Entusiasmados com a viagem, mas preparados para fugir para um abrigo. Jovens portugueses e ucranianos vão juntar-se em Lviv para debater o futuro da União Europeia

Maria João Caetano , em Cracóvia, Polónia
3 set 2025, 10:00
Ucrânia/ União Europeia

A primeira edição do Enlargement CEmp realiza-se a partir desta quarta-feira na Ucrânia, um país que vive em guerra e que é um dos candidatos à adesão na UE. O alargamento da UE e a segurança da Europa serão, inevitavelmente, os temas centrais neste encontro de jovens

Uns vieram de Lisboa, outros de Braga, de Tavira, dos Açores, de outros pontos do país. Encontraram-se às 10 da manhã de terça-feira no aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, e foi aí que começou a aventura. Depois de um dia de viagem e de uma noite passada em Cracóvia, na Polónia, vinte jovens portugueses estão neste momento num autocarro a caminho de Lviv, na Ucrânia, onde se vão juntar a vinte jovens ucranianos para participar na primeira edição do Enlargement CEmp. Durante três dias irão conviver e trocar experiências, enquanto debatem temas como o alargamento da União Europeia, as necessidades de defesa conjunta, os novos desafios de uma cidadania europeia, a competitividade e a solidariedade dentro do espaço europeu. E a guerra, claro, o tema que não estando no programa está em todas as conversas.

“Esta é a primeira vez que se realiza o Enlargement CEmp, uma iniciativa que é inspirada no Summer CEmp mas que é, ao mesmo tempo, uma iniciativa especial, porque decorre na Ucrânia”, confirma Luís Alves, diretor da Agência Erasmus+, principal organizador desta iniciativa, em conjunto com as autoridades ucranianas e a Câmara Municipal de Lviv, e com o apoio da Representação da Comissão Europeia em Portugal.

“O Erasmus+ é um programa muito associado à mobilidade de estudantes, mas é também um instrumento de participação cívica e política dos jovens, de construção de projetos em conjunto com outros países e é também atualmente um instrumento de cooperação com a Ucrânia. É essa a grande razão que nos leva a fazer este Enlargement CEmp na Ucrânia”, explica.

Este ano celebram-se os 40 anos da assinatura do tratado de adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia (CEE), hoje União Europeia. Para assinalar esta data, o habitual Summer CEmp, a escola de verão da Representação da Comissão Europeia em Portugal, dá lugar ao Enlargement CEmp. Depois de, ao longo de sete edições, o Summer CEmp ter percorrido Portugal, realizando-se em Monsanto (2017), Marvão (2018), Monsaraz (2019), Alcoutim (2021), Ribeira Grande, nos Açores (2022), Ponte da Barca (2023) e Miranda do Douro (2024), o Enlargement CEmp vai acontecer em Lviv, cidade que fica no extremo ocidental da Ucrânia, muito perto da Polónia, e que é neste momento a Capital Europeia da Juventude.

Os 20 participantes foram escolhidos através de uma call aberta a que se podiam candidatar todos os jovens residentes em Portugal, dos 18 aos 30 anos. “Tivemos quase 200 inscrições de jovens expressando muita vontade em poder participar, a seleção foi feita cruzando vários critérios entre a qualidade da demonstração de vontade, mas também um equilíbrio no território, um equilíbrio também de percursos diferentes, de jovens diferentes, a ideia é ter aqui um grupo diverso, plural, para que o impacto em Portugal, na Ucrânia, nos projetos que possam resultar desta Enlargement CEmp possam ser também mais ricos e mais diversificados”, explica Luís Alves. A maioria dos selecionados são estudantes universitários e jovens que terminaram há pouco a sua formação. “É um grupo muito juvenil, e muito entusiasmado, com uma ansiedade própria de um evento deste género”, diz.

Estar na Ucrânia, país em guerra: “Isto é uma oportunidade espetacular”

“Eu não conhecia ninguém mesmo e acho que ninguém conhecia”, conta Isabel Lobo, de 22 anos, oriunda de Braga. “Só tomámos contacto uns com os outros quando nos escolheram e criaram um grupo de WhatsApp para começarmos a conversar. E acho que se está a estabelecer uma sinergia muito positiva entre toda a gente.” 

Prova disso é que o “campo” ainda nem começou, mas já há projetos a nascerem: nas conversas que tiveram no WhatsApp nas últimas semanas surgiu a ideia de produzir um documentário sobre esta experiência, conta Hugo Martinho, de 23 anos, que estudou jornalismo na Universidade Católica e depois fez um mestrado em cinema no Reino Unido. “Quando entrei no Enlargement CEmp pensei: isto é uma oportunidade espetacular, quantas pessoas portuguesas dos 18 aos 25 anos podem dizer que foram conhecer a Ucrânia? Então pensámos que gostaríamos de registar isto, com a colaboração de toda a gente que está a bordo, e fazer um documentário sobre o Enlargement, sobre a nossa visita à Ucrânia, sobre a amizade que provavelmente vamos construir, sobre tudo.” Munido de um telemóvel e de um tripé, o futuro documentarista começou a trabalhar logo no aeroporto e no avião, durante a longa viagem do grupo do Porto a Cracóvia, com escala em Zurique. 

O que levou Hugo a candidatar-se ao Enlargement CEmp foi “sobretudo a possibilidade de ir à Ucrânia num enquadramento europeu”, explica. “Acho que, enquanto cidadão português, não se pode falar da Ucrânia sem falarmos da Europa, porque a razão pela qual sentimos tanto o que se passa neste país e estamos em solidariedade constante com a Ucrânia é por causa deste contexto europeu. Há 50 anos isto pareceria mais um conflito perdido para a maioria dos portugueses, mas o facto de fazermos parte da Europa é o que nos une muito. Acho que foi esse sentimento poderoso que me encorajou a vir. Isso e a possibilidade de visitar a Ucrânia como cidadão envolvido, como jornalista, como filmmaker.”

A Ucrânia, apesar de estar em guerra com a Rússia, é um país candidato à adesão à União Europeia, numa altura em que o tema do alargamento volta a ocupar um lugar central no debate europeu. O processo de negociações está a decorrer desde junho do ano passado e a integração é um dos grandes objetivos do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. Esta será, portanto, esperam os organizadores, uma oportunidade “para refletir sobre o papel transformador da UE, tanto para os estados-membros como para os países candidatos".

No grupo, um dos principais temas de conversa é obviamente a segurança. “O que está a acontecer é horrível, mas há de facto uma curiosidade muito forte de ver o que é que se está a passar em algo que pode ser considerado como perto da linha da frente, esse é um interesse de todos”, garante Hugo. Os jovens leram e discutiram muito as instruções do governo ucraniano sobre segurança - ficaram a saber, por exemplo, que existe um recolher obrigatório à meia-noite e que deveriam ter preparada uma pequena sacola com bens essenciais para o caso de os alarmes soarem e terem de ir para um abrigo. Todos os participantes foram aconselhados a instalar nos seus telemóveis a aplicação de segurança do país que emite alertas sempre que a região onde se encontram está sob ataque.

“Sensibilizaram-nos para as dinâmicas do dia-a-dia do conflito. Acho que a maioria de nós ficou bastante chocada ao descobrir algumas coisas, coisas em que nem tínhamos pensado.” Alguns pais mostraram-se receosos e, numa primeira reação, até quiseram proibir os filhos de viajar, mas depois praticamente todos perceberam que esta seria uma oportunidade única e encorajaram os jovens a participar. “Até havia pais que queriam acompanhar os filhos, não por medo, mas por curiosidade”, conta Hugo.

Lviv é, dentro do contexto, uma localização considerada segura, mas a verdade é que é preciso estarem preparados para qualquer eventualidade. Na última noite, a Rússia lançou vários ataques com drones nas regiões mais ocidentais da Ucrânia e os alarmes aéreos de Lviv fizeram-se ouvir por duas vezes.

Hugo Martinho e Isabel Lobo são dois dos estudantes portugueses a caminho de Lviv

Debates, palestras, workshops: os jovens a olhar para a União Europeia

Isabel acabou de se licenciar em Direito e vai fazer um mestrado em Política Europeia no Colégio da Europa, por isso o seu interesse neste Enlargement CEmp é óbvio. “Já conhecia o Summer CEmp e quando descobri este novo campo achei que tinha tudo a ver com o meu perfil e candidatei-me. Acho que esta edição ainda é mais especial e as expectativas já são altas. Claramente, para mim, o maior interesse é ter a experiência em primeira mão de conhecer ucranianos da nossa geração. Uma coisa é aquilo que vemos na televisão, outra coisa é ter este conhecimento do conflito em primeira mão”, antecipa. “Venho com muita humildade, mesmo muita humildade para ouvir, ouvir, ouvir, ouvir. Quero pôr-me numa posição de escuta ativa.” 

E haverá muito para ouvir. O Enlargement CEmp tem “uma agenda muito intensa, muito, muito preenchida”, garante Luís Alves. Até sexta-feira, os jovens vão participar numa série de debates e workshops. A ideia, lê-se no programa, é “aproximar jovens com experiências diversas e residentes em dois países distintos, para debater as oportunidades e os desafios da construção europeia no mundo atual e, desta forma, criar uma comunidade de jovens que se comprometem a agir junto das suas comunidades no sentido de, ativamente, contribuir para a construção europeia”.

Entre os oradores convidados estão deputados no parlamento ucraniano, politólogos e investigadores, diplomatas e jornalistas. A embaixadora da Ucrânia em Portugal, Maryna Mykhailenko, também estará presente. Andriy Sadovyi, presidente da Câmara de Lviv, e Andriy Moskalenko, vice-presidente, juntam-se ao autarca português Ricardo Rio, de Braga, numa reflexão sobre o papel das cidades na construção europeia. No sábado, há até a hipótese (a confirmar) de um encontro com a primeira-ministra ucraniana, Yuliia Svyrydenko. O programa prevê também alguns momentos mais descontraídos, como uma visita pelo centro histórico da cidade e uma ida ao Festival Molodzvich, o festival da juventude.

O objetivo é “fortalecer a cidadania e o empenho de todos os participantes na construção europeia”. E tudo isto acontece poucos dias antes de a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, proferir o habitual discurso do Estado da União - vai ser a 10 de setembro, em Estrasburgo.

Mas para já, estamos em viagem. A excitação é grande e nos últimos dias ninguém tem conseguido dormir muito. “Tem sido um pouco cansativo. E eu acho que vai ser mais cansativo ainda, vão ser dias muito compactos. Mas acho que também vai passar tanto a correr que não haverá tempo para cansaço”, antecipa Isabel. 

Uma coisa engraçada deste evento, diz Isabel, é que “estamos aqui em diálogo constante, os dias inteiros, assim, toda a gente tem que conviver uns com os outros, eu acho que se vão estabelecer amizades muito, muito rapidamente”. Entre os jovens, que vão partilhar quartos e refeições e estar juntos das 9 da manhã às 9 da noite, “a conexão foi imediata”, garante Hugo. “Demo-nos todos muito bem. Há muita gente interessada, fizeram uma seleção extraordinária, porque até agora não há uma única pessoa que tenhamos conhecido que não tivesse um bom perfil, de facto, desde os que têm 18 anos e acabaram de entrar na universidade até o pessoal mais velho com 26, que já está a começar em doutoramentos e coisas do género.” 

Houve logo também “uma proximidade muito rápida” com os “mentores” - os convidados a falar ou a moderar conversas, e que viajam com os jovens e participam em todo o processo, como é o caso da jornalista Mafalda Anjos e do fotojornalista João Porfírio. “Conhecemos o presidente da Câmara Municipal de Braga, depois o Germano Almeida veio sentado ao nosso lado. Tem sido incrível”, diz Hugo.

“Há um entusiasmo que se expressa naquilo que aparentemente são já amizades muito fortes, quando ainda nem sequer praticamente partimos e, portanto, há um grande entusiasmo, uma grande excitação, a antecipação daquilo que nos pode esperar”, conclui Luís Alves. “Há uma grande partilha também já dos percursos individuais que eles já têm, sendo muito jovens, aparentemente têm já muito para contar e, portanto, está a ser já uma experiência muito interessante e muito promissora para o que aí virá.”

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