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Depois de mais de 66 anos a voar, a comissária de bordo com mais tempo de serviço prepara-se para se reformar

CNN , Alexandra Skores
13 jun, 15:00
A jovem hospedeira Joan Prince Crandall (Foto: Cortesia de Joan Prince Crandall via CNN Newsource)
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Joan Prince Crandall começou a trabalhar como hospedeira em 1959. Muita coisa mudou desde então, a começar pelo nome da sua profissão

Ser hospedeira sempre teve um certo glamour para Joan Prince Crandall. Abriu-lhe as portas para novas experiências e deu-lhe a oportunidade de voar por todo o mundo e aprender coisas novas. Recorda os dias em que usava saltos altos e se arranjava, com estilo, para os voos – algo que, em grande parte, já não se vê hoje em dia.

Após mais de 66 anos, a lembrança desse glamour é a razão pela qual ela ainda voa. A sua entidade patronal, a Delta Air Lines, acredita que Joan é a comissária de bordo – o nome que substituiu “hospedeira”  há décadas - com mais tempo de serviço do setor.

“Essa foi a minha carreira – de hospedeira a comissária de voo”, conta em entrevista à CNN.

A jovem Joan Prince Crandall começou a sua carreira em 1959 na Pacific Airlines, que operava aviões a hélice como o Martin 404 e o Fairchild F-27. O primeiro avião em que trabalhou foi um Douglas DC-3, uma aeronave com capacidade para 24 passageiros.

“As companhias aéreas queriam mulheres jovens com um visual glamoroso”, recorda.

No entanto, à medida que a tecnologia evoluiu, o mesmo aconteceu com a profissão: desde os primeiros tempos, em que as hospedeiras usavam botas go-go e a ênfase estava no serviço, até se tornar um trabalho essencial para a segurança das companhias aéreas comerciais. Os comissários de bordo, embora continuem vestidos de forma adequada e a servir bebidas e refeições aos passageiros, são também funcionários na linha da frente durante incidentes de aviação, conduzindo os passageiros para fora através das rampas de emergência ou lidando com outras situações de emergência. Essa parte do trabalho não mudou desde que a Prince Crandall começou, mas o número de passageiros pelos quais é responsável sim.

Ao longo das décadas, as empresas para as quais trabalhou passaram por fusões e consolidações. Depois da Pacific veio a Air West, depois a Hughes Airwest, a Republic Airways, a NorthWest e, finalmente, desde 2008, a Delta Air Lines.

Joan atravessou todas essas mudanças e continuou a voar, estando agora sediada no estado de Washington. Mas a sua carreira de sucesso não se fez sem alguns desafios pelo caminho.

Um início difícil num mundo dominado pelos homens

Ser uma jovem mulher trabalhadora no final dos anos 50 e 60 não era fácil. Joan Prince Crandall recorda com carinho grande parte dos primeiros tempos da aviação: os uniformes elegantes, o serviço de primeira classe e a ênfase na segurança.

No entanto, na época, as hospedeiras também estavam sob intenso escrutínio. Algumas companhias aéreas tinham políticas sobre peso e aparência, obrigavam-nas a demitir-se se se casassem e determinavam que se reformassem aos 32 anos.

Prince Crandall tem conhecimento de outras companhias aéreas que aplicavam políticas sobre a aparência das hospedeiras, mas nunca se deparou com esses problemas com os seus empregadores. No entanto, lembra-se das políticas sobre casamento e idade. “Nos dias de hoje, isso não seria possível”, admite. 

Joan Prince Crandall, ao centro, com outros assistentes de bordo, pilotos e tripulantes da Delta Air Lines (Foto: Delta Air Lines via CNN Newsource)

Para muitas jovens, a profissão era vista como um trabalho que se fazia “durante apenas alguns anos”, diz. Mas muitas apaixonaram-se pela aviação, tal como ela, e lutaram para continuar a trabalhar, ganhar antiguidade e desfrutar de tudo o que o trabalho oferece.

A profissão de comissária de bordo remonta à década de 1930, quando as primeiras hospedeiras – muitas delas enfermeiras – foram contratadas para auxiliar os passageiros. Foram selecionadas mulheres porque constituíam “uma fonte de mão de obra barata”, de acordo com a Associação de Comissários de Bordo Profissionais. Hoje, o salário médio de um comissário de bordo é de aproximadamente 70.980 dólares (61.550 euros por ano), segundo o Gabinete de Estatísticas do Trabalho dos EUA.

Para Joan Prince Crandall, os últimos sessenta anos mudaram em muitos aspetos para além do dinheiro.

Lembra-se de quando a sua companhia aérea começou a comprar novos jatos para substituir os aviões a hélice com motores barulhentos, que eram limitados em velocidade, alcance e capacidade. “Mais altos, mais rápidos, mais suaves, com mais lugares”, exclama ela, recordando a transição para os jatos com um grande sorriso e um olhar intenso. Ainda se lembra bem como eram os novos aviões, consegue visualizar o seu interior e sentir o cheiro do combustível. “Essas mudanças foram simplesmente enormes”, recorda, com entusiasmo.

A outra grande mudança nos primeiros tempos da sua carreira foi uma legislação muito importante. Lembra-se vividamente do que a Lei dos Direitos Civis de 1964 fez pelas mulheres, especialmente na sua profissão predominantemente feminina. Inicialmente, o projeto de lei proibia apenas a discriminação com base na raça, religião, cor ou nacionalidade, mas quando foram acrescentadas as palavras “e sexo”, isso fez uma diferença enorme.

De acordo com os Arquivos Nacionais, a proibição da discriminação com base no género foi provavelmente acrescentada apenas como uma emenda para impedir a aprovação do projeto de lei, mas a medida tornou-se lei com essa proteção incluída.

“(A Lei dos Direitos Civis) mudou a vida de todas as mulheres no país, mas foi uma grande mudança para as comissárias de bordo”, afirma.

A partir de então, as comissárias de bordo — e as mulheres noutras profissões por todo o país — podiam casar-se ou ter filhos sem medo de serem despedidas. Isso abriu caminho para que as mulheres do futuro se tornassem comissárias de bordo, mas continuassem a ter uma vida fora do trabalho.

Passar o testemunho à próxima geração

As assistentes de bordo da Delta Air Lines, Alise Broussard e Joan Prince Crandall (Foto: Delta Air Lines via CNN Newsource)

Depois de 66 anos nos céus, Joan Prince Crandall prepara-se para se reformar e passar o testemunho a novas comissárias de bordo como Alise Broussard, que acabou de se formar no Centro de Formação de Bordo da Delta.

Encontraram-se recentemente, depois de Broussard ter concluído a sua formação. Prince Crandall descreveu o momento como um “déjà vu”.

Alise Broussard conta à CNN que, no seu primeiro dia, lhe pediram para escrever por que razão queria ser comissária de bordo. Ela ainda estava a terminar a licenciatura na Universidade Estadual da Louisiana quando aceitou o emprego. “Para mim, a parte mais importante foi a verdadeira ligação emocional (com os funcionários e passageiros da Delta)”, diz. 

Alise Broussard participou no treino de aterragem de emergência da Delta Air Lines (Foto: Cortesia de Alise Broussard via CNN Newsource)

É esse tipo de ligação emocional com o mundo que Joan Prince Crandall tem desfrutado desde a década de 1950. Ao longo da sua carreira, a aviação registou avanços rápidos; a chegada à Lua e o Boeing 747 surgiram uma década depois de ela ter começado a trabalhar como comissária de bordo.

“Gosto de pensar nisto como estar dentro deste longo tubo prateado, mas mais rápido, mais alto”, diz, ao refletir sobre todos os avanços tecnológicos. “Tem sido uma aprendizagem absolutamente maravilhosa.”

Algumas das partes mais importantes do trabalho – como a segurança e a ligação dos passageiros ao mundo – não mudaram.

“O trabalho é mais difícil, é mais longo” diz, ao refletir sobre o que mudou ao longo do tempo. Um Airbus A350-900 da Delta tem capacidade para 306 passageiros – quase oito vezes mais do que os Martin 404 a hélice da Pacific.

Hoje em dia, ela é frequentemente a comissária de bordo chefe nas suas rotas – a funcionária mais experiente encarregada de liderar a tripulação. “Tenho tido sorte”, diz. “Estou fisicamente saudável e ainda é divertido.”

Quando se reformar, Joan Prince Crandall planeia escrever um livro e, claro, continuar a viajar. Gostaria de visitar Paris, Mumbai e Hong Kong. Mas, desta vez, não vai anotar pedidos de bebidas nem dar instruções de segurança. Vai apenas explorar o mundo.

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