador, um Commodore VIC-20, onde descobriu o seu amor por videojogos e aprendeu a linguagem de programação BASIC. Dois anos volvidos, um upgrade: recebeu um IBM PC/XT. Foi neste computador que, aos 13 anos, desenvolveu vários videojogos. Mas Elon continuava a ser solitário.
Já adolescente, Musk teve uma crise existencial desencadeada pela falta de resposta à questão que nunca terá resposta: qual a origem do universo?
“Comecei a tentar entender qual era o sentido da vida e do universo. E fiquei muito deprimido, como se a vida não tivesse sentido”, disse. Foi salvo, segundo o próprio, pelo génio de autores de ficção científica como Isaac Asimov, Douglas Adams e Robert A. Heinlein. Foi também nesta altura que começou a sonhar com o espaço e com a exploração de outros mundos e galáxias.
Ao navegarmos pelo atual feed de Musk no X, já pouco encontramos sobre essa paixão pelo cosmos. Em vez disso, encontramos muitos retweets e quote tweets (não sei o que lhes chamar agora que o nome mudou para X) de várias contas com centenas de milhares de seguidores e conhecidas por espalharem desinformação: End Wokeness, RadioGenoa, Visegrad24, Ian Miles Cheong. Entre os temas sobre os quais mais fala está a imigração – ao qual voltaremos mais à frente -, não só nos EUA, como também na Europa, em particular no Reino Unido e na Alemanha, que já demonstraram o seu receio quanto à influência que Musk está a exercer junto das opiniões públicas.
Entre toda a desinformação sobre imigração e DEI (Diversity, Equity, Inclusion) encontramos também tweets sobre teorias extravagantes sem quaisquer provas que as validem, apresentadas por um homem em tempos considerado um génio e o Tony Stark da vida real.
"(...) O uso intensivo de cesarianas permite um cérebro maior, uma vez que o tamanho do cérebro tem sido historicamente limitado pelo diâmetro do canal de parto", escreveu Musk no dia 3 de janeiro. Não há quaisquer provas científicas de que tal seja verdade.
There are certainly other factors at play, but heavy use of c-sections allows for a larger brain, as brain size has historically been limited by birth canal diameter
— Elon Musk (@elonmusk) January 3, 2024
A fortuna
Voltando à vida adolescente de Elon, aos 17 anos decide que quer ir para os EUA. A relação com o pai estava cada vez mais tumultuosa. “Num momento ele era supersimpático e, no minuto seguinte, estava a gritar connosco, a dar sermões durante horas (…) em que te chamava 'inútil' e 'patético'”, recorda um dos irmãos de Elon, Kimbal, a Walter Isaacson.
Elon ainda tentou ir diretamente para os EUA, mas o Canadá era a porta de entrada mais fácil para a América do Norte: a mãe é canadiana. Em Toronto, onde vivia com a mãe e a irmã, Tosca, Elon também não tinha vida social. Arranjou um estágio na Microsoft e conseguiu entrar na Queen’s University, também no estado do Ontário. Mas não parou aí.
No terceiro ano do curso, Musk consegue a transferência para os EUA, mais concretamente para Penn State, onde estudou física e também gestão. Já aí, em meados dos anos 90, falava em carros elétricos e em enviar foguetões para Marte. Recebeu propostas de Wall Street, mas era a costa oeste que o atraía. Foi para Silicon Valley.
Na Califórnia, juntamente com o irmão, Kimbal, e outro sócio, Greg Kouri, funda a Zip2, empresa que desenvolvia software para guias de viagem para jornais. Celebrou acordos com, entre outros, o New York Times e o Chicago Tribune. A empresa acabou por ser um sucesso e, em 1999, a Compaq comprou a Zip2 por 307 milhões de dólares. Elon recebeu 22 desses milhões, Kimbal 15.
“A minha conta bancária foi dos cinco mil dólares para os 22.005.000 dólares”, recorda. Parecia muito dinheiro para um jovem como Elon. Gastou logo um milhão num McLaren F1. A chegada do carro a sua casa foi documentada pela CNN.
A riqueza súbita pode ter acentuado mais as suas características muito particulares, diz à CNN Portugal a psicóloga Carolina de Freitas Nunes. “Quando se enriquece desta forma, as pessoas que já tinham alguma característica mais egocentrista tendem a ficar mais egocêntricas”, diz a psicóloga, que salienta, porém, que não é a riqueza que vai determinar a personalidade da pessoa.
“Pode também levar ao sentimento de impunidade”, refere, apontando outro traço da personalidade de Musk que pode ter sido amplificado à medida que enriqueceu.
“Nas suas empresas, ele é muito exigente na questão das horas extras. Não aceita que as coisas sejam mal feitas. Mas também não foi daqueles que mandavam os outros fazer. Ele não saía do local de trabalho. É muito inflexível e já no início da carreira demonstrava essa inflexibilidade mesmo para com ele. Normalmente, quando alguém conquista a riqueza com esforço próprio, valoriza mais o trabalho”, afirma Carolina de Freitas Nunes.
Se há traços da personalidade de Musk que foram mudando com o tempo, tal não se aplica à exigência que impõe nas suas empresas. “Há sítios muito mais fáceis para trabalhar, mas nunca ninguém mudou o mundo com 40 horas por semana”, escreveu o multimilionário no então Twitter, em 2018, numa série de publicações a divulgar vagas nas suas empresas.
There are way easier places to work, but nobody ever changed the world on 40 hours a week
— Elon Musk (@elonmusk) November 26, 2018
Questionado por um utilizador sobre o número correto de horas para trabalhar para mudar o mundo, Musk respondeu que varia de pessoa para pessoa, mas indicou um número mínimo. "Cerca de 80 [horas], com picos acima de 100, por vezes. O nível de dor aumenta exponencialmente acima de 80".
Aquela obsessão quase doentia
Foi também em 1999 que fundou o X.com, uma empresa de serviços financeiros online, com 12 milhões de dólares do dinheiro que recebeu da Zip2. O nome preocupou os outros amigos e fundadores, uma vez que podia facilmente ser confundido com um site pornográfico. Musk não quis saber. No ano seguinte, o X.com e a Confinity, de Peter Thiel, fundem-se. A Confinity era competidora direta do X.com através do seu serviço, o PayPal. Inicialmente, Musk era o CEO e o nome X.com prevaleceu, mas, em 2001, já com Thiel ao leme, e após fortes disputas internas, a empresa mudou definitivamente o nome para Paypal.
Musk tem uma obsessão quase doentia por Marte e tem como missão de vida “tornar a raça humana uma civilização interplanetária”, como confessou a um dos cofundadores do Paypal, Mark Woolway. Para saciar essa vontade, Musk funda em 2002 uma empresa da qual temos ouvido falar nos últimos anos, a SpaceX, com o objetivo expresso de colonizar Marte.
A empresa tem tido recentemente sucessos incríveis. De certeza que alguns de nós já olharam para o céu durante a noite para ver o comboio de satélites Starlink. A Starship, veículo espacial no qual a SpaceX tem investido milhares de milhões de dólares, está a trazer resultados prometedores ainda durante a fase de teste. O mais impressionante é, talvez, o Falcon 9, foguetão parcialmente reutilizável com grandes registos de segurança.
Marte continua, porém, distante.
Em 2014, durante uma entrevista à CNBC, Musk afirmou que seria possível enviar humanos a Marte “dentro de 10 ou 12 anos”. O prazo dos 10 anos falhou e o dos 12 também deverá, uma vez que o próprio admitiu recentemente que a primeira viagem tripulada a Marte só deverá ocorrer em 2029.
Falar de Musk é falar de algumas promessas não cumpridas. Desde a criação do X, podemos constatar algumas. “Daqui para a frente, haverá uma votação para as mudanças principais das políticas (do X). As minhas desculpas. Não voltará a acontecer”, escreveu Musk a 18 de dezembro de 2022. Desde então, várias mudanças foram feitas sem que o magnata tenha consultado os utilizadores da plataforma.
A defesa da liberdade de expressão, que Musk diz defender veementemente, também foi colocada em causa várias vezes. No dia 15 de dezembro de 2022 foram banidos do X vários jornalistas, incluindo Donie O’Sullivan, da CNN, por alegadamente terem partilhado links da conta @ElonJet, desenvolvida por um estudante de IT, Jack Sweeney, para seguir as deslocações do avião privado de Musk, que alegava que esta prática constituía doxxing, ou seja, o revelar de informações privadas sobre alguém. Todos os dados usados por Sweeney para programar o bot são públicos.
Cerca de um mês antes, a 7 de novembro, o dono do X fez outra promessa que não cumpriu. “O meu compromisso com a liberdade de expressão estende-se mesmo a não proibir a conta que segue o meu avião, mesmo que isso represente um risco direto para a segurança pessoal.” A conta @ElonJet foi banida a 14 de dezembro de 2022.
My commitment to free speech extends even to not banning the account following my plane, even though that is a direct personal safety risk
— Elon Musk (@elonmusk) November 7, 2022
De X Æ A-12 a Vivian
A vida pessoal de Musk também deu muitas voltas. Teve seis filhos com a primeira mulher, Justine. Casou-se duas vezes com a atriz britânica Talulah Riley. Teve três filhos com Grimes, incluindo X Æ A-12, protagonista frequente das aparições públicas do multimilionário, e também três com Shivon Zilis, executiva numa das suas empresas, a Neuralink. Pelo meio, ainda teve um breve romance com Amber Heard, mais conhecida pelo conflituoso divórcio com o ator Johnny Depp.
A relação com os filhos é conturbada, particularmente com a sua filha Vivian, fruto do primeiro casamento com Justine. Vivian, que resolve adotar o apelido da mãe, Wilson, é uma mulher trans, algo que desagrada profundamente a Elon. O magnata culpa a transição no tempo passado numa escola “progressista” em Los Angeles e diz que foi “enganado” a autorizar tratamentos médicos para Vivian quando esta tinha 16 anos. Em entrevista ao psicólogo e celebridade da internet Jordan Peterson, Musk afirmou que a filha estava morta para ele. Em várias publicações no X ao longo dos anos, continua a referir-se a Vivian pelo seu nome de nascimento, Xavier.
Em entrevista à NBC News em julho de 2024, Vivian afirmou que Musk nunca foi um pai muito simpático. “Ele era frio. Irrita-se muito rapidamente. É indiferente e narcisista.” Em 2022, quando submeteu os papéis para mudar oficialmente de nome, Vivian denunciou o pai. “Já não vivo com o meu pai biológico, nem desejo relacionar-me com ele de qualquer forma ou feitio”, podia ler-se no requerimento.
Nem sempre a posição de Musk sobre a comunidade LGBT foi negativa. Aliás, até chegou a ter orgulho no facto de a Tesla ter um registo perfeito em relação a esta comunidade.
“Não comprem o nosso carro se isso é um problema. As pessoas devem ser livres para viver suas vidas onde seu coração as leva ❤️🧡💛💚💙💜🖤💖🌈”, escreveu em 2019 o homem mais rico do mundo.
Don’t buy our car if that’s a problem. People should be free to live their lives where their heart takes them ❤️🧡💛💚💙💜🖤💖🌈
— Elon Musk (@elonmusk) June 26, 2018
Musk e Trump: a psicologia diz que há probabilidade de acabar mal
Musk deixou de ter amigos na comunidade trans, sobretudo após ter retirado das políticas do X proteções específicas para este grupo, em abril de 2023. Mas se lhe faltam amizades entre as minorias e a própria família, no último ano forjou uma que tem o poder de mudar o mundo.
“Apoio totalmente o Presidente Trump e faço votos para que recupere rapidamente”, escreveu Musk no X a 13 de julho do ano passado, escassas horas após o então candidato republicano ter sido vítima de um atentado contra a sua vida durante um comício em Butler, no estado da Pensilvânia.
I fully endorse President Trump and hope for his rapid recovery pic.twitter.com/ZdxkF63EqF
— Elon Musk (@elonmusk) July 13, 2024
Desde então, Musk já marcou presença em vários outros eventos de Trump. Vimo-lo a saltar entusiasticamente em palco e a gritar “USA, USA” de forma um pouco estranha. Elon também esteve ao lado do presidente dos EUA quando este se reuniu com vários líderes mundiais - incluindo Emmanuel Macron, durante a cerimónia de reabertura da Catedral de Notre Dame; Giorgia Meloni, quando esta visitou os EUA; Volodymyr Zelensky, quando também se deslocou recentemente aos EUA.
Há quem já fale em oligarquia e, pegando na definição de oligarca da Porto Editora – “empresário ou industrial milionário e politicamente influente” -, tudo parece bater certo.
Ainda é pouco claro qual o objetivo principal de Musk ao aliar-se ao líder americano. A Reuters, citando seis fontes das empresas do magnata e duas fontes governamentais, escreve que o dono da Tesla pretende “proteger as suas empresas da regulamentação ou da aplicação da lei e aumentar o seu apoio governamental”.
“Ele vê a administração Trump como o veículo para se livrar do maior número possível de leis, para que possa fazer o que quiser, tão rápido quanto quiser”, disse à agência um antigo funcionário de topo da SpaceX.
Para já, a proximidade com Trump já lhe valeu um novo posto no aparelho estatal como colíder, a par de Vivek Ramaswamy, no Departamento da Eficiência Governamental (Department of Government Efficiency ou DOGE, como um conhecido meme da internet). Este departamento, diz o próprio presidente, servirá para “desmantelar a burocracia governamental, reduzir o excesso de regulamentação, cortar nas despesas supérfluas e reestruturar as agências federais.”
A sua recente viragem à direita granjeou-lhe o apoio quase inabalável do movimento MAGA e da alt-right em geral. Dizemos "quase" pois, nas últimas semanas, várias polémicas arruinaram a reputação de Musk junto dos apoiantes de Trump. A mais grave terá sido a relacionada com os vistos H1-B. Estes vistos permitem aos empregadores contratarem trabalhadores imigrantes para ocupações especializadas. Foi o instrumento que permitiu a Musk ir para os EUA e do qual as suas empresas dependem bastante. A Tesla foi mesmo das empresas americanas que mais contrataram trabalhadores com recurso a este visto no ano passado, de acordo com uma análise da Forbes.
“A razão pela qual estou nos Estados Unidos, juntamente com tantas pessoas importantes que construíram a SpaceX, a Tesla e centenas de outras empresas que tornaram os Estados Unidos fortes, é o H1B”, escreveu Musk no X no dia 28 de dezembro.
A defesa veemente de uma ferramenta que auxilia a imigração irritou muitos no movimento MAGA, pois os vistos H1-B vão contra o princípio do “America First” e, alegam, retiram empregos aos americanos qualificados.
Também se têm levantado questões sobre a solidez da relação entre Trump e Musk. São dois dos homens mais poderosos do mundo, com dinheiro quase infinito e que não estão habituados a ouvir um não. Os detratores de ambos esperam ansiosamente pelo fim da amizade, que perspetivam ser dramático.
“No início é como num casamento, é tudo muito bonito”, diz Carolina de Freitas Nunes, que afirma que há “grandes” probabilidades de os dois homens se desentenderem. “São duas pessoas com muito poder e com características muito egocentristas. Também são pouco flexíveis. Numa relação entre duas pessoas inflexíveis, a tendência é para a quebra.”
A eventual perda da amizade com Trump será um duro golpe para as ambições empresariais de Musk, mas também para o ser humano que habita nele. Como confessou à Rolling Stone em 2017, há um grande medo que o apoquenta.
"Eu nunca quero ficar sozinho. Não quero ficar sozinho."